Inúmeros cidadãos, alguns estimáveis, decidiram que as aventuras de um moço do Bloco pelo sector da especulação imobiliária arrasaram a “superioridade moral” da seita. Impõe-se uma pergunta: qual superioridade moral? O Bloco sempre fingiu ser democrata enquanto venerava ditaduras particularmente atrozes. O Bloco sempre fingiu apreciar a tolerância enquanto montava uma rede de vigilância e censura sem grandes precedentes. O Bloco sempre fingiu defender as minorias enquanto apoiava os maiores opressores das ditas. O Bloco sempre manipulou vítimas para inventar culpados. O Bloco sempre fingiu acarinhar os pobrezinhos enquanto abominava os respectivos costumes e escolhas. O Bloco sempre fingiu “progressismo” e “modernidade” enquanto lutava em prol da barbárie. O Bloco sempre fingiu desprezar privilégios enquanto acumulava na direcção coleccionadores dos mesmos. O Bloco sempre fingiu combater o “sistema” enquanto ajudava a consolidar a aberração oficiosa que Portugal é hoje.

O Bloco, em suma, sempre fingiu não ser o que é: um movimento de inspiração totalitária, empenhado em aproveitar as vantagens civilizacionais do Ocidente para transformar em votos as migalhas do velho ressentimento anti-ocidental. E sempre fingiu muito mal. Nem sequer se pode falar em hipocrisia na medida em que esta exige uma capacidade de dissimulação que o Bloco nunca soube ou precisou ter. Aquilo é pasto de fanáticos, que partilham de facto as convicções do dr. Louçã, ou, se conseguirem distingui-los, de idiotas diagnosticados, prontos a acreditar nas mais extraordinárias patranhas.

Mas mais extraordinária, depois de anos e anos de demências sem escrutínio, foi a comoção gerada pela pequenina habilidade do tal sr. Robles, talvez legal, decerto pouco ética e na essência igualzinha aos negócios do dr. Costa, que ninguém belisca. Não arranjaram melhor exemplo das abjecções da seita? É como se o Canibal de Milwaukee inspirasse reprovação colectiva por ser apanhado num restaurante vegetariano: “Estão a ver o sonso, a dar-lhe no tofu com o frigorífico cheiinho de fígados? Eu bem dizia que ele não era boa peça…”. Após uma carreira a exibirem impunemente a sua verdadeira natureza, os canibais, perdão, os leninistas do Bloco viram-se surpreendidos em flagrante em acto de intimidade com o lucro fácil. Apesar de tresandar a compadrio, será das coisas menos reprováveis que qualquer deles cometeu na vida.

Semelhante evidência não impediu um escândalo com protagonistas inéditos. Deleitado com a contradição, meio mundo desatou a citar sarcasticamente o “faz o que eu digo, não faças o que eu faço”, sem perceber que o pecado original dos inquisidores do Bloco está justamente no que dizem – mal por mal, os horrores que fazem, ou gostariam de fazer, são um bocadinho limitados por circunstâncias geográficas, políticas e sociais que para já lhes vão escapando. Na última semana, repito porque convém repetir, pessoas sérias decretaram o colapso da “superioridade moral” do Bloco como se o Bloco possuísse alguma, e as pessoas sérias conhecessem espécimes moralmente inferiores. No fundo, isto revela pouco acerca do Bloco, e muito acerca de uma sociedade infantil, ainda convencida da candura intrínseca do comunismo e perpetuamente desconfiada da liberdade.

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