Crónica

A essência do capitalismo selvagem 

Autor
163

No fundo, no fundo, o capitalismo “selvagem” é um sistema de cooperação e ajuda mútua entre pessoas livres. E que trás mais prosperidade que qualquer tipo de socialismo, selvagem ou pseudocivilizado

Depois de se fazer um grande negócio tem-se duas opções. Uma é começar a “gozar a vida”, como o homem da parábola que disse “ó alma, tens muitos bens em depósito para largos anos, descansa, come, bebe, regala-te” (Lc 12, 19). A outra é ilustrada pela opção que Kinokuniya Bunzaemon 紀伊国屋文左衛門 (1669—1734) tomou depois da sua viagem cheia de perigos:

“Apesar de o vento ser ainda forte na baía, comparado com o oceano revolto de onde vinham, o mar interior parecia-lhes, como se costuma dizer, ‘liso como um soalho’. Pouco depois do nascer do sol chegaram à frente de Edo e lançaram ancora não muito longe do estuário do Sumida-gawa.

“Por aquela altura, todos os mercadores de frutas, esperavam impacientemente a chegada dos navios com laranjas provenientes da região de Kishū, devido à iminência do Festival dos Foles. Nem o vento, nem as vagas, nem a tempestade, nada os impedia cada manhã de acreditarem que seria nesse mesmo dia que os navios chegariam. Mas o único navio que não desapontou as suas expectativas foi o Navio dos Mortos. Quando foi conhecida a sua chegada, a alegria dos grossistas e armazenistas e merceeiros foi indescritível e rapidamente se começou a entoar pelas ruas e vielas da grande cidade o poema que imortalizou esta grande aventura:

“Sobre o mar tenebroso é avistada
Uma vela, uma vela esbranquiçada.
De onde virá?
Da longínqua costa de Kishū
Trás precioso tesouro,
Laranjas d’ouro.”  

“Como um formigueiro cobre uma laranja aberta, assim os mercadores no seu entusiasmo cobriram o navio, cada um oferecendo mais que o outro por cada caixa. O resultado foi Bunzaemon encaixar nesse dia de mais de cinquenta mil ryō.

“É comum, e apenas natural, que depois de um grande ganho ou vitória uma pessoa anseie por sossego e descanso de modo a usufruir do seu lucro e espólio. É o que se chama ‘gozar tranquilamente da vida.’ Mas não era assim com Bunzaemon. Depois disto ele pensou: ‘A uma batalha segue-se outra. Devido ao persistente vento de oeste que sopra desde há várias semanas nenhum navio terá conseguido navegar de Edo para Osaka. Com certeza que lá haverá escassez de salmão salgado, enquanto aqui a oferta é tão abundante que se pode comprar baratíssimo. Quanto não ganhará o primeiro que consiga levar até lá um carregamento?’

“Quando propôs aos seus homens esta nova ventura todos aceitaram acompanhá-lo. Assim Bunzaemon comprou imediatamente um carregamento de salmão salgado, embarcou-o e pôs-se à espera de vento favorável. Não teve de esperar muito. Ao fim de  poucos dias o vento mudou de repente e uma forte brisa começou a soprar de leste. Aproveitando a primeira aragem o Navio dos Mortos foi o primeiro a sair do porto, enquanto os outros mercadores, menos despachados, ou ainda estavam a embarcar os fardos ou ainda se dirigiam para o mercado para adquirir a mercancia. Após uma viagem de vários dias o Yūrei-maru entrou no porto de Osaka, e também ali Bunzaemon conseguiu um lucro de muitas dezenas de milhar de ryō, de modo que que, quando regressou a Kumano, vinha senhor de uma inaudita soma acima dos cem mil ryō.

“Como Bunzaemon considerava que tinha podido fazer as suas viagens apenas devido aos esforços do capitão Kichidayu remunerou-o principescamente com mil ryō em ouro. A tripulação também foi remunerada tão generosamente que nenhum dos homens podia acreditar na sua boa fortuna.

“Em Kumano, a notícia da sua chegada a Edo tinha sido recebida com muita alegria pelos homens da Daikokuya e por todos os seus vizinhos. Quando Bunzaemon regressou a bordo do Yūrei-maru toda a cidade o foi acolher e oferecer os seus parabéns. A partir desse dia o Mestre da Daikokuya deixou de o acolher como aprendiz, mas passou a tratá-lo como convidado.

“Depois de contar ao seu benfeitor as suas transações e aventuras, Bunzaemon foi ter com os mercadores a quem tinha comprado as laranjas que tinha vendido em Edo e disse-lhes: ‘Agradeço-vos me terdes vendido tão barato as laranjas há uns dias atrás. Obtive um grande ganho com o carregamento que levei até Edo, e não gostaria de ser o único a lucrar enquanto todos vós perdestes dinheiro. Assim gostaria de vos dar agora o dobro do que então vos paguei.’

“Todos ficaram agradecidos com esta não esperada liberalidade, e a sua fama espalhou-se por toda a região de Kii. A partir desse dia não houve quem não conhecesse a sua generosidade e quando Bunzaemon queria investir nalgum produto todas as portas se lhe abriam e ninguém lhe punha dificuldades nas negociações, transações e contratos.

“Pouco tempo depois, Bunzaemon decidiu abandonar a pequena cidade de Kumano e ir viver para a grande cidade de Edo e tornar famoso o seu nome em todo o Império negociando em larga escala. Assim determinado foi-se despedir dos grandes mercadores de Kumano e pediu-lhes que lhe dessem o direito exclusivo de lhes comprar todas as laranjas e madeiras que vendessem para fora da província. Todos eles, sujeitos a uma pesada dívida de gratidão, simpatia e obrigação para com o jovem magnata, aceitaram a proposta de boa vontade e prometeram-lhe manter os seus armazéns em Edo bem abastecidos.

“Assim sucedeu que Bunzaemon se foi estabelecer na freguesia de Hachobori em Edo, quando tinha dezanove anos de idade. Chamou à sua empresa Kinokuniya e tornou-se o maior comerciante de laranjas e de madeira de todo o Japão e todos os dias a sua prosperidade crescia, de modo que ficou a ser conhecido, até hoje, como o Príncipe dos Mercadores.”

É um dos mitos do marxismo que o sucesso nos negócios e a acumulação de fortunas se obtém com exploração, não com cooperação. Bunzaemon sabia melhor: sucesso momentâneo não é verdadeiro sucesso, e para ser continuado em iterações futuras necessita da boa vontade e cooperação dos outros players. Para conseguir essa boa vontade é necessário algo mais do que se ser justo e honesto nas contratações, transações e negócios: é preciso ser-se liberal com as pessoas. No fundo, no fundo, o capitalismo “selvagem” é um sistema de cooperação e ajuda mútua entre pessoas livres. E que beneficia mais toda a sociedade e trás mais prosperidade que qualquer tipo de socialismo, selvagem ou pseudocivilizado.

Professor de Finanças, AESE Business School

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Sistema Financeiro

Goodhart na regulação bancária

José Miguel Pinto dos Santos

Se é esta a regulação que temos, para que serve a regulação? Será apenas para iludir o povo com a impressão de que políticos e Governos levam a sério a estabilidade do setor financeiro?

Dinheiro

Ganância de dinheiro /premium

José Miguel Pinto dos Santos

O desejo incontrolado por acumular dinheiro é um transtorno psicológico severo que pode afetar qualquer pessoa. Até socialistas. Ou ministros. E também ministros socialistas. 

Governo

Os nossos Donalds

José Miguel Pinto dos Santos
108

Será um excesso ver ministros a criar empresas? E haverá algo que dê mais prazer a um neoliberal do que ver um neomarxista a especular? Ainda por cima, não por necessidade, mas por gosto?

Crónica

A lobotomia nasceu aqui /premium

Alberto Gonçalves

Quando não estão a pagar impostos ou a ver a CMTV, as vítimas vão tirar “selfies” com os carrascos e prometem-lhes devoção e votos. Os portugueses apreciam ser humilhados ou não percebem o que são?

Crónica

Pensar com as mãos /premium

Djaimilia Pereira de Almeida
122

A caligrafia é uma técnica humana que acompanha o pensamento. O que perdemos ao deixarmos de ser capazes de pensar com as mãos e de transmitir às mãos aquilo em que estamos a pensar?

Crónica

A visita ao bispo e outras histórias /premium

Maria João Avillez

Duas Europas que se olham com azeda desconfiança cada uma combatendo com as suas iradas tropas, em surdina ou com estrondo, o antagónico universo da outra. Um combate entre dois desastres.

China

Os chineses vestem Prada /premium

Diana Soller

Depois de quatro décadas de crescimento, consolidação e expansão económica internacional não acreditar que Pequim veio para ficar como importante ator no sistema internacional só pode ser uma ilusão.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)