Uns dias após o anúncio da sua candidatura a Belém, vi uma entrevista de Ana Gomes à RTP3. Com uma postura “de Estado”, que nada tem a ver com a que nos habituou, repudiou as sugestões do jornalista de que ela é conhecida por acusar sem se preocupar em verificar o bem fundado das suas acusações, manchando o bom nome e honorabilidade das suas vítimas.

Esta entrevista instou-me a contar a minha experiência com essa senhora irresponsável e perigosa que aspira a chefiar o Estado Português.

Desde já esclareço, que não tenho qualquer actividade política ou partidária, sendo apenas um cidadão comum movido pelo dever de alertar para a minha experiência com a Sra. Ana Gomes, fazendo-o, agora, por se terem concluído os processos de averiguações a que estive sujeito no seguimento das suas calúnias.

Durante mais de 30 anos servi as relações externas da União Europeia, nas suas várias vertentes da cooperação para o desenvolvimento, da ajuda humanitária e da diplomacia. Grande parte da minha carreira foi realizada em situações complexas em Angola, ex-União Soviética – Cáucaso: Arménia e Azerbaijão (Nagorno-Karabakh, Spitak ), Geórgia (Abcázia, Ossétia do Sul), Federação Russa (Chéchnia ) -, região dos Grandes Lagos (Burundi, Ruanda, Zaire/Congo), ex-Jugoslávia (Bósnia, Croácia, Macedónia do Norte, Kosovo).

Fui embaixador na Macedónia do Norte, Moçambique, Bielorússia, Ucrânia e Cabo Verde, meu último posto, antes de me aposentar do serviço diplomático europeu a 31 de Agosto de 2017.

Quando me preparava para gozar o que pensava ser uma merecida e descansada reforma, vejo-me alvo de  uma campanha difamatória e pidesca levada a cabo por alguém que nunca me conheceu, nem sequer se preocupou em saber minimamente quem eu era: Ana Gomes!

Durante os quase cinco anos em que fui embaixador da UE em Cabo Verde, a então deputada europeia Ana Gomes nunca se interessou por este país irmão, ao qual eu vinha preparando uma visita do Parlamento Europeu (PE), em retribuição de uma visita da Comissão de Negócios Estrangeiros da Assembleia Nacional de Cabo Verde a Bruxelas, em 2015.

A visita do PE a Cabo Verde foi adiada várias vezes até que, finalmente, se realizou em finais de Setembro de 2017, já eu estava reformado, integrando dois parlamentares activos nas relações com Cabo Verde (um britânico e um búlgaro ) e…Ana Gomes.

No fim da minha missão em Cabo Verde decidi construir uma residência na Praia e ali residir, dedicando-me a acções humanitárias.

Ao iniciarem as obras, a então embaixadora de Portugal insurge-se contra a construção da minha casa (num terreno ao lado do da sua residência), instando as autoridades municipais e até nacionais a mandarem parar a obra.

Os motivos alegados, que foram objeto de uma publicação no Facebook da embaixada de Portugal, a 21 de Setembro 2017, e amplamente divulgados pelos media, eram que eu constituía uma ameaça à segurança da residência de Portugal e que a embaixada tentava, desde 1979, adquirir aquele mesmo lote de terreno. Julgo que este incidente está relacionado com as atitudes que Ana Gomes tomou posteriormente.

Finda a sua missão a Cabo Verde, Ana Gomes não perde tempo e escreve cartas para a Alta Representante da UE para a Política Externa e para o Director-Geral da OLAF (Serviço da luta anti-fraude), acusando-me das acções mais absurdas, como ter financiado um partido político, ter prejudicado outros interessados na compra do terreno, ter requerido a nacionalidade cabo-verdiana no exercício das minhas funções (quando sempre tive e, até hoje, apenas tenho a nacionalidade portuguesa) e ter estado o último ano de serviço “a preparar o meu futuro”!

Passados dois meses, talvez frustrada por Bruxelas não ter respondido imediatamente às suas cartas, Ana Gomes desfere uma campanha mediática contra mim na imprensa portuguesa, cabo-verdiana e dos PALOP.  As acusações são as que já constavam da carta acima referida, sem se preocupar em esperar a conclusão das investigações entretanto encetadas.

Em declarações públicas não poupa o autor destas linhas e ainda desfere ataques aos legítimos e democraticamente eleitos representantes de Cabo Verde, acusando-os de participarem em actos ilícitos, assim pondo em causa a transparência de um processo eleitoral realizado quase dois anos antes e pelo qual ela nunca se interessou e muito menos acompanhou.

Este acto irresponsável, se praticado noutro país com um grau de democratização menos consolidado, teria dado lugar a conflitos possivelmente violentos com a parte por ela considerada lesada, reclamando a falta de legitimidade do poder estabelecido por via das anteriores eleições. Felizmente, o sistema político-partidário em Cabo Verde tem mais maturidade e sentido de responsabilidade do que Ana Gomes, pelo que, além das ofensas às instituições e seus responsáveis, não houve outras consequências.

Em Maio de 2019, a OLAF conclui as suas investigações, mandando arquivar o processo e comunicando-me  “não ter encontrado qualquer indício a seu respeito de ter cometido fraudes ou irregularidades, que afetassem os interesses financeiros ou outros da UE“.

Contudo, Ana Gomes não se dá por vencida e desfere nova ofensiva contra mim na imprensa cabo-verdiana (Jornal A Nação, de 13/6/19), pondo em causa as conclusões do inquérito da OLAF, que achou “muito estranhas“!!

Esta atitude de Ana Gomes, ao duvidar publicamente das conclusões do órgão da UE competente para investigar as acusações que ela me fez, revelam o seu carácter destrambelhado, irresponsável e perigoso.

Concluídas as investigações às acusações que me foram feitas no âmbito das minhas actividades como funcionário da UE, e tendo sido completamente ilibado de qualquer “wrong doing” (acção imprópria), faltava ainda aguardar pelas investigações que o Ministério Público de Cabo Verde fazia ao processo de venda do terreno pela Câmara Municipal da Praia.

Há dias, este Ministério Público emitiu um comunicado em que informa que “realizadas todas as diligências de investigação consideradas pertinentes para a descoberta da verdade material dos factos – entre eles a audição de vários intervenientes e o exame exaustivo de toda a documentação pertinente requisitada junto de instituições relevantes –, o Ministério Público declarou encerrada a instrução e ordenou o arquivamento dos autos, nos termos do nº1 do artigo 315º do Código do Processo Penal, por ter recolhido prova bastante de que os factos denunciados e suscetíveis de integrarem ilícitos criminais não se verificaram“.

Ficou assim demonstrado que o acusado por Ana Gomes seguiu todos os procedimentos em vigor e, ainda, que nunca ninguém manifestou interesse em comprar aquele lote de terreno, contrariamente às acusações dela.

Concluindo, todas as acusações de Ana Gomes contra a minha pessoa foram provadas falsas!

Contudo, cometi o “crime” de ter “preparado o meu futuro” no último ano antes de me reformar.

De facto, preparei um investimento em Cabo Verde com poupanças feitas do meu trabalho honesto e dedicado ao longo de muitos anos. Investi num terreno que nunca ninguém quis, até porque nele construir tinha elevados custos para o tornar aproveitável; investi numa obra, que durante os dois anos em que decorreu deu sustento a muitas famílias dos trabalhadores que nela foram empregados; após a minha instalação, criei quatro empregos directos, que têm salário assegurado mesmo nos difíceis tempos da Covid.

Finalmente, desenvolvo, pro bono, actividades humanitárias em Cabo Verde, tão necessárias neste período muito difícil por que passa o país.

Com a partilha desta minha dolorosa experiência com o comportamento de Ana Gomes espero contribuir para desmascarar essa senhora que, sob a capa de impoluta lutadora anti-corrupção, fez uma carreira à custa de benesses e apoios políticos de poderosos, alguns, até, acusados de crimes de corrupção, ao contrário de quem ela acusou, que fez uma carreira apenas à sua custa em postos de grande dificuldade.

Ana Gomes vangloria-se de denunciar os poderosos, sendo, no entanto, ela própria uma poderosa que usa e abusa do seu acesso mediático para acusar sem qualquer fundamento aqueles que, como eu, dificilmente conseguem fazer ouvir a sua voz para defender a sua honra e o seu bom nome.

Além dos danos morais causados pelas campanhas caluniosas de Ana Gomes contra a minha pessoa, tive também prejuízos materiais, sendo-me negadas oportunidades profissionais que me foram propostas, devido à notoriedade que tiveram as suas calúnias.

Se houvesse o mínimo de decência da parte da Sra. Ana Gomes, ela devia pedir desculpa, a mim e às autoridades cabo-verdianas, pelas suas atitudes. Contudo, não espero dela nenhum gesto nobre e honroso.