24 de Abril. 22h55m Os Emissores Associados de Lisboa transmitem a canção “E depois do Adeus”, interpretada por Paulo de Carvalho. É a senha que dá o início às operações militares contra o regime.

Neste dia 24 de Abril de 1974 foi detectado um caso de cólera em Tavira.

Já Maio de 74 ia na sua terceira semana quando a cólera consegue finalmente afirmar-se entre os títulos. Não propriamente os de maior destaque mas apesar de tudo títulos. Fica assim a saber-se que a 20 de Maio estavam internadas no Hospital Curry Cabral, em Lisboa, por suspeitas de cólera doze pessoas. Cinco desses pacientes vinham do Algarve; as moradas dos outros sete desenhavam uma espécie de mapa dos bairros de lata que então cresciam em torno da capital: Odivelas, Paiã, Nova Oeiras, Amadora e Musgueira.

No dia seguinte, 21 de Maio, entravam mais onze doentes no Curry Cabral. No total, a 21 de Maio, já estão internados em Lisboa 23 suspeitos de terem contraído cólera. As delegações de saúde emitem comunicados apelando à fervura do leite e a que não se comam bolos com creme nem gelados. Recomenda-se também que não se tome banho em rios ou praias que tenham nas proximidades descargas de esgotos. No topo de todos os conselhos estava o apelo para que só se consumisse água da rede ou engarrafada. Para aqueles que se abasteciam em poços e chafarizes apelava-se a que fervessem a água antes de a consumir.

Um mês depois do 25 de Abril, a cólera espalha-se por Portugal – chega aos distritos de Beja, Setúbal, Aveiro e Braga – e deixa o seu rasto de vítimas. Por outras palavras, o regime mudara mas obviamente nada mudara no acesso dos portugueses a esgotos e água tratada. Ou mais exactamente na falta de acesso a esgotos e água tratada.

E o que fazia o país para combater a cólera que chegara um dia antes do golpe do 25 de Abril e progredia durante o Verão? Pouco para não dizer quase nada: além do tratamento aos doentes internados e dos apelos para que se consumisse água fervida, as autoridades pouco fazem para travar a doença.

A explicação para esta passividade está não na falta de meios nem muito menos de competência. Os técnicos da DGS não só sabem como se pode combater o novo surto de cólera como têm experiência recente e bem sucedida de o fazer: em 1971, perante o aparecimento de cólera num bairro de barracas na zona do estaleiro da Margueira, dez equipas sanitárias distribuíram 360 mil comprimidos para combater a cólera nos bairros de lata que então rodeavam Lisboa e nos concelhos vizinhos, incluindo a margem sul. Os fabricantes e vendedores de alimentos, trabalhadores de hotéis e dos restaurantes foram também vacinados e obrigados a tomar medicação. No total foram monitorizadas 150.000 pessoas pelas equipas médico-sanitárias. O surto foi declarado extinto a 25 de Novembro de 1971. Foram registados 89 casos de cólera. Morreram duas pessoas.

Em resumo, em 1971, perante a cólera, actuou-se de forma massiva numa operação controlada pelos técnicos de saúde. Porque não se repetiram então estes procedimentos em 1974? Para mais o surto de cólera de 1974 tinha logo à partida condições para ser muito mais grave do que o de 1971, pois começou muito mais cedo, em Abril, e não em Setembro como acontecera em 1971. Por que esperam as autoridades? Na verdade não é uma questão de espera mas sim de impasse entre aqueles que defendiam que a cólera era uma doença dos pobres, e que a sua abordagem devia ser social, e os técnicos de saúde que defendiam que enquanto essas respostas não estivessem no terreno havia que actuar sanitariamente, replicando o modelo de combate de 1971.

A somar a este enquadramento há que ter em conta que, ao contrário do que acontecia em 1971, a saúde não tem no pós 25 de Abril de 1974 uma pasta ministerial. Tornara-se apenas uma secretaria de Estado integrada no Ministério dos Assuntos Sociais.

A situação política do país tornara Portugal em 1974 um excelente caldo de cultura para a propagação da cólera: esta expande-se sem que se lhe faça frente para Faro, Setúbal, Beja, Portalegre, Lisboa, Santarém, Torres Vedras, Aveiro, Porto e Braga.

No final de Agosto, o país fica a saber que o ministro dos Negócios Estrangeiros, Mário Soares, assinara em Argel uma declaração em que se estabelecia o próximo dia 10 de Setembro como a data para o reconhecimento da independência da Guiné-Bissau e o PAIGC como único representante legítimo do novo país (a esta institucionalização de um regime de partido único chamou-se libertação). E fica a saber também que já se contam mil casos de cólera no país.

A DGS anuncia então a distribuição de 15 mil litros de lexívia a partir de 2 de Setembro: duas gotas para cada litro de água quando esta se destine a ser bebida, utilizada em lavagens corporais ou para cozer alimentos; dez gotas para cada litro de água quando sirva para lavar legumes e outros produtos alimentares. São administrados antibióticos e vacinas a quem entrou em contacto com os doentes e a grupos de risco.

O surto de cólera de 1974 chegaria ao fim com o frio do Outono: em Outubro foi dado como extinto. Foram registados 2371 casos de cólera. Morreram 41 pessoas.

Porquê recordar agora estas 41 pessoas? Em primeiro lugar para lembrar que a ideologia cega: estas mortes que na sua maioria poderiam ter sido evitadas, resultaram de uma abordagem ideológica da epidemia. Simplesmente, como essa abordagem ideológica estava do lado bom da História todo este episódio foi mais ou menos esquecido. Já se sabe que em Portugal à ideologia de esquerda, para os devidos e políticos efeitos adereçada de Abril, começou por se perdoar tudo para em seguida se esquecer até que algo haveria a perdoar.

E sobretudo este caso como tantos outros não são apenas capítulos fechados da nossa História: a premissa de que a determinados sectores da sociedade é esquecido o que para outros é crime imperdoável não só se manteve como cresceu nos últimos anos: quando é que imaginámos possível ter na DGS alguém com o desempenho errático da dra. Graça Freitas? Pois é, o que até há pouco nos revoltaria agora é banal, como uma anedota.

Quando supusemos que aceitaríamos com conformação ouvir o primeiro-ministro repetir que não vai haver austeridade (e o presidente da AR e os jornalistas-activistas garantirem que não senhor, não vai haver austeridade) quando a austeridade já está aí na vida de quem perdeu o emprego, só recebe uma parte do ordenado, não sabe como vai pagar os ordenados do próximo mês… ou espera por uma refeição nessas filas dos novos invisíveis?… A austeridade já cá está.

Em Novembro de 1975, entre choros e gritos de que Abril a estava  a ser traído, Portugal mandava os militares para os quartéis e despedia-se dos golpes militares. O nosso futuro, acreditava-se, ia decidir-se nas urnas e no debate político. Quarenta e cinco anos depois somos um sociedade sem debate, onde o estatismo-socialista é a ideologia possível  e as mudanças são impostas por factores externos: as crises e o seu cortejo de emergências determinam agora os tempos como outrora o faziam os golpistas (e note-se que ao longo do século XX tivemos golpes para quase todos os meses do ano). Sem crise não há mudança mas com crise tudo é possível. Sobretudo  é possível, tal como está acontecer com esta crise do Covid-19, que no tropel dos acontecimentos tudo se banalize e nada se pergunte. Afinal nada de muito diferente do que aconteceu aos portugueses no Verão de 1974, quando as autoridades, enquanto cantavam loas ao povo “que mais ordena”, ficaram a ver progredir uma epidemia que matava. O povo, obviamente.

PS. Dado o entusiasmo jornalístico com o apelo do BE para que se cantasse a “Grândola” à janela é de temer que para o próximo ano o PCP não fique atrás e apele a que cantemos “Uma gaivota voava, voava”. Provavelmente o silêncio imperará como imperou este ano mas como o seguro morreu de velho, venho desde já avisar que uma coisa é meia dúzia de colunas de som a debitar a Grândola – Zeca Afonso tem uma óptima voz e a canção não sendo das melhores que fez sempre  vale a pena – outra bem diferente é voltarmos a ouvir aquele “Uma gaivota voava, voava”. Uma geração não aguenta isto duas vezes!