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Eu não sei o que é o 25 de Abril. Variado nas intenções e nos interesses, nas oportunidades e nos oportunismos, nos aproveitamentos e nas dissimulações, o 25 de Abril de 1974 é um acontecimento polissémico ou, para evitar palavras feias, propício a equívocos. Se não entrarmos em pormenores, o dia inicial até pode ter sido inteiro e limpo. Os dias, as semanas e os meses posteriores foram fragmentados e sujinhos. Simplificando um bocado, há os que abominam a data porque gostavam do regime anterior. Há os que gostavam que a data tivesse significado a instauração do regime minimamente civilizado que apenas começaria em Novembro do ano seguinte. E há os que gostam da data por força de uma ilusão retroactiva, ligada ao PREC e à arrogância dos simples. Os primeiros, que apreciam genuinamente o salazarismo, não contam para esta história. Os segundos têm da História uma visão cautelosa e agridoce. Os terceiros, designados a mandar nisto através do PS ou mantidos em cavernas cheias de sombras marxistas, apoderaram-se do 25 de Abril. Pela parte que me toca, que façam bom proveito. Mas não esperem que uma pessoa adulta leve essa pessegada a sério.

Eu não levo o 25 de Abril a sério. É impossível levar a sério muitos dos que dizem celebrar o 25 de Abril para celebrar a liberdade. Todos os socialistas querem celebrar a liberdade? Os comunistas, seja de que seita forem, querem celebrar a liberdade? Os partidários de uma cultura da divisão, do conflito e do ódio querem celebrar a liberdade? Os que defendem, ou toleram, regimes totalitários, fuzilamentos pedagógicos, prisões por dissidência, censura, saneamentos e atraso de vida generalizado querem celebrar a liberdade? A liberdade é a maior inimiga dessa gente. Na boca de boa parte dos entusiastas de “Abril”, a liberdade deve ser entendida no sentido irónico, à semelhança das designações oficiais de certos países: se possuem “democrático” ou “popular” no nome, é garantido que aí não há democracia nenhuma e o povo é esmagado sem cerimónias. Em “Abril”, as únicas cerimónias são as festas dessa gente.

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