Nas redes do digital, a democracia encontra tanto o seu maior palco como a sua maior prisão. Depois de anos de deslumbramento com as redes sociais, os agentes mais ativos do processo democrático e uma larga franja dos que pensam a política começam finalmente a perceber o erro que foi aceitarem – e aderirem a – que grande parte do debate político se faça “em rede”. Como defendi em duas crónicas anteriores (“No dia em que Trump perdeu o pio” e “O silêncio das sereias”) as redes sociais não foram pensadas para cumprir uma função de mediação, antes pelo contrário: elas existem para promover a máxima subjetividade, no sentido em que pretendem conhecer as pessoas – os utilizadores das plataformas – o melhor possível, para assim monetizarem a informação recolhida. Não há uma preocupação com a verdade (seja lá o que isso for), mas uma busca da satisfação do utilizador. Espera-se que este passe cada vez mais tempo em rede, exibindo o máximo possível de si, numa dinâmica que tem contornos aditivos (como desenvolvi, também aqui, nas crónicas “Saúde mental e redes sociais” e “Os novos alcoólicos”). As redes sociais vivem da monetização do tempo despendido pelas pessoas em rede (nunca a expressão “tempo é dinheiro” fez tanto sentido), rentabilizando o conhecimento assim obtido da individualidade de cada utilizador das suas plataformas.

As redes sociais não foram pensadas para serem o palco principal do debate político. Ora, a utilização massiva das redes sociais na política está a corroer as democracias. Porquê? Porque a política feita em redes sociais definiu uma fórmula de debate egocêntrica, feita de construções superficiais e de um permanente conflito que elimina o verdadeiro pluralismo (que é o que dirime diferenças, e não o que as acicata). Mais: neste tempo de redes sociais qualquer fórmula de moderação ou cooperação, qualquer tentativa de consenso, é vista como uma fraqueza e não como parte da solução. Nesta democracia digital narcisista não há verdadeira “liberdade”, ou sequer “expressão”, porque as pessoas deixaram de se preocupar com o diálogo ou com o sentido do que dizem os outros.

Para garantir que as pessoas estão, hoje, online, o máximo tempo possível, exibindo o máximo de si, as grandes plataformas desenvolvem sistemas complexos de base algorítmica, que fomentam o mimetismo, a criação de grupos de afinidade e o espírito de comunidade (com regras e culturas próprias), elementos que combinados patrocinam o grau de conforto necessário para que a experiência digital seja rentável. O que isto significa? As redes sociais, à medida que vão conhecendo os seus utilizadores, vão criando pequenos mundos delimitados por espelhos invisíveis e ilusórios. Fechados nestes mundos, sobre si próprios, os utilizadores vão recebendo tudo aquilo que lhes alimenta o ego e as suas próprias certezas, ilusões e (in)satisfações. Mesmo na dimensão mais confrontacional, os utilizadores são empurrados para um espaço digital onde o conflito é instrumental, pois só é servido porque está definido que, para aquele utilizador, um ambiente mais agreste garante uma experiência de utilizador viciante e recheada de dependências. Quem desenhou as grandes plataformas tecnológicas não tem no seu centro de preocupação as pessoas, mas apenas aquilo que delas pode extrair.

Durante anos os partidos e os atores políticos não resistiram ao encanto aparente de plataformas que lhes foram permitindo – supostamente – intermediar em larga escala, atraindo a atenção dos utilizadores, segmentando as mensagens, a um custo marginal baixíssimo. Num outro sentido, as próprias plataformas tornaram-se viciantes para agentes políticos (neles se incluindo, políticos, jornalistas, fazedores de opinião ou até simples interessados por política que na sua bolha criaram uma falsa sensação de relevância) que, com muita frequência, são motivados na sua ação por egos gigantes que as rede sociais preenchem como ninguém.

O problema é que as democracias digitais, feitas de debates em rede, são cacofónicas, superficiais, e impedem que haja espaço para a cooperação. Por serem elas próprias ilusórias, acabam por devolver a sua própria irrelevância. Só que as redes sociais estão de tal forma a intoxicar o ambiente político que capturaram, que as próprias regras do jogo se jogam hoje segundo pressupostos incompatíveis com aquilo que se espera de democracias saudáveis. Os políticos que hoje estejam disponíveis para sair do mundo fechado em que se encerraram os seus apoiantes, é tido como “fraco”, infiel às suas ideias de nicho, e incapaz de se manter em funções. Os vencedores da política feita nas redes sociais são, infelizmente, os que menos interessam, já que o imediatismo e a falta de tempo de reflexão com que operam as interações digitais destroem o conhecimento e o valor. Não é à toa que o grande vencedor das últimas eleições, o Partido Chega, foi o que melhor explorou a dimensão emocional facilitada pelas redes sociais, tendo conseguido construir um universo paralelo onde vivem os seus apoiantes, fechados nas suas próprias certezas e ilusões, incapazes, porém, de dialogar com o mundo real e com a complexidade da vida como ela é. Mas se o Chega é o sintoma mais visível da doença dos tempos, importa dizer que com outras matizes são vários os agentes políticos mordidos pela irracionalidade e pela dependência tóxica que emana das redes sociais. O padrão de debate, hoje, nos meios de comunicação social e no Parlamento, está de tal forma influenciado pelas prioridades e pelas regras emanadas das redes sociais, que dificilmente será possível, se não houver uma tomada de consciência urgente, inverter a irrelevância, a polarização e o isolamento que tornam qualquer governação inviável.

Ironicamente, as grandes plataformas digitais vivem dos seus próprios caprichos. O que as redes dão, as redes tiram, e o Partido Chega viu-se esta semana suspenso do Facebook, por dez anos, por aparente “violação das regras da comunidade”. Seguramente, o Chega permanecerá nas redes, pois sempre haverá uma onde a sua tribo poderá viver em alerta permanente e em conflito com o mundo real. Importa perceber é se o mundo real se quer deixar levar pela vertigem do caos, ou se está disponível para regressar ao tempo onde a democracia servia, precisamente, para sanar as diferenças e os conflitos. Os Estados de Direito democrático estão a tornar-se, de uma forma radicalmente rápida, sociedades autocráticas e de vigilância. Não por causa de um qualquer “Big Brother”, mas por causa de nós mesmos e da nossa incapacidade de resistir aos vícios da tecnologia.

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