As publicações começaram a circular pouco tempo após a morte do general iraniano Qassem Soleimani, numa operação de retaliação dos Estados Unidos. Surgem em diversas línguas e foram partilhadas milhares de vezes nos últimos dias. O site “Eu gosto e tu”, por exemplo, produziu um artigo — que foi visto por mais de 467 mil pessoas e partilhado mais de três mil vezes no Facebook desde 6 de janeiro — segundo o qual o Irão teria hasteado “a bandeira da vingança” (uma bandeira vermelha), “declarando guerra à América”. Ora, a bandeira vermelha foi efetivamente hasteada na cúpula da mesquita de Jamkaran, em Qom, no Irão, após a morte do comandante da força de elite iraniana Al-Quds, como mostram as imagens partilhadas. No entanto, esta bandeira é hasteada com frequência, tanto na referida mesquita, como noutros locais.

Captura do artigo do site “Eu gosto e tu”

“Pela primeira vez na história o Irão colocou o símbolo de vingança na cúpula sagrada da mesquita de Jamkaran como promessa de uma grande batalha que se avizinha”, lê-se no site “Elegante”, que publicou um artigo visto mais de 300 mil vezes, onde incluiu um vídeo do momento em que a bandeira foi colocada naquele edifício.

Captura de ecrã do site “Elegante”

Várias publicações semelhantes, que entretanto foram verificadas pela AFP Fact Check, foram disseminadas em diversos países. Citando fontes locais, houve inclusive órgãos de comunicação social, como o Daily Mail e a CNN, que disseram que era a primeira vez na história que uma bandeira vermelha era erguida na mesquita de Jamkaran, onde, de acordo com a informação disponível no site, o general Soleimani ia frequentemente rezar.

Não existem dúvidas de que uma bandeira vermelha foi hasteada na cúpula principal da mesquita de Qom, na sequência da morte de Qassem Soleimani. Em declarações à AFP, Yassine Hossein Abadi, um dos responsáveis pela administração do espaço, confirmou que o vídeo que circula nas redes sociais foi capturado pelo serviço de imprensa daquele santuário, que decidiu não o publicar no site.

Existe, no entanto, um outro vídeo disponível no site da mesquita de Jamkaran sobre o Muharram (o primeiro mês do calendário islâmico), no qual é possível observar (aos 27 segundos) um momento em que uma bandeira vermelha – que simboliza o sangue dos mártires — é hasteada na principal cúpula do santuário. Trata-se, segundo a mesma fonte, de uma prática comum no Irão durante o Muharram – o mês do luto – em mesquitas e procissões. No dia 31 de agosto de 2019, a Iran Press publicou uma notícia na qual refere a troca de uma bandeira vermelha por uma de cor preta num santuário na cidade de Karlaba.

De acordo com Hossein Abadi, responsável pelas questões culturais do santuário, esta não é uma prática antiga em Jamkaran, mas acontece “há três anos”. Desde então, a bandeira vermelha sobrevoa a mesquita durante os dez dias de luto do Muharram, nos quais assinalam a morte de Hussein Ibn Ali. Não é verdade, portanto, que a bandeira vermelha tenha sido hasteada pela primeira vez naquele santuário após a morte de Qassem Soleimani.

Esta foi, contudo, a primeira vez que a bandeira de cor vermelha foi erguida fora do período do Muharram na principal cúpula da mesquita de Qom, no Irão. E existe, efetivamente, uma conotação de vingança associada a este símbolo, que a multidão também levou para as ruas de Teerão na homenagem ao comandante.

“Devido ao martírio […] do general Qassem Soleimani e dos seus companheiros, e após escutarmos a mensagem do guia supremo pedindo uma vingança dura, instalámos esta bandeira para que todos os fiéis [xiitas] pelo mundo, assim como todos os combatentes da liberdade se reúnam sob esta bandeira para vingar o sangue injustamente derramado de Qassem Soleimani, que nós consideramos como um dos melhores companheiros do imã oculto”, disse Hossein Aba à AFP.

Ao contrário do que afirmam algumas publicações, o responsável assegura que é “totalmente falso” que a bandeira vá permanecer erguida até que a morte de Soleimani seja vingada. Hossein adiantou apenas que a mesma vai ficar hasteada durante um determinado período de tempo, sem precisar a data em que será retirada.

E a vingança até já começou, independentemente de qualquer hastear de bandeira. No dia 8 de janeiro, Teerão lançou dezenas de mísseis sobre duas bases que abrigam tropas norte-americanas no país, Al-Asad e Erbil. Tal como o Observador noticiou, a hora do ataque foi escolhida para coincidir com a hora da morte do general, numa operação chamada Mártir Soleimani, com o código ‘Oh Zahra’.

Voltando à bandeira vermelha, nela pode ler-se a frase “Ya la-Tharat al-Hussein”, que em português significa “Aqueles que querem vingar Hussein”, neto de Maomé, que é uma das figuras mais veneradas pelos xiitas. Morto numa batalha no Iraque, em 680, os fiéis acreditam que deverá voltar para instaurar a justiça. Segundo a AFP, algumas tradições iranianas xiitas defendem que a frase deve servir como um grito de guerra aos seus seguidores no momento em que reaparecer.

Conclusão

É verdade que foi hasteada uma bandeira vermelha na mesquita de Jamkaran, em Qom, no Irão, após a morte de Qassem Soleimani. É também verdade que esta representa o desejo de vingança do Irão pela morte do comandante da força de elite iraniana Al-Quds, ordenada pelo presidente dos EUA, Donald Trump. Mas é falso que a bandeira tenha sido hasteada pela primeira vez na principal cúpula daquele santuário.

Assim, de acordo com a classificação do Observador, este conteúdo é:

Errado

No sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

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