O influente The Guardian decidiu pedir desculpas pelo seu passado e a empresa proprietária desse jornal inglês irá criar um fundo de mais de 10 milhões de libras para, durante uma década, financiar um programa de apoio a comunidades negras na Jamaica e ilhas na costa sudeste dos Estados Unidos. A editora-chefe do Guardian, Katharine Viner, escreveu uma circular aos assinantes do dito dizendo que se tinha sentido nauseada (“I felt sick to my stomach”) e muito incomodada quando soube a terrível notícia de que o Guardian fora fundado com dinheiro que derivava, em parte e de forma indirecta, da escravatura.

Trocando em miúdos, os factos são os seguintes, segundo se pode ler detalhadamente no próprio jornal: John Edward Taylor fundou o Guardian em 1821. Ora Taylor e muitos dos seus financiadores fizeram grande parte da sua fortuna na indústria têxtil de Manchester, uma indústria que se alimentava do algodão cultivado e colhido por escravos nos Estados Unidos da América. Perante essa descoberta, os actuais donos e direcção do jornal decidiram arrancar os seus metafóricos e culpados cabelos, e rojar-se no chão de vergonha como a pobre Maria de Frei Luís de Sousa.

Não foi por acaso que me lembrei da peça de Almeida Garrett. Tudo isto é altamente teatral e é-nos apresentado como se fosse um escândalo, uma enorme surpresa ou um imperdoável crime, que não são. Reparem: o senhor Taylor não era negreiro, não comprou gente nem possuía escravos, apenas ganhou dinheiro com o fabrico de têxteis cuja matéria-prima vinha de regiões onde a escravidão ainda existia. Nada disso era ilegal ou secreto, e nada disso é novidade. Sempre se soube que, no século XIX, a indústria têxtil britânica prosperou em boa medida graças ao algodão norte-americano, a tal ponto importante na economia do país que, na época da Guerra da Secessão, o governo britânico esteve quase a reconhecer a independência do Sul, produtor de algodão, e a intervir militarmente para parar o conflito.

Não foi apenas o fundador do Guardian que lucrou com o produto do trabalho de escravos nas Américas, foram muitos milhões de outras pessoas que, de forma directa ou indirecta, também o fizeram. O que era, aliás, inevitável. Num mundo atlântico muitíssimo conectado e com uma economia já parcialmente globalizada, quase toda a gente, de uma forma ou de outra, esteve ligada à escravidão e aos resultados materiais de mão-de-obra escravizada.

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Pense-se, desde logo, nas centenas ou milhares de chefes e comerciantes africanos que lucraram com a importação desses produtos. Pois quem senão os escravos negros produziu o tabaco, a aguardente, os panos de algodão que esses africanos adquiriam e graças aos quais cresciam em grandeza e importância política? Vemos os habitantes do Gana ou do Benim a cobrirem a cara de vergonha por os seus antigos reis terem feito lucros imensos (nos seus termos de referência, entenda-se) com a venda de gente para aquisição de produtos ocidentais, entre os quais o algodão? Claro que não, o wokismo é uma doença moral específica do Ocidente.

E pense-se também, claro, nos países da Europa onde os refinadores e comerciantes de açúcar e de outros produtos tropicais trouxeram riqueza, prazer e conforto a milhões de accionistas e consumidores. Sempre se soube como é que parte dessas riqueza, prazer e conforto eram obtidas. A ideia de que as delícias da Europa se compravam à custa do suor dos negros era um dos lugares-comuns da literatura da época. Em 1773, muito antes de Taylor ter fundado o Guardian, já Bernardin de Saint-Pierre, em Voyage à l’Isle de France, à l’Isle de Bourbon, au Cap de Bonne Espérance,… par un officier du Roi, pedia às senhoras sensíveis que nunca se esquecessem de que o açúcar, o café, o chocolate dos seus pequenos-almoços, e o algodão dos seus vestidos, tinha sido produzido pela mão dos infelizes escravos africanos. E o Ocidente, de facto, interiorizou esse e outros apelos, impressionou-se com esse sofrimento e com essa injustiça, e, a pouco e pouco, com esforço e sacrifício, a escravidão acabou num mundo em que muita gente de modo directo ou indirecto estava ligada a ela ou dependente dela.

Mas Katharine Viner e os donos do Guardian caíram agora das nuvens. Ficaram muito chocados com a descoberta do óbvio e fizeram um acto de contrição e penitência ao gosto e com o tempero woke, que é de bom tom nos dias que correm. Até porque descobriram, também, que um dos financiadores iniciais do jornal tinha uma plantação na Jamaica onde escravos trabalhavam, e suspeitam que alguns dos editoriais dessa época foram escritos para fazer favores a esse financiador. Pois não é verdade que em 1833, o ano em que a Grã-Bretanha aboliu a escravidão, um desses editoriais defendia a ideia de que os proprietários de escravos deviam ser indemnizados? Como pôde o jornal defender essa posição — pergunta, horrorizada, Katharine Viner —, sabendo-se que a escravidão era um crime contra a humanidade?

Mas está enganada. Em 1833 a escravidão não era concebida dessa forma. E é claro que, segundo as concepções da época, os proprietários tinham de ser indemnizados pois a posse de escravos era considerada legítima e tratava-se de uma expropriação feita em tempo de paz. Por isso, o Estado britânico atribuiu 20 milhões de libras esterelinas aos proprietários para poder libertar cerca de 800 mil escravos. Quase todos os países que aboliram a escravidão indemnizaram de forma directa ou indirecta os proprietários de escravos. Não há aqui, portanto, nada de espantoso ou de escandaloso.

O que escandaliza é que o Guardian e os outros woke que o aplaudem não percebam as circunstâncias e condicionantes em que a emancipação dos escravos foi levada a cabo. O que espanta é que se arrepiem, indignem ou envergonhem ao constatar que os fundadores do jornal eram abolicionistas, mas aceitavam que parte do seu dinheiro viesse, ainda que por portas travessas, da escravatura. Será possível que o Guardian seja ingénuo e cego a ponto de não perceber que a gestão das coisas humanas implica muitas vezes contradições e que os próprios abolicionistas tiveram muitas vezes de contemporizar e de fazer cedências em nome de um interesse maior ou mais geral?

Sendo inglês, o Guardian deveria, por exemplo, saber o que foi o Sugar bill, uma medida aprovada em 1846 que impunha o abaixamento progressivo dos impostos sobre o açúcar estrangeiro, até os nivelar inteiramente com os que eram pagos pelos produtores britânicos. Isso significava que o Brasil e Cuba, que ainda mantinham a escravatura, poderiam penetrar no mercado açucareiro inglês, sendo de esperar que essa possibilidade estimulasse a produção de adoçante nessas regiões e, consequentemente, a importação de mão-de-obra escrava das costas de África — o que, de facto, aconteceu. A Inglaterra que fizera uma cruzada de décadas contra a escravidão e o tráfico de escravos ia agora, indirectamente, favorecê-los, o que era paradoxal. Mais paradoxal, ainda, que Lord Palmerston, um grande abolicionista inglês, fosse apoiante da medida. Sucede, porém, que nem sempre era fácil ou possível compatibilizar o liberalismo económico e o abolicionismo e, neste caso, foi o primeiro que se impôs.

E impôs-se porque os políticos abolicionistas competentes tentaram sempre seguir caminhos razoáveis, legais e consequentes, e tiveram em conta a complexidade da vida, da história e das sociedades humanas. Porém, os donos do Guardian e outros woke sortidos que pululam neste estranho tempo em que vivemos, têm uma estreiteza de vistas tal que não lhes permite entender e aceitar essa complexidade. Por amarga ironia, essa obtusa incompreensão está a bater em cheio no Reino Unido, o país que mais fez para pôr fim ao tráfico de escravos e à escravidão. Os britânicos colocaram navios no cruzeiro anti-tráfico no Atlântico logo em 1808 e mantiveram esse esforço de vigilância naval até ao fim do horrível comércio, em 1867. A Royal Navy apresou mais de 1.500 navios negreiros (muito mais do que todas as outras marinhas juntas) e todo esse esforço custou 12 milhões de libras esterelinas, a juntar aos 20 milhões que, como já referi, o governo havia pago para abolir a escravidão. Aliás, a despesa não ficou por aí porque no Índico os britânicos prosseguiram a sua acção anti-tráfico até ao século XX. Para além disso, a Grã-Bretanha pressionou as outras nações para que abolissem o tráfico e essa pressão implicou preserverança política, custou muito dinheiro — a Portugal, por exemplo, o Reino Unido perdoou uma dívida de 450 mil libras esterlinas — e originou várias guerras com potências africanas e, em 1812, com os Estados Unidos.

E como se nada disso tivesse acontecido ou como se não tivesse bastado, é sobre os britânicos que, no que à escravatura diz respeito, se verte o wokismo, uma ideologia primária, infantil e inculta que faz tábua rasa da História, isto é, que anula a explicação dos acontecimentos humanos e a sua variação ao longo do tempo. O wokismo é, aliás, um presentismo, uma maneira de pensar para a qual o tempo é só um e que não concebe um passado diferente do presente. Essa maneira de pensar preconiza uma atitude híper-vigilante quanto a injustiças presentes ou pretéritas, exige que se peça desculpa por erros ou supostos erros de antepassados ou antecessores e que se paguem às vítimas desses erros, ou aos seus descendentes, montantes elevados à laia de reparações. Trata-se de uma crença poderosa porque está associada a uma ideia de purificação e remissão de pecados. Nisso é tão mobilizadora como a ideia de cruzada que, no final do século XI, e no meio de grande entusiasmo, arrastou, de forma anárquica, Pedro o Eremita e muitos milhares de pessoas para a Terra Santa, trucidando pelo caminho outros milhares de pessoas, num registo de vale tudo ou de salve-se quem puder.

O wokismo está a triunfar em certas regiões do Ocidente — no mundo protestante, sobretudo — porque soube penetrar na cabeça das pessoas e colocar lá um sentimento de culpa. É esse sentimento que as faz agir. Se os governos ocidentais não tomam iniciativas, ou demoram a mover-se, para redimir os respectivos países de violências passadas, movem-se os cidadãos — se a montanha não vai a Maomé, vai Maomé à montanha. O wokismo, como se vê no caso do Guardian e em muitos outros, actua ao nível do cidadão comum e empurra-o para permanentes actos de contrição e acções reparadoras. Impele-o, também, a que force ou pressione os seus governantes a fazer outro tanto. Esperemos que esta tolice fanática, esta horda de penitentes e flagelantes, não contagie os nossos decisores e que não vingue por cá.