O que significa isto? Que os partidos que se não reclamam do socialismo perderam votos nas eleições europeias? É certamente verdade. O partido socialista está perto de uma situação em que pode escolher quem quiser para parceiro parlamentar ou governamental ou até ficar sozinho. É um facto. Isto significa o fim da direita?

Vejamos: a direita liberal está em franco progresso na medida em que as ideias que defende são cada vez mais património comum. Ganha na medida em que a esquerda cedeu o terreno tradicional em que se refugiava. A direita liberal ocupou definitivamente o terreno da economia e da vida social. Desde a ruidosa queda do muro de Berlim que assim é. Ninguém discute que o mercado é o meio indiscutível da decisão económica, que os métodos de cálculo económico próprios das empresas privadas são os melhores, coisa que até os técnicos do orçamento do Estado sabem, que as empresas têm de gerar lucro, que o mérito deve ser o critério da contratação e que a liberdade de fronteiras e de costumes é um valor essencial. Ninguém contesta isto. Que a partir daqui e no terreno social se deva inverter a óptica e guardar lugar para serviços públicos vocacionados para a prestação barata de utilidades aos mais desfavorecidos também ninguém contesta. Nem o próprio A. Smith se opunha. É uma evidência moral.

O que ganhou, portanto, a direita liberal nestas últimas décadas? Tudo. A começar pela falência da esquerda dirigista e estatizante. Tanto assim foi que hoje é a esquerda socialista a primeira defensora daqueles valores liberais que até há pouco (sobretudo no nosso país) se supunha que fossem exclusivos da direita. É que estes valores não são intransmissíveis. As ideias que a direita liberal sempre defendeu estão mais vivas do que nunca. Está em crise? Não. Quem está em crise é certa esquerda órfã que habita o nosso país.

Se a esquerda soube assimilar o liberalismo o que resta então para a direita? Pouco. Um discurso aderencial dirigido aos eternos insatisfeitos? O nacionalismo político? Este é um caso perdido no nosso país até porque desde o «ultimatum» britânico não existem razões históricas para tanto. O império salazarista era um atentado à lucidez e o apoucado «homo novus» cavaquista à inteligência.

A perda de terreno eleitoral pela direita só significa que a esquerda assimilou o que aquela de melhor tem ou seja, o liberalismo económico e social. Está em crise? Não, já ganhou no terreno das ideias. A direita liberal já habita os sonhos da esquerda.