Crónica

A essência do capitalismo selvagem 

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No fundo, no fundo, o capitalismo “selvagem” é um sistema de cooperação e ajuda mútua entre pessoas livres. E que trás mais prosperidade que qualquer tipo de socialismo, selvagem ou pseudocivilizado

Depois de se fazer um grande negócio tem-se duas opções. Uma é começar a “gozar a vida”, como o homem da parábola que disse “ó alma, tens muitos bens em depósito para largos anos, descansa, come, bebe, regala-te” (Lc 12, 19). A outra é ilustrada pela opção que Kinokuniya Bunzaemon 紀伊国屋文左衛門 (1669—1734) tomou depois da sua viagem cheia de perigos:

“Apesar de o vento ser ainda forte na baía, comparado com o oceano revolto de onde vinham, o mar interior parecia-lhes, como se costuma dizer, ‘liso como um soalho’. Pouco depois do nascer do sol chegaram à frente de Edo e lançaram ancora não muito longe do estuário do Sumida-gawa.

“Por aquela altura, todos os mercadores de frutas, esperavam impacientemente a chegada dos navios com laranjas provenientes da região de Kishū, devido à iminência do Festival dos Foles. Nem o vento, nem as vagas, nem a tempestade, nada os impedia cada manhã de acreditarem que seria nesse mesmo dia que os navios chegariam. Mas o único navio que não desapontou as suas expectativas foi o Navio dos Mortos. Quando foi conhecida a sua chegada, a alegria dos grossistas e armazenistas e merceeiros foi indescritível e rapidamente se começou a entoar pelas ruas e vielas da grande cidade o poema que imortalizou esta grande aventura:

“Sobre o mar tenebroso é avistada
Uma vela, uma vela esbranquiçada.
De onde virá?
Da longínqua costa de Kishū
Trás precioso tesouro,
Laranjas d’ouro.”  

“Como um formigueiro cobre uma laranja aberta, assim os mercadores no seu entusiasmo cobriram o navio, cada um oferecendo mais que o outro por cada caixa. O resultado foi Bunzaemon encaixar nesse dia de mais de cinquenta mil ryō.

“É comum, e apenas natural, que depois de um grande ganho ou vitória uma pessoa anseie por sossego e descanso de modo a usufruir do seu lucro e espólio. É o que se chama ‘gozar tranquilamente da vida.’ Mas não era assim com Bunzaemon. Depois disto ele pensou: ‘A uma batalha segue-se outra. Devido ao persistente vento de oeste que sopra desde há várias semanas nenhum navio terá conseguido navegar de Edo para Osaka. Com certeza que lá haverá escassez de salmão salgado, enquanto aqui a oferta é tão abundante que se pode comprar baratíssimo. Quanto não ganhará o primeiro que consiga levar até lá um carregamento?’

“Quando propôs aos seus homens esta nova ventura todos aceitaram acompanhá-lo. Assim Bunzaemon comprou imediatamente um carregamento de salmão salgado, embarcou-o e pôs-se à espera de vento favorável. Não teve de esperar muito. Ao fim de  poucos dias o vento mudou de repente e uma forte brisa começou a soprar de leste. Aproveitando a primeira aragem o Navio dos Mortos foi o primeiro a sair do porto, enquanto os outros mercadores, menos despachados, ou ainda estavam a embarcar os fardos ou ainda se dirigiam para o mercado para adquirir a mercancia. Após uma viagem de vários dias o Yūrei-maru entrou no porto de Osaka, e também ali Bunzaemon conseguiu um lucro de muitas dezenas de milhar de ryō, de modo que que, quando regressou a Kumano, vinha senhor de uma inaudita soma acima dos cem mil ryō.

“Como Bunzaemon considerava que tinha podido fazer as suas viagens apenas devido aos esforços do capitão Kichidayu remunerou-o principescamente com mil ryō em ouro. A tripulação também foi remunerada tão generosamente que nenhum dos homens podia acreditar na sua boa fortuna.

“Em Kumano, a notícia da sua chegada a Edo tinha sido recebida com muita alegria pelos homens da Daikokuya e por todos os seus vizinhos. Quando Bunzaemon regressou a bordo do Yūrei-maru toda a cidade o foi acolher e oferecer os seus parabéns. A partir desse dia o Mestre da Daikokuya deixou de o acolher como aprendiz, mas passou a tratá-lo como convidado.

“Depois de contar ao seu benfeitor as suas transações e aventuras, Bunzaemon foi ter com os mercadores a quem tinha comprado as laranjas que tinha vendido em Edo e disse-lhes: ‘Agradeço-vos me terdes vendido tão barato as laranjas há uns dias atrás. Obtive um grande ganho com o carregamento que levei até Edo, e não gostaria de ser o único a lucrar enquanto todos vós perdestes dinheiro. Assim gostaria de vos dar agora o dobro do que então vos paguei.’

“Todos ficaram agradecidos com esta não esperada liberalidade, e a sua fama espalhou-se por toda a região de Kii. A partir desse dia não houve quem não conhecesse a sua generosidade e quando Bunzaemon queria investir nalgum produto todas as portas se lhe abriam e ninguém lhe punha dificuldades nas negociações, transações e contratos.

“Pouco tempo depois, Bunzaemon decidiu abandonar a pequena cidade de Kumano e ir viver para a grande cidade de Edo e tornar famoso o seu nome em todo o Império negociando em larga escala. Assim determinado foi-se despedir dos grandes mercadores de Kumano e pediu-lhes que lhe dessem o direito exclusivo de lhes comprar todas as laranjas e madeiras que vendessem para fora da província. Todos eles, sujeitos a uma pesada dívida de gratidão, simpatia e obrigação para com o jovem magnata, aceitaram a proposta de boa vontade e prometeram-lhe manter os seus armazéns em Edo bem abastecidos.

“Assim sucedeu que Bunzaemon se foi estabelecer na freguesia de Hachobori em Edo, quando tinha dezanove anos de idade. Chamou à sua empresa Kinokuniya e tornou-se o maior comerciante de laranjas e de madeira de todo o Japão e todos os dias a sua prosperidade crescia, de modo que ficou a ser conhecido, até hoje, como o Príncipe dos Mercadores.”

É um dos mitos do marxismo que o sucesso nos negócios e a acumulação de fortunas se obtém com exploração, não com cooperação. Bunzaemon sabia melhor: sucesso momentâneo não é verdadeiro sucesso, e para ser continuado em iterações futuras necessita da boa vontade e cooperação dos outros players. Para conseguir essa boa vontade é necessário algo mais do que se ser justo e honesto nas contratações, transações e negócios: é preciso ser-se liberal com as pessoas. No fundo, no fundo, o capitalismo “selvagem” é um sistema de cooperação e ajuda mútua entre pessoas livres. E que beneficia mais toda a sociedade e trás mais prosperidade que qualquer tipo de socialismo, selvagem ou pseudocivilizado.

Professor de Finanças, AESE Business School

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