Porque passamos muito tempo a celebrar-nos uns aos outros, a quase ninguém ocorre o pensamento de que possa contar pouco na ordem geral das coisas. “Tu,” observou o dinossauro horrível, “és especial / E todos são especiais.” Os pais celebram constantemente os filhos, mesmo os mais pérfidos, e os eleitos celebram os eleitores, mesmo os mais inconstantes. É muito raro que ninguém seja celebrado por terceiros, e é ainda mais raro que a alguém não ocorra celebrar alguém.

É aos que são celebrados por terceiros que o pensamento de que contam pouco na ordem geral das coisas quase nunca ocorre; parece-lhes implausível que os outros possam estar enganados acerca das suas qualidades. Mas tal como quem tosse nem sempre tem bronquite, assim pode dar-se o caso de que a celebração de terceiros seja um reflexo fisiológico que a espécie humana desenvolveu, ou pelo menos que não pressuponha nenhuma convicção forte acerca das qualidades de quem se celebra; pode ser que os elogios constantes que recebemos sejam gestos nervosos feitos sem pensar, e não exprimam admiração especial por nós; e pode ser que sejam mesmo sinal de uma incapacidade para a admiração genuína, a qual distinguirá alguns mas nunca recompensa todos.

A nós no entanto estas possibilidades nunca ocorrem. Parece-nos pelo contrário que porque os outros se referem constantemente às nossas qualidades as deveremos ter enormes. A nossa posição na ordem geral das coisas é assim a posição num mundo em que eu celebradamente tenho um papel importante a desempenhar; e em que, como num pesadelo budista, tudo está ligado. O mundo em que contamos não é só um mundo em que, como afirmou o fadista conhecido, o bater de asas de uma andorinha em São Francisco pode causar uma enorme primavera em São Francisco; é um mundo em que eu acredito que tenho a obrigação de causar primaveras substanciais através do bater das minhas asas.

A ideia de que eu conto na ordem geral das coisas está ligada à ideia de que o mundo não está completo sem mim. Parece uma ideia sobre o mundo mas é no fundo uma ideia sobre mim. É responsável pela maneira como descrevo tudo a partir da opinião que tenho acerca de mim próprio; e pelo tom superior e prosaico com que explico tudo o que acontece aos outros e no mundo. A celebração constante daquilo que acredito serem as minhas qualidades confirma-me na ideia de que o mundo é uma versão de mim próprio no tamanho acima, que só por acaso, ou talvez por razões ornamentais, inclui também andorinhas, estações do ano e outras pessoas. E a razão aliás por que conheço o mundo tão facilmente, e com tanto acerto, é que, graças ao facto de ser tão celebrado pelos outros, já me conheço a mim muito bem.