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Matt Berninger em entre braços e abraços, como noutras ocasiões, sempre como se fosse a primeira vez
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Matt Berninger em entre braços e abraços, como noutras ocasiões, sempre como se fosse a primeira vez

Marisa Cardoso

Matt Berninger em entre braços e abraços, como noutras ocasiões, sempre como se fosse a primeira vez

Marisa Cardoso

Primavera Sound: os The National nunca são de mais, os Pulp são para sempre

Num último dia, com menos público do que nos dois anteriores, os Pulp foram magistrais e os The National iguais a si mesmos. O Primavera Sound regressa em 2025, entre 12 a 14 de junho.

Muito se pode dizer sobre a experiência de ver música ao vivo, tanto quanto as possibilidades infinitas de conceber e difundir um espetáculo. Mesmo durante a pandemia, privados de viver essa experiência, procurámos resgatá-la, agarrando-nos aos ecrãs, aos lives das redes sociais e aos registos de atuações armazenadas em todo o tipo de plataformas para nos aproximarmos da emoção gerada aquando do encontro entre artista e público, fumarola de uma poção mágica que só um druida sabe cozinhar.

Porém, por mais realísticos que pudessem ser esses registos, seriam sempre registos limitados, sem cheiro e sem toque. Sim, podíamos vê-los uma e outra vez, mas não era a mesma coisa que estar lá, junto de um artista, junto de outro ser humano. Esse lado humano de um concerto é o que faz bater o coração da música ao vivo. Um artista que se esqueça disso, por muito talentoso que seja e por muitos recursos técnicos e estéticos que exiba nos seus espetáculos, está-se a esquecer da sua própria alma. Sem querer, está-se a transformar simplesmente, imaculadamente, num registo.

Quando Jarvis Cocker entrou em palco, na última noite do Primavera Sound, era essa a mensagem que ele carregava. Sim, a música ao vivo está em carne, o coração ainda bate. Vestido de veludo negro da cabeça aos pés, com o seu cabelo desgrenhado e os óculos de massa pousados num nariz adunco, o vocalista dos Pulp foi o artista e o ser humano que todos ansiávamos.

Bastaram meia dúzia de acordes de I Spy e de gestos performáticos simultaneamente encantadores e desconchavados, para o público se entregar sem receio à proposta que a banda britânica trazia para esta noite. “Olá. We are Pulp. You are Portugal”, apresentou com o seu perspicaz sentido de humor, para depois pedir que o ajudássemos a trazer de novo para a vida um par de canções especiais que tinham ficado engavetadas nos anos 90. Canções que soam ao disco e ao rock dos 80, mas que também soam atuais, que transitam entre as décadas sem perder vitalidade e que de tempos a tempos ressurgem em palco.

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Disco 2000, segundo tema a entrar no carrossel de luzes dos Pulp (que não permitiram que os fotojornalistas captassem imagens, apenas os fotógrafos oficiais do festival), sacudiu os corpos de uma plateia bem composta e habitada por pessoas essencialmente na casa dos 30 e 40 anos. Já a tradução para português que Jarvis Cocker fizera do título Joyriders – “pessoa que rouba um carro para se divertir a andar em alta velocidade” – soltou o riso generalizado. Em dois temas, estava apresentada a receita do espetáculo: canções sólidas, imortais e dançáveis, uma banda coesa, um cenário minimalista, mas dinâmico, jogos de luzes vivaços e um frontman absolutamente carismático. Até parece fácil, de tão simples e natural que esta fórmula se cola aos Pulp, mas não é. As coisas simples, como os dias perfeitos, são as mais difíceis de manter e de concretizar. E as mais mágicas também.

Na hora e meia que lhes foi dedicada, os Pulp foram desvendando um guião que, embora ensaiado, esteve longe de ser maquinal. Havia espaço para respirar entre as músicas, espaço para dialogar. Em Something Changed, Jarvis Cocker explicou-nos que fora o ex-baixista do grupo, Steve Mackey, que os apresentara a Steve Albini, dos Shellac, numa sessão de estúdio em Chicago. Ambos morreram recentemente e ambos foram homenageados com esta “canção de amor”, porque um não existiria na vida dos Pulp sem o outro. Ninguém existe sem o outro.

Antes de Do You Remember the First Time?, Jarvis, que estivera neste mesmo festival em 2019, com o seu projeto a solo Jarv Is, lembrou a sua primeira vez em Portugal: 1996. “Alguns de vocês não eram nascidos, outros ainda se lembram”, didascália exata para a entrada do tema de His ‘n’ Hers (1994). Explicou ainda que o concerto desta noite de sábado, 8 de junho, era o último enquanto homem solteiro, ele que fora casado uma vez, mas que, aos 60 anos, ia “tentar de novo”. Tentar de novo. Falhar de novo. Falhar melhor, Beckett explicado por Cocker.

Antes de Sunrise, deitou-se comprido no palco, para sentir um sol de luzes a nascer atrás de si. Era a última canção antes do encore, que trouxe Like a Friend e Underwear. Querem ouvir mais alguma coisa?”, perguntou ironicamente. Já tinha havido F.E.E.L.I.N.G.C.A.L.L.E.D.L.O.V.E., Sorted for E’s & Wizz, Pink Glove, Weeds, Babies e This is Hardcore, já tinha havido tudo, mas havia este mais que tudo, este “110%” que seria a consolação, a entrega e a redenção final. Common People foi cantada como a The Universal, dos Blur, havia sido cantada na edição de 2023 do Primavera Sound: de braços no ar, olhares trocados entre as muitas pessoas banais que se balançavam e abraçavam, nuvens de emoção a emanar da relva e a agradecer ao alquimista Jarvis Cocker o prazer que era estar vivo naquele momento. No momento em que a música ao vivo se autoexplicou sem necessidade de carregar uma grande produção às costas ou qualquer adereço supérfluo. Estava encontrado o grande concerto desta edição do Primavera Sound Porto e, muito provavelmente, um dos melhores da história do festival.

The National: mais um concerto que nunca será de mais

A partir daqui, muitos foram aqueles que já não quiseram ver mais nada e abandonaram o recinto. Os que ficaram, como nós, juntaram-se aos The National no palco principal. Esta era a 22.ª vez que a banda norte-americana tocava em Portugal (e não a 19.ª, como erradamente escrevemos no artigo de antecipação do festival). A primeira vez foi em 2005, no festival Paredes de Coura e, de lá para cá, os The National tornaram-se num dos grupos mais queridos do público português. Matt Berninger sabe-o bem e, como tal, agradeceu o apoio e o carinho com que aqui é sempre recebido, já depois de se ter enfiado no meio do público pela terceira vez e de ter chegado desfraldado a palco para terminar Mr November.

Por esta altura estávamos no final de uma atuação de duas horas que pareceram 30 minutos para os fãs incorruptiveis, e quatro horas para aqueles que se classificam apenas como simpatizantes. As canções densas dos The National são capazes de nos emocionar quando as escutamos na nossa intimidade, mas num concerto de festival tendem a tornar-se, em alguns momentos, algo compactas e massudas. Uma About Today será sempre uma grande canção, como o será Abel, principalmente com um Matt Berninger a repetir tresloucado os versos “My mind’s not right, My mind’s not right”, ou uma The System Only Dreams in Total Darkness. Isso é indiscutível. Como também é indiscutível que do vocalista dos The National podemos esperar nunca menos do que entrega total, com rouquidões, excessos e recatos políticos à mistura (“feliz mês do orgulho gay”, “Donal Trump é um criminoso” e “aborto livre e legal para todas” foram algumas das mensagens escutadas ao longo do concerto).

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Tudo isto é suficiente para nos garantir que ali, à nossa frente, estará sempre uma banda de carne e osso e não uma fórmula mercantilista a quem a alma foi roubada pela indústria. Só isso já é motivo para celebrar mais um concerto dos The National em Portugal, independentemente de ser o vigésimo ou o nonagésimo. Quanto à consistência e elasticidade do reportório, o grau de devoção que cada pessoa do público tiver pela banda ditará o grau de satisfação com que sairá do concerto. Nesta noite de sábado, no Porto, o primeiro terço da plateia ficou rouco e em lágrimas e o restante recinto, bastante folgado de espaço, aproveitou a música dos The National para pôr a conversa em dia, mas sempre com o ouvido à escuta, não fosse aparecer uma Apartament Story. Boas canções são indiscutivelmente sempre boas de ouvir.

Se já depois de Pulp o número total de festivaleiros teve uma ligeira quebra, depois de The National sofreu um valente desfalque. Os resistentes (entre os 30 mil contabilizados neste dia pela organização) que ficaram no recinto e que viram Arca podem congratular-se com a decisão tomada (e, por aquilo que nos foi dito, os que ficaram para Mandy, Indiana também).

Marisa Cardoso

Arca exige que nos livremos do esqueleto rijo, das ideias preconcebidas, que nos façamos maleáveis, corpo e mente em transmutação contínua. Entre o reggaeton, o club industrial e tantas outras influências experimentais, a compositora e produtora venezuelana, amadrinhada por Björk, faz de cada espetáculo um manifesto artístico e político. Corpo é política e a política de Arca é transgénica. O espetáculo do Primavera Sound foi, assim, dedicado aos “gays, freaks, weirdos e a tudo o que se encontra pelo meio”. Foi um incêndio num dia que até começou com chuva e que molhou a atuações de Best Youth, Tiago Bettencourt e dos Expresso Transatlântico – estes últimos com um Gonçalo Varela indiferente ao mau tempo, afoito a tirar a camisola enquanto era carregado em braços de crowdsurfing.

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Ao longo dos três dias de festival, passaram 100 mil pessoas pelo recinto do Parque da Cidade. Para o ano, o Primavera Sound está de volta, entre 12 e 14 de junho. Talvez com o regresso do palco Bits num novo formato mais diurno e menos avançado nas horas da madrugada, partilhou José Barreiro com o Observador. Certamente com uma estrutura nova no palco Vodafone, que este ano teve um sobressalto no segundo dia, garantiu também o diretor do festival. Se com bom tempo ou não, isso será mais difícil de prever. Convoquem-se as macumbas para que a Primavera volte a nascer sob o auspício dourado de um gentil amanhecer.

 
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