O Alentejo, o Algarve e a Andaluzia constituíram em 2010 a “Euro-região dos três A”. Sabemos que a Andaluzia tem 7,5 milhões de habitantes, o Alentejo e o Algarve juntos apenas um milhão. Sabemos que há uma desigualdade de estatuto político-institucional entre as duas regiões portuguesas e a comunidade autónoma espanhola. Sabemos que não há, neste momento, pensamento, doutrina e estratégia para uma aventura a três no sudoeste peninsular. Sabemos, enfim, que há um longo caminho a percorrer para esta “jovem comunidade territorial”.

Não obstante, sabemos, também, que a cooperação de proximidade é um recurso relativamente barato e abundante que pode ser usado de forma colaborativa pelos vizinhos. Sabemos que a turistificação intensiva do sul da península merece mais e melhor atenção conjunta e ação preventiva. Sabemos que o Alentejo e o Algarve são regiões de transição entre a área metropolitana de Lisboa e a área metropolitana de Sevilha, um corredor que é preciso organizar de modo mais imaginativo. Sabemos que os parques naturais das três regiões são um ativo valioso que importa preservar e valorizar para o combate que se aproxima face às alterações climáticas e a desertificação. Sabemos, igualmente, que as três regiões, fazendo parte da fronteira exterior da União Europeia, formam uma comunidade de segurança coletiva, interna e externa, que no futuro próximo prevalecerá, muito provavelmente, sobre tudo o resto (veja-se a proximidade dos fluxos migratórios). Sabemos, finalmente, que o mediterrâneo e o atlântico, depois das primaveras árabes, das negociações do Brexit, da suspensão do tratado Transatlântico e da presidência Trump poderão sofrer consequências geopolíticas imprevisíveis sobre o sudoeste peninsular.

À boleia de uma bolha turística

É neste contexto que a região do Algarve vive hoje um ciclo de “turismo total”, uma verdadeira bolha turística em crescimento. O turismo é um fator fundamental de desenvolvimento regional, tomado com conta, peso e medida, mas é, também, um fator muito sensível às variações do ciclo geopolítico e geoeconómico. Está, por isso, criada uma excelente oportunidade para discutir algumas hipóteses de diversificação da sua base económica regional. Sim, porque é na fase alta de um ciclo que se devem discutir os problemas da fase baixa do ciclo. E a fase baixa do ciclo não deixará de aparecer, mais tarde ou mais cedo. Os efeitos externos, positivos e negativos, de uma bolha turística são conhecidos, e eles são tanto mais excessivos quanto mais estreita for a base económica da região. Todavia, se estivermos avisados e tomarmos as medidas cautelares apropriadas, é perfeitamente possível antecipar, moderar e regular esses efeitos externos. Vejamos alguns riscos envolvidos e depois as hipóteses de diversificação da base económica.

Os riscos envolvidos na formação de uma “bolha turística”

Os factos recentes indiciam que há um regresso iminente dos riscos geopolíticos e geoeconómicos: a crise do multilateralismo, o regresso do protecionismo e do populismo, a corrida aos armamentos, as graves desigualdades sociais, os fluxos migratórios, as alterações climáticas, a ascensão de regimes iliberais, os inúmeros conflitos regionais. Basta olhar em redor de toda a fronteira europeia para perceber que as questões de segurança formam uma espécie de “anel de fogo” que pode explodir em qualquer momento. Ora o turismo é a atividade económica que reage mais rapidamente a estas variações de risco político e económico, por se tratar de uma atividade especialmente volátil e muito sensível a estas variações. Neste sentido, é preciso estarmos avisados em relação aos seguintes riscos:

  • Há um risco elevado se a turistificação afunilar ainda mais a base económica existente, sobretudo nos termos de uma economia low cost intensiva,
  • Há um risco elevado se a turistificação condicionar o desenvolvimento de outros sectores e aumentar o custo de oportunidade de atividades económicas alternativas,
  • Há um risco elevado se a turistificação atrair “investimentos predadores e especulativos” em busca de retorno rápido e, ao mesmo tempo, provocar a desvalorização brusca de outros ativos regionais, em particular, a migração de quadros técnicos da Universidade do Algarve que não encontram aqui saídas profissionais,
  • Há um risco elevado se a turistificação do mercado de trabalho regional condicionar a vida quotidiana local, e tudo, ou quase tudo, girar à volta do turismo num mercado regional cada vez mais liquefeito, indiferenciado e desregulado,
  • Há um risco alto de gentrificação dos pequenos “centros e baixas” de vilas e cidades algarvias, se um excesso de ludificação e patrimonialização conduzir a uma pressão imobiliária inusitada sobre os respetivos moradores, em particular, os mais idosos e desprotegidos,
  • Há um risco elevado se a turistificação promover um consumo excessivo de recursos públicos e, em especial, um consumo excessivo de água, solo e património, no preciso momento em que se pede alguma parcimónia no uso de recursos escassos por virtude dos efeitos mais perniciosos das alterações climáticas,
  • Há um risco geopolítico elevado, no plano da segurança interna e coletiva, em especial na gestão da linha de fronteira proveniente do Magrebe Ocidental, o que pode implicar a tomada de medidas restritivas e mesmo a suspensão da liberdade de circulação de pessoas por períodos determinados.

Em síntese, para evitar a eclosão destes riscos é fundamental que a região não caia numa ludificação excessiva, numa liquidificação do seu mercado de trabalho e aceite acriticamente transformar o Algarve numa plataforma low cost de consumo de eventos turísticos e culturais, onde tudo e todos “estão obrigados a render” no mais curto espaço de tempo, o tempo do passageiro eventual, o tempo do turismo.

A diversificação da base económica regional

Não é tarefa fácil falar de diversificação da base económica regional quando a atividade turística é aquela que remunera mais rapidamente as pequenas poupanças e os pequenos investimentos realizados. Nesta conjuntura, a cadeia de valor está, claramente, do lado do turismo, mas, porque todos sabemos como acabam as bolhas turísticas, é nossa obrigação fazer alguns alertas à navegação. A diversificação da base económica regional pode ser interna ao sector do turismo, por diferenciação das suas atividades e externa ao sector por articulação e complementaridade com outras atividades.

A análise do ciclo turístico diz-nos que a primeira fase, para atender ao afluxo de novos turistas (3 a 5 anos), é realizada por ajustamento da oferta e protagonizada por investidores locais e regionais; a segunda fase é a diferenciação da oferta anterior uma vez consolidados alguns fluxos e conquistados novos segmentos de turistas e investidores dos países de origem desses fluxos (3 a 5 anos); a terceira fase é, se tudo correr, a diversificação interna e a segmentação seletiva para atender a nichos e clientelas específicos de mercado (5 a 10 anos). Quer dizer, um ciclo turístico bem-sucedido precisa de uma conjuntura favorável próxima de 15/20 anos para fazer surtir todos os seus efeitos externos positivos e, esperamos nós, moderar e regular os efeitos negativos. Quanto mais longo é o ciclo turístico maior é a probabilidade de o setor se autorregular, gerar muitos efeitos de rede e uma forte capilaridade em direção a outros sectores de atividade.

No que diz respeito à diversificação externa o exercício é politicamente mais delicado, pois trata-se de dar profundidade e espessura a algumas interdependências fundamentais. Nesse sentido, existem quatro ideias-força cuja sinergia importaria equacionar e desenvolver: a primeira, a cooperação inter-regional entre o Algarve e o Alentejo, o chamado “Grande Sul”, para desenvolver as inúmeras complementaridades funcionais entre as duas regiões, a segunda, intimamente associada à primeira, o “Grande Corredor da Euro-região AAA” que liga a área metropolitana de Lisboa à área metropolitana de Sevilha, a terceira, a geoeconomia do espaço ibero-mediterrânico sobretudo no Magreb ocidental e a quarta a geoeconomia atlântica do espaço CPLP. Nesta geografia a quatro dimensões o aeroporto de Beja seria uma espécie de lugar geométrico da nova rede de relações e uma retaguarda territorial essencial para construir as novas cadeias de valor do território do Grande Sul.

Esta nova centralidade do aeroporto de Beja justifica-se por várias razões. Em primeiro lugar, pelo lugar central ocupado pelo empreendimento de fins múltiplos do Alqueva com uma posição privilegiada no Grande Corredor Lisboa-Sevilha. O sector agroalimentar tem aqui uma posição fundamental e poderia servir para relançar a região do “Grande Sul” português.

Em segundo lugar, a diversificação externa estará, seguramente, muito correlacionada com as atividades marítimas e marinhas. Bastará, para tanto, lembrar os dois centros de investigação da Universidade do Algarve nesta área para alimentar fundadamente esta esperança positiva. O Atlântico Sul virado para os PALOP e a América Latina será, seguramente, uma grande oportunidade, mas, também, o alargamento da nossa plataforma marítima será uma ocasião para aumentar os recursos públicos na direção da economia do mar.

Em terceiro lugar, a diversificação terá obrigatoriamente de passar pelas infraestruturas verdes, a agroecologia e os serviços ecossistémicos como instrumentos de combate privilegiados contra as alterações climáticas e a desertificação do sudoeste peninsular.

Em quarto lugar, a diversificação da base económica deverá atribuir um lugar de relevo às indústrias criativas e culturais como instrumento fundamental das novas cadeias de valor, na linha de uma smartificação dos sinais distintivos territoriais. Finalmente, uma região cosmopolita só pode ser uma região inteligente, pois o turismo e o mar, a arte, o ambiente e a cultura serão sempre atividades muitos exigentes em matéria de informação e conhecimento. No “Grande Sul” português as Universidades de Évora e do Algarve deverão criar um “ecossistema digital inteligente” como infraestrutura fundamental para um grande projeto de investigação e desenvolvimento peninsular e plataforma de lançamento de uma linha de start-ups na economia do ambiente, do mar, do turismo e da cultura.

Nota Final

É por demais evidente que as duas regiões do “Grande Sul” não se sabem pensar a si próprias, muito menos conjuntamente, pois não têm os recursos políticos e os protagonistas regionais para tal. Além disso, a turistificação tem a vantagem de acomodar um crescimento monótono e se for suficientemente longo podemos, mesmo, moderar e regular os seus afloramentos mais críticos. Todavia, um crescimento monótono e dilatado não cria as condições para um pensamento radical sobre o futuro da região e, de resto, a baixa capitalização do empresariado algarvio torna muito difícil realizar políticas alternativas de diversificação da base económica, a menos que a região importe iniciativa empresarial e capital suficiente. E aqui há muito trabalho para realizar na região-cidade do Algarve.

Talvez a grande novidade da próxima geração seja a “conexão colaborativa” operada nas redes virtuais de “muitos para muitos”. De facto, a região-cidade do Algarve, uma região aberta ao mundo, poderá tirar partido dessa diferenciação cosmopolita. Nesse caso, o território-fluxo da região-cidade do Algarve, para lá do turismo de ocasião, incluirá ainda a comunidade dos residentes estrangeiros, os atores da cooperação transfronteiriça peninsular, a mobilidade de estudantes, os investigadores e artistas e a grande variedade dos trabalhadores digitais em trânsito no ciberespaço, entre outras formas especificas de mobilidade.

Quer dizer, podemos olhar para a economia regional do Algarve e visualizar uma rede capilar de relações sociais e empresariais, no interior da qual os diferentes segmentos da economia algarvia coabitam entre si e em estreita colaboração com a economia mais convencional. A região-cidade, através de uma meta-plataforma Algarve Sharing, estará, doravante, em melhores condições de regular a economia regional e, em especial, pode ser muito útil na gestão coletiva de mercados de ocasião, bolsas regionais, marcas coletivas, bens comuns, mercados de nicho, contratos de institutional food, bancos do tempo, redes energéticas de microgeração, circuitos curtos de comercialização, redes de microcrédito e financiamento  participativo, moedas sociais e complementares, espaços de coworking, residências científicas e artísticas, relações internacionais, entre outros exemplos, sempre numa lógica de comunhão e partilha de interesses comuns com a sociedade civil algarvia, e sempre para lá do simples arquipélago intermunicipal.

Por tudo isto, é preciso impedir que a turistificação da economia algarvia provoque uma perversão grave na afetação dos recursos regionais onde tudo, ou quase tudo, fica dependente do custo de oportunidade face ao turismo. Seja o consumo de água, o uso do solo, o agenciamento imobiliário, os percursos de natureza ou a patrimonialização dos recursos culturais, “tudo está obrigado a render” no mais curto espaço de tempo. Como o turista é um passageiro eventual, com um tempo limitado para “explorar e ser explorado”, tudo é patrimonializado para servir de experienciação a esse turista. E assim não vamos lá.