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As palavras têm uma força imensa – é através delas que construímos o nosso entendimento dos fenómenos sociais. É por isso que o combate político se ganha quase sempre controlando a linguagem. Fazê-lo é escolher o léxico com que se debate determinado fenómeno, é delimitar a primeira percepção geral sobre o problema em causa, é impor à partida uma visão política, é definir a ortodoxia. É, portanto, a forma mais eficaz de controlar a reflexão sobre um tema: normaliza um certo posicionamento político, impõe-no como senso-comum e, por fim, dificulta o aparecimento de visões alternativas, que passam a ser contra-intuitivas.

Lembrar que existem inúmeros casos na história de controlo político da linguagem é apenas dizer o óbvio – de uma forma ou de outra, foi sempre essa a ambição dos regimes autoritários. Mas é um erro de análise comum circunscrever a questão aos regimes autoritários, obcecados com o controlo populacional. Nas democracias liberais, a linguagem está no centro do combate político e cada partido faz os possíveis para conseguir normalizar a sua visão, para assim obter uma vantagem legítima sobre os adversários. Daí que os políticos recorram reiteradamente a frases sonantes e expressões originais. Daí que os partidos façam corridas para introduzir primeiro um tema na agenda. Daí que os partidos se estendam a várias organizações (como sindicatos), assim multiplicando os canais de transmissão da sua forma de ver o mundo e transmitindo uma falsa ideia de consenso em seu redor. Em Portugal, todos os partidos o fazem. Por exemplo, à direita, a expressão “geringonça” foi inscrita no debate com o propósito de descrever a maioria de apoio ao governo PS como algo atabalhoado e frágil. À esquerda, o uso reiterado de expressões como “precariedade” impôs um enquadramento para qualquer debate sobre legislação laboral.

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