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José Manuel Fernandes. A jangada da Medusa

O PSD cada vez mais só vai ter votos por ausência de outras alternativas no espaço não socialista. Ora este vazio, pior ou melhor, pode estar a começar a ser preenchido.

O PSD assemelha-se cada vez mais à jangada da Medusa: depois do naufrágio os sobreviventes digladiam-se para ver qual o último a escapar à morte certa. Entretanto vão deitando borda fora mesmo o que os poderia salvar.

Nestas directas os militantes escolheram insistir numa via que os conduziu a duas pesadas derrotas eleitorais – nas europeias e nas legislativas. Porquê? Porque apesar de nenhuma luzinha brilhar ao fundo do túnel em que o partido se enfiou, naquela jangada ainda sabem a quem se agarrar. As outras balsas que lhes eram oferecidas eram também isso – apenas balsas improvisadas de ideias soltas atadas como as tábuas da jangada imortalizada na pintura de Géricault – e com o defeito de implicarem o risco da mudança.

Por isso a maioria dos militantes agarrou-se ao que tinha – não uma maioria muito expressiva, mas mesmo assim uma maioria – e vamos ter mais do mesmo PSD. Ou seja mais Rui Rio e mais insatisfação surda, sobretudo mais desconexão entre este PSD e todo o eleitorado que gostaria de uma alternativa, não apenas de uma oposição que vota contra.

Quem tiver tido a paciência de ouvir o discurso de vitória de Rui Rio sem mudar de canal ou adormecer percebeu que ali não mora nenhuma ideia nova e que todas as palavras sobre unidade eram ameaças à oposição derrotada em vez de representarem um gesto magnânimo de reconciliação. Pior: verificou que nunca falou para o país, só para o umbigo do partido.

É o que eu digo: naquela sala todos se agarram à jangada que se vai desfazendo, como a mítica jangada da Medusa, sem entenderem que o PSD cada vez mais só vai ter votos por ausência de outras alternativas no espaço não socialista. Ora este vazio, pior ou melhor, pode estar a começar a ser preenchido.

Miguel Pinheiro. Rio conseguiu enterrar a oposição interna sete palmos abaixo da terra

“Muita gente achava que o atual líder do PSD entraria nos livros de História com o cognome de Rio, o Breve. Enganaram-se.”

Ao fim de dois longos anos de críticas, ao fim de uma vitória eleitoral (na Madeira) e ao fim de duas derrotas eleitorais (nas europeias e nas legislativas), Rui Rio conseguiu, finalmente, enterrar a sua oposição interna sete palmos abaixo da terra. Luís Montenegro fez questão de dizer no seu discurso, com a falta de originalidade que o caracterizou nesta campanha, que “a notícia” da sua morte “é manifestamente exagerada”. Mas, apesar de poder ser exagerada, não é errada.

Só um acentuado complexo de Napoleão poderá convencer Luís Montenegro de que é um general com 47% do PSD atrás de si. Não é: Montenegro chegou até aqui pela simples e deprimente razão de que mais ninguém quis avançar contra Rui Rio.

Nos próximos tempos também não avançará ninguém. Rui Rio pode perder as eleições nos Açores (não seria uma humilhação) e pode perder as autárquicas (basta-lhe recuperar do desastre do PSD nas anteriores). Vai ser, portanto, o candidato do PSD às próximas legislativas — sejam elas daqui a quatro anos ou antes.

Muita gente achava que o atual líder do PSD entraria nos livros de História com o cognome de Rio, o Breve. Enganaram-se.

Filomena Martins. “O problema do PSD não são os nomes, é a identidade”

“Rio fica obrigado agora a mostrar nas autárquicas se o PSD é ou não um partido de poder. Mas para isso vai ter de dizer o que o PSD representa na sociedade portuguesa.”

O problema do PSD não é neste momento uma questão de nomes. O problema do partido é a crise de identidade que vive. E nenhum dos candidatos que foi a votos nesta segunda volta inédita tinha propostas para a resolver. Por isso é que nenhum deles foi eleito de forma inequívoca pelos militantes. Por isso é que não houve mobilização por uma alternativa. Por isso é que Rui Rio se mantém líder por uma margem mínima (menos de 2 mil votos). E por isso é que o partido se vai manter completamente dividido.

É verdade que Rui Rio é, continua, líder com toda a legitimidade. Os militantes deram-lhe uma terceira oportunidade, para que ele possa atingir o objectivo que desde o início definiu para si próprio. Depois do pior resultado de sempre nas europeias e de um dos piores nas legislativas, Rio fica no entanto obrigado agora a mostrar nas autárquicas se o PSD é ou não um partido de poder. Mas para isso vai ter de dizer o que o partido representa na sociedade portuguesa. E até agora isso foi coisa que ele ainda não fez.

Ou muito nos enganará, ou Rio dificilmente mudará as suas principais posições. Nem chamará para lugares chave da sua equipa alguns dos seus opositores. E, sobretudo, não mudará o posicionamento do partido que ele insiste que seja centrista. Tendo em conta que PSD e CDS juntos perderam 900 mil votos nas últimas eleições e os democratas cristãos estão na situação que se sabe, esta estratégia só vai desguarnecer ainda mais a direita.

Já é muito difícil a direita e o centro (ou uma parte do PS, se quiserem concretizar), divergirem em relação a certas questões sociais. Sobram assim, essencialmente, as políticas económicas. Mas também as de segurança, saúde ou educação. E é nestas que o PSD, este PSD, não mostra nada de novo. Não tem ideias claras ou diferenciadoras. Não tem um projecto assumido. Não é uma alternativa.

O PSD continua órfão, à espera do seu D. Sebastião ou de uma renovação interna. Rio, por muito que possa comemorar e sorrir perante este triunfo, apenas ganhou algum tempo de paz interna. Uma paz podre, como se viu quando o nome de Passos Coelho foi invocado ainda antes antes das eleições deste sábado e nos avisos que próprio Montenegro deixou no discurso de derrota. Valem o que valem, mas vão minando e esgaçando o partido.

E enquanto a direita assim estiver, os extremismos (os vários extremismos, de um lado e de outro) vão continuar a crescer. É uma questão da Física: não há espaços vazios. Aparece sempre matéria para os preencher.

Pedro Benevides. “O Galo e os Pintainhos”

Chegará o momento em que [Rio] terá de dizer e ambicionar mais, para provar que o seu PSD consegue servir o país no Governo e não apenas na oposição”.

Foram precisos seis minutos e meio de discurso para Luís Montenegro dizer finalmente a frase que andava há um ano a tentar evitar: “Não há dúvidas ou equívocos, Rui Rio foi o vencedor destas eleições”. De facto, não terá sido fácil dar a cara por esta derrota. Precisamente porque a cara de Montenegro era o rosto da oposição interna que durante o primeiro mandato de Rio tudo fez para garantir que, chegados a este ponto, conquistaria o poder. E falhou. Mesmo depois de um resultado historicamente baixo nas Europeias, mesmo depois um resultado poucochinho nas Legislativas. O partido olhou para os dois adversários e mesmo assim escolheu renovar a confiança em Rio, em vez do homem que logo no Congresso de entronização se assumiu como alternativa.

A matemática da primeira volta era madrasta, e a última semana de campanha, Montenegro passou-a praticamente a assistir ao funeral da sua candidatura, sem que as lágrimas fossem para si: apoiantes a admitirem que perderia as eleições e vários lenços no ar pelo mítico regresso de Passos Coelho. Talvez por isso, Montenegro lá assegurou os militantes que não tinha morrido para a política. Mas este “vou andar por aí” perdeu a força de outros tempos e ficou reduzido aquilo que Rui Rio chamou da luta de galos e de pintainhos. Os de Montenegro continuaram a garantir, ao longo da noite, que a guerra permanece aberta. Mas depois da simbólica derrota, foram tiros de pólvora seca. No poleiro, ficou o mesmo galo.

Rio ganhou, anulou a voz dos críticos internos e mostrou ter aprendido com as lições do passado: não vai voltar  a dar mãos ao adversário como fez com Santana e deixou apelos à unidade em vez das declarações de guerra da semana anterior – com a ressalva de que as condições são as do líder: “Lealdade” e “seriedade”. E o líder precisava desta clarificação para tomar as rédeas do partido e ganhar condições para montar a estratégia para os desafios que tem pela frente: desde logo as autárquicas e, se tudo lhe correr bem, as legislativas. Mas com a clarificação chegou também a responsabilização. Para já, foi inteligente ao baixar as expectativas: quer apenas “reforçar a implantação autárquica”, e “começar” a ganhar o país. Mas chegará o momento em que terá de dizer e ambicionar mais do que isso, para provar que o seu PSD consegue servir o país no Governo e não apenas na oposição.

Alexandre Homem Cristo. “O PSD é finalmente o partido de Rui Rio”

“As eleições pelas quais Rio se responsabilizará integralmente são as autárquicas de 2021. É essa a prova de fogo do seu mandato e, até lá, terá paz para as preparar.”

As eleições internas do PSD foram um espectáculo miserável de ataques pessoais e insinuações, que evidenciaram um partido “infernizado”, desorientado e completamente alheado dos grandes desafios que tem pela frente. Desde logo, um vazio de discurso e de uma agenda programática. Depois, a sua perda de força de representação política – desde 2015, o esvaziamento eleitoral a nível nacional e, em particular, nas cidades de Lisboa e Porto é tão acelerado como gritante. Assim, aquilo que deveria ter sido uma luta de ideias, discussão de posicionamento ideológico e apresentação de estratégias para enfrentar o PS foi, essencialmente, uma guerra de caciques e, nas palavras do próprio Rui Rio, uma “luta de galos”.

Se isso foi marcantemente negativo para quem observa de fora, a nível interno nada retira mérito a Rui Rio, nem enfraquece a sua vitória. Rui Rio foi reeleito porque foi essa a vontade clara dos militantes do PSD. Mais ainda: depois de ser sucessivamente responsabilizado (pelos críticos) pelos maus resultados eleitorais do PSD nas europeias e nas legislativas, que bateram históricos negativos, Rio ganhou novamente o partido e derrotou Luís Montenegro, o rosto da oposição interna. Não importam sequer as percentagens finais, porque a vitória de Rio é proporcional à tremenda derrota de Montenegro: o crítico à liderança do PSD perdeu contra um líder que qualificou muito negativamente ao longo dos últimos meses e, apesar disso, foi incapaz de vencer.

O PSD está quebrado em dois? Está, evidentemente, como tem estado nos últimos dois anos. Mas as condições de Rui Rio são muito melhores hoje do que eram ontem. O PSD será, a partir de agora e pela primeira vez, inequivocamente o partido de Rui Rio. O grupo parlamentar foi escolhido por si. A preparação das eleições autárquicas será definida por si. As vozes do partido serão aquelas que Rio indicar. Deixou de haver margem para perturbações. E tudo está alinhado pela sua orientação, a começar pelo anúncio de que haverá uma lista sua e com os seus apoiantes ao Congresso – excluindo entendimentos com os apoiantes de Montenegro como aqueles que se fizeram antes com Santana Lopes (e que correram muito mal). Como sempre avisou desde o início do seu primeiro mandato (2018), as eleições pelas quais Rio se responsabilizará integralmente são as autárquicas de 2021. É essa a prova de fogo do seu mandato e, até lá, terá paz para as preparar.

André Azevedo Alves. “O PSD ao centro”

“Rui Rio tem sido sempre claro e transparente sobre a sua postura e sobre a sua estratégia. Nenhum militante do PSD pode invocar ter votado ao engano.”

A vitória de Rui Rio é por uma margem relativamente reduzida mas significativa por ser conquistada pouco tempo depois de um dos piores resultados eleitorais da história do PSD e por as diferentes opções estratégicas quanto ao posicionamento do partido terem ficado claras durante a campanha interna. Esse é aliás um aspecto que importa realçar: Rui Rio tem sido sempre claro e transparente sobre a sua postura e sobre a sua estratégia. Nenhum militante do PSD pode invocar ter votado ao engano.

Rio fica assim legitimado pelos militantes não só para liderar o partido rumo às próximas eleições autárquicas mas também para prosseguir a sua estratégia de encostar o PSD ao centro. Uma estratégia que será certamente vista com agrado pelos novos partidos Iniciativa Liberal e Chega e que aumenta também um pouco as possibilidades de recuperação do CDS (caso o partido sobreviva).

Mas talvez o sinal mais sintomático da crise do PSD e do enorme desafio que o seu reconduzido líder tem pela frente seja o facto de, ao longo do dia, a disputa entre a direcção do Livre e a sua deputada única Joacine Katar Moreira ter suscitado mais interesse do que a segunda volta das eleições internas do maior partido da oposição.

Uma última nota sobre Pedro Passos Coelho. É natural face à situação do PSD que o seu nome seja falado mas, mesmo sem considerar razões pessoais, seria um erro regressar à vida partidária nos próximos tempos. Passos Coelho acumulou um capital político sem paralelo à direita em Portugal mas este não é ainda o seu tempo.

André Abrantes Amaral. “Resultado não determina legislatura”

“Com a vitória de Rui Rio o PSD pode ficar conotado com a governação socialista e ser ultrapassado por outras forças políticas”.

O resultado da eleição de hoje pode ser determinante para o PSD, mas não determina a legislatura. Com a vitória de Rui Rio o PSD pode ficar conotado com a governação socialista e ser ultrapassado por outras forças políticas. Mas em nada altera a forma como o PS vai governar. Não altera sequer o tempo que a legislatura vai durar.

Na verdade, este PS é de esquerda e não quer entendimentos com o PSD. Os socialistas estão convencidos que a legislatura é para durar dois anos porque a situação político-económica não lhes permite esperar muito mais.

O PS precisa de dez votos no Parlamento para aprovar os orçamentos. Não quer o apoio do PSD pelo que depende do PCP e do BE. Estes não podem votar a favor sob pena de perderem o voto de protesto e a abstenção durante 4 anos é demais para estes os dois partidos.

Vencido o défice ao PS pouco resta. Até porque o que gostaria de fazer implicaria mais défice e dívida. O país está num beco sem saída e não é agora que o PSD o vai tirar de lá.