Deixem-me começar por dizer que, dentro dos critérios que regem o mundo académico de aquém e além Badajoz, como cientista não sou lá grande hortaliça. Toda a minha produção intelectual que pudesse ser qualificada como tal não foi, não é, nem nunca será publicada porque, das duas, uma: ou é propriedade intelectual da minha empresa ou é propriedade intelectual dos clientes a quem serve. Infelizmente, ou talvez não, tudo o que possa ser representado por programas de computador, por modelos teóricos ou por modelos matemáticos não é patenteável por si e, portanto, a forma de uma empresa proteger a sua propriedade é não a mostrando. Assim, tirando algumas conferências a que vou usando coisas sem valor comercial imediato, a minha produção visível neste âmbito quase fica reduzida a zero. Digamos que a opinião que vão ler daqui para baixo é a opinião de um não-cientista, no sentido em que a palavra é usada dentro da economia subsidiada, da qual não tenho razões para dizer mal em termos teóricos. Para os académicos que já afiam as facas para diminuir a minha opinião, sim, eu produzo, mas vocês nunca o saberão.

Por isso, e afirmo-o várias vezes, há no sistema subsidiado de ciência várias enfermidades que prejudicam uma adoção, por menor que fosse, daquilo que é produzido dentro das portas das (poucas) Universidades que fazem ciência de facto. No entanto, há um bem público que cabe a todos nós proteger, sejam as universidades do estado ou não, e esse bem público é a credibilidade científica da academia. Para ser mais claro para toda a gente, imaginem agora, quando entrássemos num hospital, viesse uma senhora dizer que desde há um mês o hospital tinha adotado uma política de abertura e de democratização das opiniões e que se o nosso problema é fígado podíamos escolher entre quatro tipos de especialista: podíamos ir para a hepatologia, para a homeopatia, para a buziologia ou para o alinhamento dos chakras. Reparem que o certo está lá, no meio das outras pantominices que só por sorte não nos matavam. Obviamente, tudo iria estar em causa, incluindo os hepatologistas de tal hospital, porque o bem público que é a confiança que o público coloca na instituição médica, que faz com que cada um de nós não questione o que fazer se a nossa saúde estiver ameaçada; esse bem público tinha sido destruído.

A credibilidade científica da Universidade é, também ela, um bem público. Pela mesma razão que não nos questionamos se o hospital nos vai matar, não nos devemos questionar se o conhecimento emanado da Universidade é bom ou não, seja lá o que isso significar hoje. Deixem-me enfatizar – seja lá o que isso significar hoje. Porque a arma dos inimigos da ciência é dizer que aquilo que se diz hoje pode não estar certo, como tantos casos no passado mostraram. E tal é inteiramente verdade! O espantoso é que achem que uns milhares de pessoas no percentil 99 da inteligência humana não tenham chegado exatamente à mesma conclusão. Claro que todos os cientistas sabem que aquilo que dizem hoje tem uma margem grande de ser negado no futuro. Mas há uma certeza que todos os cientistas partilham, é que essa negação será feita da mesma forma, usando os mesmos métodos e a mesma lógica, que foi usada na afirmação. A ciência não se faz por voto, não é uma democracia, não existe liberdade de expressão na casa da ciência, da mesma forma que os hospitais não dão consultas de buziologia. Não é uma discussão no Facebook; exige método, controlo, lógica e muita preparação prévia para perceber onde estão as falhas e, tantas vezes, há coisas que mesmo assim escapam. Não é um debate aberto a toda a gente, embora seja aberto a todos os que cumpram com os métodos, lógica, etc. A credibilidade científica é tão importante para a sociedade que tem que ser protegida de políticos e de gente cuja importância económica se abate sobre as pessoas que a fazem.

Esta conversa toda sobre a “santidade” da credibilidade científica vem a propósito de dois eventos extremamente negativos, na minha opinião, que se abateram sobre a ciência portuguesa nos últimos tempos e, pior, são problemas autoinfligidos. Falo da conferência de alterações climáticas na Universidade do Porto e do recente chumbo da diretora executiva do Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes como investigadora passível de ser contratada (a prazo!) pelo contribuinte português.

Relativamente à primeira, e enquanto físico que sou e não geofísico, deixem-me exprimir a minha mais completa indiferença por todas as “evidências”, “especialistas” e “teorias” de toda a espécie e feitio que me têm atirado nos últimos tempos, porque eu não tenho presente a investigação relativa às alterações climáticas, não as estudo, não tenho presente as provas que se fazem contra e a favor da influência do homem nos fenómenos observados. Nem quero saber. Sei que há um sistema montado há séculos onde todas as evidências podem ser apresentadas e até são premiadas aquelas que levam a um novo conhecimento relevante. Sistema esse que envolve centenas, senão milhares de pessoas das boas, que se construiu na credibilidade científica durante anos e as mais credíveis instituições do sistema afirmam que, citando de memória, não existe a menor dúvida sobre a física do efeito de estufa; que, embora não exista uma prova inequívoca da influência humana, as evidências vão-se acumulando de forma irreversível nesse sentido e, ainda, que a atitude correta face ao risco envolvido seria assumir-se que sim, há aquecimento global gerado pelas atividades humanas. Sem búzios ou alinhamentos dos chakras.

A sra. da Geografia da Universidade do Porto que organizou a conferência do Porto vai-me desculpar a franqueza, mas está tão habilitada para entrar nesta discussão como eu. E o mesmo se poderá dizer dos inúmeros articulistas de jornal que reclamaram da censura que teria sido tentada por vários cientistas do país. Aquilo que se passou na Universidade do Porto afetou algo que não é da senhora, nem é do reitor. É meu. A credibilidade científica da Universidade do Porto é um bem público do qual essas pessoas são fiéis depositários e para o qual são pagas. No caso, até são pagos por mim. A ciência faz-se de debate entre evidências e lógica que se situam no mesmo campo de jogo, não se faz de debate aberto entre qualquer curioso que goste do tema. Da mesma forma que a hepatologia não tem que levar em conta os búzios. Concordando com os articulistas, sim houve tentativa de censura. O tipo de censura que impede que a capacidade de voo do avião em que viajam não confie nos santinhos, o hospital que os trata não confie na sorte e que os vossos filhos não sejam educados a pensar que os serviços públicos são prestados pela Patrulha Pata.

Sobre os “cientistas” que reclamavam que não havia prova inequívoca dos malefícios do tabaco, lembro-me de um investigador sério que dizia “parem de chamar-lhes cientistas, são só pessoas com alguns graus académicos”. E isto traz-me ao segundo caso. A FCT juntou todos os critérios que achou conveniente num concurso em que se pretendia financiar contratos de seis anos (!!! perguntava ao Tribunal Constitucional se as empresas podem começar a fazer contratos a prazo de 6 anos???) de cientistas de vários níveis de senioridade. Até aqui a coisa não parece anormal, no sentido de fugir à norma no país e na situação em concreto. Mas deu-se o caso de a diretora executiva do Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes não ter tido nota suficiente para se lhe fazer um contrato.

Não vou questionar os critérios da FCT ou a nota em si mesmo. Mas vou puxar de factos porque é de factos que se faz ciência. E os factos são que a senhora doutora, Maria Mota de sua graça com quem nunca tive o prazer de privar, foi Prémio Pessoa em 2013 devido à importância da sua contribuição no estudo da malária. Como devem imaginar, não foi no estudo da malária portuguesa porque nós não temos malária. Foi na malária que é uma das doenças mais problemáticas de toda a humanidade. Aquilo que estou a dizer é que, independentemente da perceção que a FCT (que não é a FCT, é um grupo de “peritos”) faz da importância científica da senhora, a verdade é que os factos mostram que esta é irrelevante. Não há qualquer relevância na avaliação da FCT porque a sociedade e o mundo já a avaliaram muito para além daquilo que a FCT ou o grupo de peritos poderiam algum dia alcançar. A situação é como o treinador do Académico de Viseu recusar que Ronaldo seja eleito o melhor do mundo porque acha que ele não joga nada (que me desculpem o treinador e o clube, mas acho que entendem). Claro que tal não diria nada de Ronaldo, mas diria tudo do Académico.

E não é verdade que não se pudesse dar um contrato à senhora, que se deve estar nas tintas porque a esta hora já deve ter 10 telefonemas que resolvem a sua situação pessoal. A verdade é que na lista de contratados estão dezenas de “investigadores” de dezenas de áreas cuja validade científica não anda longe da homeopatia. Infelizmente, ao longo dos anos, fomos aceitando brechas na credibilidade científica da nossa academia e tudo quando tem grau académico passa a ser ciência, por pouca ciência que tenha o tema. A minha visão enquanto contribuinte é relativamente simples. Até pode não haver dinheiro para todos, que não há. Então esqueçam as não ciências e deem um contrato à senhora. Porque até podemos desculpar a FCT pelo ocorrido, mas dificilmente poderemos desculpar se não for resolvido.

Infelizmente, o caso da Doutora Maria Mota está longe de ser único, é apenas mais chocante e mais radical. Há uns meses o Prof. Norberto Pires, da Robótica da Universidade de Coimbra e autor de vários livros sobre o assunto dizia-me que para a sua avaliação enquanto cientista era irrelevante ser coautor de um livro que reunia os maiores peritos do mundo que tinha vendido 2.6 milhões de cópias. Mais uma vez, a avaliação é irrelevante atendendo que o autor já está avaliado pela sociedade a um nível que os avaliadores, por ciosos que sejam dos critérios, não vão atingir. Claro que podemos fazer finca pé e dizer que não, o que interessa são os critérios escritos, a pequena economia da academia e suas regras pseudocientíficas e anticientíficas, mas em nada estamos a defender a ciência porque continuamos a confundir cientistas e académicos.

Repetindo a frase do investigador dos malefícios do tabaco “parem de chamar-lhes cientistas, são só pessoas com alguns graus académicos”, a defesa da ciência passa por se defender a ciência naquilo que é a sua importância na sociedade, na defesa do método e da lógica e do sistema que trouxe a humanidade até hoje, confiando e acreditando naquilo que o sistema produz independentemente de crenças, religiões e políticas. E, de quando em vez, os depositários da credibilidade científica deviam assumir esta defesa como sua.

(As opiniões expressas neste artigo são pessoais e vinculam apenas e somente o seu autor)
PhD em Física, Co-Fundador da Closer, Vice-Presidente da Data Science Portuguese Association