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Fernando Gomes jogou basquetebol de alta competição durante 13 anos (17 no total), sempre no FC Porto, até aos 30, ganhando cinco títulos nacionais e uma Taça de Portugal
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Fernando Gomes jogou basquetebol de alta competição durante 13 anos (17 no total), sempre no FC Porto, até aos 30, ganhando cinco títulos nacionais e uma Taça de Portugal

Fernando Gomes jogou basquetebol de alta competição durante 13 anos (17 no total), sempre no FC Porto, até aos 30, ganhando cinco títulos nacionais e uma Taça de Portugal

Pré-publicação. As raízes de Fernando Gomes, da família ao basquetebol do FC Porto, nos 10 anos na presidência da Federação

"10 anos de presidência de FPF – uma revolução tranquila no futebol português" faz o balanço do que mudou na Federação traçando o perfil de Fernando Gomes. O Observador publica um excerto do livro.

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No momento em que o atual presidente da Federação Portuguesa de Futebol assinala uma década no comando do órgão que tutela o futebol nacional, o livro “Fernando Gomes: 10 anos de presidência de FPF — uma revolução tranquila no futebol português”, da Cultura Editora e com prefácio do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, resume o que mudou na Federação e no futebol nestes dez anos. “Títulos mundiais e europeus, visão, liderança e gestão, a universidade e o conhecimento, a intervenção social, a afirmação internacional  e os bastidores de uma renovação” são alguns dos temas da publicação dividida em 16 capítulos e com vários depoimentos de quem o tem acompanhado ao longo do processo. 

Fazem também parte do livro, da autoria de João Marcelino (ex-diretor dos jornais Record, Correio da Manhã e Diário de Notícias, fundador da Sábado, colunista do Jornal Económico e atual comentador do Canal 11) outros blocos, como entrevistas a David Gill, antigo chefe executivo do Manchester United que faz parte do Comité Executivo da UEFA e é também vice-presidente da FIFA, Tiago Craveiro, CEO da Federação Portuguesa de Futebol e braço-direito de Fernando Gomes, Cristiano Ronaldo, capitão da Seleção, ou Fernando Santos, selecionador desde 2014. Além de depoimentos de Aleksander Ceferin, presidente da UEFA, e José Luís Arnaut, ministro-adjunto por altura do Euro-2004, entre muitos outros testemunhos de líderes associativos, de vários outros órgãos do futebol nacional e parceiros com maior ligação à Federação.

Da conquista do Europeu em 2016 à organização (e vitória) da Liga das Nações em 2019, passando pela construção da Cidade do Futebol, pela estreia do Canal 11 ou outros temas como a afirmação do futebol feminino, o sucesso do futsal e do futebol de praia ou a criação de novos modelos competitivos, é feita uma retrospetiva de tudo o que mudou e/ou evoluiu no âmbito da Federação nesta década.

O Observador faz a pré-publicação de parte do capítulo 2 do livro, que conta as origens de Fernando Gomes, a passagem pelo basquetebol do FC Porto e tem um testemunho de José Mourinho, técnico com quem se cruzou como administrador da SAD portista.

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Há quem ligue esse problema de saúde ao facto de não ter aceitado, uns meses depois, candidatar-se a presidente da UEFA. Mas Fernando Gomes desmente. A sua decisão nada teve a ver com esse problema grave. Apenas, e só, entendeu que naquele momento não estavam criadas as condições para deixar o projeto que liderava na FPF.

De repente, na manhã de 17 de novembro de 2015, dia do jogo particular da Seleção com o Luxemburgo, Fernando Gomes acordou com uma paralisia na mão esquerda. Não tinha tido qualquer aviso. A vida até aí correra-lhe normalmente, sempre com saúde. Em função da ocorrência foi hospitalizado e percebeu-se que tinha tido um acidente isquémico transitório, um perigoso familiar do mais conhecido e vulgar AVC, que resulta da interrupção da irrigação de sangue. A placa que se tinha formado na carótida tinha rompido. Essa placa foi removida com uma operação de urgência na Clínica Zitha, no Luxemburgo, e Fernando Gomes, que considera nunca ter sido dado a excessos alimentares, passou a ter ainda mais cuidados. Como nunca tinha fumado, nem tão pouco bebia, os médicos identificaram o stresse ligado ao exercício das suas funções como a causa provável da ocorrência e aconselharam-no a controlar melhor a atividade. Passou a fazer exames regulares. Desde então, mantém-se vigilante e dá «graças a Deus» por ter continuado um homem saudável.

Há quem ligue esse problema de saúde ao facto de não ter aceitado, uns meses depois, candidatar-se a presidente da UEFA. Mas Fernando Gomes desmente. A sua decisão nada teve a ver com esse problema grave. Apenas, e só, entendeu que naquele momento não estavam criadas as condições para deixar o projeto que liderava na FPF. Por essa altura, estava a ser construída a Cidade do Futebol. Não havia resultados, nem desportivos nem da elevação da FPF em termos financeiros e de organização. Nesse sentido, Fernando Gomes preferiu escolher o exemplo de António Guterres em vez do de Durão Barroso. Disse «não». Os apoios, confessa, eram «fortíssimos». Embora a vida lhe tenha ensinado que não se deve ter nada como garantido, reconhece hoje que tinha inúmeros apoios, que lhe davam «muitas possibilidades de vir a ser presidente da UEFA». Mas não pensou muito. Deu prioridade ao que estava a fazer na FPF, à ambição de tornar o futebol português uma referência europeia e mundial. Acreditou nisso e o futuro recompensou-o.

Ainda assim, a ideia generalizada a nível internacional levou a movimentações. Em maio de 2016, quando o processo se estava a iniciar, numa reunião a propósito do futebol no Kosovo, Aleksander Ceferin pediu a Fernando Gomes que, no final, falassem à parte. Já se conheciam bem, porque, na qualidade de membro do Comité Executivo da UEFA, Fernando Gomes tinha o acompanhamento da federação do país de Ceferin, a Eslovénia, ao qual se deslocava com frequência. Falaram, então. Ceferin pensava candidatar-se, contudo tinha «ouvido uns rumores» e desejava saber se o dirigente português ia ou não avançar. Nessa conversa, em Milão, Itália, na véspera da final da Liga dos Campeões, Gomes tranquilizou o agora presidente da UEFA: «Está descansado. Não serei candidato e podes contar com o meu apoio.»

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Fernando Soares Gomes da Silva nasceu no Porto, numa freguesia popular da cidade, a Cedofeita, a 21 de fevereiro de 1952. Tem 69 anos e uma vida recheada de sucessos pessoais, familiares e profissionais, entrecortados com as tristezas normais da existência de qualquer pessoa.

Antes de ir para a escola, ajudava os pais nas rotinas diárias da pequena mercearia da família, na Rua Marques Marinho, à Ramada Alta. No regresso, demonstrando jeito precoce para a matemática, geria as contas correntes dos clientes do negócio, muitos dos quais ainda compravam a fiado.

Viveu uma infância espartana e impregnada de valores, entre a escola e as ruas. Na escola, cumprindo as suas obrigações com excelência e ganhando reputação de bom aluno e estimado colega; na rua, palco dos primeiros passos no desporto, dividindo-se entre duas paixões que transportaria toda a vida e para as quais sempre demonstrou talento: o basquetebol, sobretudo, mas igualmente o futebol.

Filho de uma família de parcos recursos financeiros, Fernando Gomes deu sempre provas da tenacidade que o tornaria uma das figuras importantes do dirigismo português. Muito ligado à mãe, Virgilina, e sendo o mais novo de três irmãos, cedo desenvolveu o espírito de sacrifício: antes de ir para a escola, ajudava os pais nas rotinas diárias da pequena mercearia da família, na Rua Marques Marinho, à Ramada Alta. No regresso, demonstrando jeito precoce para a matemática, geria as contas correntes dos clientes do negócio, muitos dos quais ainda compravam a fiado.

A morte do pai, Delfim, quando Fernando Gomes tinha 13 anos, retirou-lhe tempo para as brincadeiras próprias da idade e também o primeiro companheiro de bancada: foi o pai que o levou aos primeiros jogos de futebol do FC Porto, no antigo Estádio das Antas. O irmão mais velho, Manuel (José é o do meio), consolidou a educação desportiva de Fernando, mostrando-se ainda mais eclético do que o pai. Os dois irmãos, além do futebol no Estádio das Antas, iam regularmente ver jogos de voleibol ao Pavilhão do Liceu D. Manuel II e de basquetebol e andebol de onze ao histórico Campo da Constituição. Com a morte do marido, Virgilina tornou-se o pilar da família. Trabalhou e lutou para criar os filhos e morreu aos 90 anos, em 2004, confortada pela longa convivência com os netos e toda a família. Fernando Gomes recorda esses momentos: «Os meus filhos conviveram bastante com a avó. A minha filha, inclusive, viveu uma parte da infância com ela, na altura em que eu e a mãe começamos a trabalhar. A imagem dela é muito marcante para a Bárbara, embora os gémeos também a tenham, porque a minha mãe esteve permanentemente connosco.»

Outro momento triste da vida de Fernando Gomes foi a morte do irmão Manuel. Esse acontecimento, precoce, marcou-o profundamente. Fernando tinha 39, Manuel, 46. Havia uma grande proximidade entre ambos. Aquela diferença de idades, que em adulto pouco significa, nos primeiros anos de vida fora suficiente para que Fernando olhasse para o irmão como um segundo pai. Tempos difíceis. Um vazio que ficou e que se nota no olhar quando recorda a perda.

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Demonstrando sempre uma energia contida, mas constante, foi no basquetebol que Fernando Gomes começou por se notabilizar no desporto. Iniciou-se a jogar num poste improvisado a partir de um mastro de uma bandeira, com uma rede, antes de fazer as provas de entrada na equipa do FC Porto, com 13 anos. Foi aceite no clube em 1966/67, como juvenil. Um dia, reparando no seu talento, Jeffrey Frantz, um norte-americano jogador-treinador dos seniores, chamou-o à equipa principal. Jogou então basquetebol de alta competição, durante 13 anos (17 no total), sempre no FC Porto, até aos 30, ganhando cinco títulos nacionais e uma Taça de Portugal.

Da carreira, lembra muitos jogos memoráveis. Um em especial, a que já se referiu numa entrevista a Daniel Oliveira, no programa Alta Definição, da SIC, em 2014. «Estavam cerca de 10 000 pessoas a assistir no Pavilhão Rosa Mota. Fiz 33 pontos nesse jogo. É daqueles em que tudo sai bem. Os jornais no dia seguinte diziam que tinha nascido um novo norte-americano na cidade do Porto.»

Da carreira, lembra muitos jogos memoráveis. Um em especial, a que já se referiu numa entrevista a Daniel Oliveira, no programa Alta Definição, da SIC, em 2014. «Estavam cerca de 10 000 pessoas a assistir no Pavilhão Rosa Mota. Fiz 33 pontos nesse jogo. É daqueles em que tudo sai bem. Os jornais no dia seguinte diziam que tinha nascido um novo norte-americano na cidade do Porto.»

Noutro jogo, lembra-se de ter convertido um cesto, para lá da linha de meio-campo, quando faltavam dois segundos para acabar. Esse lançamento empatou o jogo e levou-o para prolongamento, acabando o FC Porto por ganhar. «São momentos fantásticos e inesquecíveis.»

Em 1972, o jovem base de 19 anos seria mesmo passeado aos ombros pelas ruas do Porto, depois de conquistar o título de campeão nacional. Sob a condução de Dale Dover, um jogador-estrela do basquetebol norte-americano, recentemente desaparecido, Gomes transformou-se gradualmente numa referência da modalidade em Portugal. Colegas e rivais da época são unânimes na apreciação do atleta: era um jogador rápido, que demonstrava grande raça em campo. Muito dotado tecnicamente, com temperamento de líder, foi também um exímio lançador e uma referência que contagiava os colegas. As capacidades de liderança valeram-lhe, aliás, a braçadeira de capitão, que envergou regularmente ao longo da carreira.

Ainda agora, Fernando Gomes não esquece Dale Dover. Entende que ele deixou marca em Portugal. Cita também um outro norte-americano que passou pelo Barreirense, Earnest Killum, «verdadeiramente fabuloso». Recorda, no Sporting, Encarnação, Sobreiro e também Ernesto Ferreira da Silva, ex-adversário que hoje preside o Conselho Fiscal da FPF. No Benfica, refere-se a Zé Alberto e a Joaquim Carlos. Andando no tempo, Fernando Gomes dá destaque a uma célebre equipa do Sporting de Lourenço Marques (na atual cidade de Maputo, Moçambique), campeã nacional com nomes como Mário Albuquerque, Nélson Serra e Joaquim Pinheiro, que, mais tarde, após o 25 de Abril e a descolonização, ingressaram no Sporting Clube de Portugal. Recorda, aliás, a propósito desta grande equipa, um momento em que o FC Porto a derrotou e acabaria por sagrar-se campeão, em 1972: «O Dover disse-nos: somos mais pequenos, eles são muitos grandes, vamos marcá-los homem a homem em todo o campo. Recordo-me, como se fosse hoje, da cara deles, atónitos. Aquilo não era normal na altura. No primeiro jogo chegámos a um parcial de 20-0. Eles não conseguiam sair a jogar da sua zona defensiva. O campeonato nacional era disputado por quatro equipas a duas voltas. Na segunda perdemos com eles por um ponto, 84-85, mas fomos campeões.»

Também desse tempo, recorda Augusto Baganha, Carlos Santiago, da Académica e, um pouco mais tarde, do aparecimento daquele que viria a revelar-se o melhor jogador português de todos os tempos, Carlos Lisboa, que ainda chegou a defrontar.

* * *

«A minha função», diz sempre, «não é discutir táticas nem arbitragens.» Mas desengane-se quem acredita que Fernando Gomes não é sensível ao jogo de futebol. Pelo contrário. Com a experiência de desportista e os anos que leva ligado à modalidade, no FC Porto, na Liga e na FPF, tem opiniões. A diferença em relação a muitos outros protagonistas é que o presidente da FPF conhece o peso específico da palavra e por isso a usa com parcimónia. Só o faz a pedido, e não acede a todos. É preciso ser muito próximo para merecer a consideração de lhe ouvir opiniões.

O conhecimento do futebol, aliás, também o ganhou como praticante. Já era federado no basquetebol e, ao mesmo tempo, jogava, a médio, no campeonato inter-institutos. Mais: jogava também voleibol, passando à frente, na escolha para as equipas, de muitos outros colegas federados nessas modalidades. Sempre foi reconhecido como tendo apetência para a prática desportiva. Essas experiências levaram-no a ver jogos de futebol muito jovem, desde os tempos de Hernâni, um grande jogador da história do FC Porto, que viu jogar pela primeira vez quando deveria ter entre seis a sete anos. O futebol, como outros desportos, esteve sempre na sua vida. Por isso, admite que tem «alguma competência» para ter uma conversa séria sobre um determinado jogo ou qualquer aspeto ligado ao futebol.

Perdemos em casa com o Panathinaikos, mas ele foi categórico: “Tranquilo, Zé, vamos chegar às meias-finais”. Quando acabou o jogo da segunda mão, em Atenas, Grécia, que ganhámos — lembro-me perfeitamente, como se fosse hoje —, a primeira pessoa que encontrei quando saí do relvado e entrei na zona do balneário foi o Dr. Fernando Gomes, que, como sempre, estava com aquele sorriso discreto.
José Mourinho

Também nessa modalidade, Fernando Gomes guarda referências. Estava no Estádio das Antas, como espectador, no fatídico dia da morte, em campo, de Pavão, 16 de dezembro de 1973. Fala de Américo, Hernâni e Virgílio, glórias do FC Porto. Do Benfica, guarda memórias de Eusébio, Simões, Coluna e outros. E do Sporting destaca o guarda-redes Carvalho, José Carlos e Hilário. Seguiu de fio a pavio o Mundial de 1966, no tempo em que a televisão não era a cores. Sobretudo, tem na memória os 5-3 à Coreia do Norte, aquele mítico jogo no qual, aos 24 minutos, Portugal perdia por 0-3 e depois Eusébio assinou um poker célebre, antes do golo final de José Augusto. Do Belenenses, assinala Vicente. Daí para cá, tem presentes todas as etapas e é capaz de referenciar muitos nomes, e de todos os clubes. O presidente da FPF está muito longe de ser alguém que não acompanha de perto tudo o que diz respeito ao futebol.

O treinador José Mourinho conta um episódio que ilustra a forma de ser de Fernando Gomes: «Conheço o presidente da FPF, pois trabalhámos juntos no FC Porto. A primeira recordação que tenho dele, ocorreu no meu segundo ano. No primeiro ano, já cheguei tarde. Foi, portanto, no meu primeiro ano a sério no FC Porto. Jogávamos, então, na Taça UEFA e lembro-me do que me disse: Zé, para podermos ganhar algum dinheiro, temos de chegar às meias-finais.” Perdemos em casa com o Panathinaikos, mas ele foi categórico: “Tranquilo, Zé, vamos chegar às meias-finais”. Quando acabou o jogo da segunda mão, em Atenas, Grécia, que ganhámos — lembro-me perfeitamente, como se fosse hoje —, a primeira pessoa que encontrei quando saí do relvado e entrei na zona do balneário foi o Dr. Fernando Gomes, que, como sempre, estava com aquele sorriso discreto. E nada mais. Ele era assim, uma das pessoas importantíssimas no FC Porto, mas que não procurava protagonismo. Ele não vive de protagonismo, é uma pessoa que vive do trabalho e do contributo que dá à entidade onde se encontra. É um amigo, mas independentemente disso e, neste caso, mais importante do que isso é a sua capacidade, a sua experiência. É um homem do desporto. Não foi um jogador de futebol, mas sim de basquetebol, mas é um homem do desporto, com uma grande formação, com um enorme sentido de grupo, que acredito ainda deve manter e até ter desenvolvido. Tenho por ele um enorme respeito.»

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