1 Ilusão e realidade: novos casos e testes

Compreender a realidade da pandemia que nos assola é difícil não só pelos sentimentos que desperta, limitando a razão, mas também porque os dados disponibilizados têm elevada dose de incerteza e dependem de processos amostrais.

Exemplo paradigmático respeita ao significado atribuído ao número de novos casos que surgem diariamente e cuja importância não é relacionada pelos meios de comunicação com o número de testes realizados. Na verdade, como o processo de infeção é altamente aleatório, cada teste realizado está associado a uma probabilidade, P , de vir positivo (a taxa de positividade), a qual caracteriza o nível de disseminação do vírus, pelo que o número de novos casos diários, N, resulta da multiplicação de P pelo número de testes realizados, T, ou seja N= PxT .

Ora, se se comparar a situação que foi considerada de “acalmia” e de atenuação da pandemia a 18 de Setembro de 2021 (anterior à nova variante) com a de 18 de Dezembro de 2021, verifica-se que a referida taxa se mantém próxima de 2,5 % ao contrário do que aconteceu em 31 de Janeiro de 2021 quando se ultrapassou o limiar de 40%. Todavia, a amostra testada também não é indiferente aos receios e sintomas, pelo que é razoável admitir que a maior dimensão dos testes também pode indiciar que o grupo em dúvida se alargou, significando aumento da difusão. Comparando as médias de 7 dias para as mesmas datas (“world in data”), tem-se que o número de hospitalizados e de internamentos em cuidados intensivos passou de 523 e 109 para 954 e 147, o que significa que a extensão da severidade aumentou cerca de 80%, apesar de a nova variante ser considerada menos grave, mas a intensidade da severidade expressa pelo rácio entre o número de doentes em UCI e hospitalizados passou de 20% para 15%, o que traduz alguma leve atenuação dos seus efeitos muito graves.

2 Qual a redução do risco de hospitalização devido à vacinação?

Esta dúvida é central para fundamentar a importância de generalizar a política de vacinação e as comparações têm-se baseado nas estatísticas de internados em países com baixa taxa de vacinação com aqueles que têm taxas altas, podendo inferir-se que a severidade da pandemia é bem menor nos últimos. Todavia, este tipo de comparação pode ser criticado pois os países considerados também diferem em muitos outros fatores relevantes, tais como estruturas etárias, cuidados de saúde, etc.

Consequentemente, a análise mais relevante deve basear-se nos dados disponíveis para Portugal sobre os números de internados com ou sem vacinação, os quais foram agora apresentados no comentário de Marques Mendes em 26/12/2021 com base em elementos da DGS e do INSA, referindo-se que, para dois grupos etários, as percentagens de internados com e sem vacinação, respetivamente, são de 35% e 65% para o grupo com pelo menos 80 anos, e são de 86% e 14% para o grupo com 50 a 59 anos, o que permite estimar uma percentagem média de vacinados de 25%, ou seja, a razão INV/IV é de 3 sendo INV e IV o número de internados não vacinados e vacinados, respetivamente.

Estas percentagens não medem o risco de internamento, o qual pode ser definido pela probabilidade de se ter de ser internado, porque as correspondentes populações têm dimensões muito distintas, mas agora será possível estimar o risco de internamento para vacinados (RV) e não vacinados (RNV) definidos pelos quocientes IV/V e INV/ NV sendo IV e INV os números de internados com e sem vacina respetivamente e sendo V e NV as populações com e sem vacina, pois sabe-se que 86% da população está vacinada, o que significa que V/NV é igual a 6,14.

Na verdade, sendo RV= IV/ V o risco de internamento para os vacinados

e RNV = INV/NV o risco de internamento para os não vacinados

obtém-se RNV/RV = INV/IV x V/NV = 3×6,14 = 21

o que permite concluir que o risco de ter de ser internado no hospital devido à COVID 19 dos não vacinados é cerca de 21 vezes superior ao risco suportado pelos vacinados definindo-se como risco de internamento a probabilidade de se ser internado devido à COVID19. Também é então possível concluir que o esforço e custo esperados induzidos por cada cidadão no SNS devido a internamento hospitalar é de 21 vezes superior para os não vacinados face aos vacinados,

Em suma, importa estar vacinado!

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