O presidente da república convidou-o e João Miguel Tavares discursou mesmo nas cerimónias do 10 de Junho. Perante isto, era possível prever certas reacções, mas que, de tão caricaturais, talvez fossem improváveis. Sucede que, como João Miguel Tavares mostrou ontem, nada, por mais caricatural, é já improvável.

João Miguel Tavares não é professor catedrático. Mas certamente que ninguém se atreveria a dizer que, por causa disso, não tinha direito de falar nas cerimónias do 10 de Junho. Seria ridiculamente snob. Acontece que se atreveram.

João Miguel Tavares não tem reputação de “homem de esquerda”. Mas certamente que ninguém ousaria dizer que, só por isso, era um “fascista”. Seria facciosismo a mais. Acontece que ousaram.

João Miguel Tavares falou, no dia 10 de Junho, de desigualdade e mobilidade social. Certamente que ninguém se lembraria de dizer que, por essa razão, era “populista”. Seria obviamente absurdo. Acontece que se lembraram.

Nada disso foi dito apenas por anónimos nas redes sociais, onde, quando é preciso, descobrimos sempre quem diga tudo. Os exemplos coleccionados por João Miguel Tavares foram proporcionados por “figuras públicas”, isto é, pessoas que opinam nas varandas televisivas do regime, e cujas caras são vagamente familiares ao cidadão que faz zapping.

João Miguel Tavares aproveitou naturalmente esta explosão de preconceitos para declarar que a tese do seu discurso estava demonstrada: as elites portuguesas não gostam de caras novas, a não ser que “legitimadas” pelas origens sociais, diplomas ou opiniões correctas. É verdade. Mas quando disse que o caso prova que a “grande divisão da sociedade portuguesa não é entre esquerda e direita”, mas “entre os legítimos e os ilegítimos”, talvez não tenha acertado tanto.

É que o seu caso demonstra também outra coisa: que a esquerda é, hoje, essencial para que certos preconceitos possam ser manejados em público. Todas as “figuras públicas” citadas por João Miguel Tavares reclamam ser de “esquerda”. E isso não se deveu apenas ao facto de ele ser visto como homem de direita. Se João Miguel Tavares fosse um “homem de esquerda”, a sua escolha ou o seu discurso teriam talvez sido criticados pelo outro lado. Mas é improvável que tivesse sido desqualificado desta maneira por “figuras públicas” da direita. Porque a direita é um poço de virtudes? Não, mas porque uma “figura pública” de direita que cedesse à tentação de ser publicamente snob e exclusivista nesses termos seria, sem demora, queimada enquanto tal.

Só “figuras públicas” de esquerda podem ser snobs e exclusivistas ou, quando calha, também racistas e homofóbicas, como vimos perante o “escurinho” do FMI ou Adolfo Mesquita Nunes. Reparem: não estou a dizer que esse tipo de preconceitos não exista à direita. Estou a dizer que apenas “figuras públicas” de esquerda, devido ao monopólio que a esquerda reclama da igualdade e da tolerância, têm hoje cobertura para exibir esse segregacionismo em público sem serem sancionadas por isso. A esquerda pode permitir-se, com toda a impunidade, ser snob, racista ou homofóbica, porque se presume que a esquerda, só por ser a esquerda, nunca é snob, racista ou homofóbica.

A divisão entre “legítimos” e “ilegítimos” está assim articulada com a divisão entre a esquerda e a direita, na medida em que apenas à esquerda — e em nome da esquerda — é possível hoje exercer publicamente o regime de preconceito e de exclusão que mantem fronteiras e separa esferas na sociedade portuguesa. Talvez a direita, noutros tempos, tenha tido o papel de nos lembrar que não somos todos iguais. Hoje, essa função social é da esquerda.