Que António Costa deseja ver Marcelo Rebelo de Sousa manter-se no Palácio de Belém não é novidade, uma vez que o próprio fez questão de o afirmar publicamente. Daí a razão de não se ter empenhado minimamente no lançamento de uma candidatura saída do Largo do Rato. Por isso, o seu silêncio quando uma sua correligionária, Ana Gomes, se cansou do marasmo socialista e resolveu apresentar-se como candidata presidencial. Sem contar com a reprimenda destinada a chamar à ordem o seu ministro Pedro Nuno Santos, acusado de não saber manter publicamente a necessária contenção ou reserva sobre o assunto.

Como é óbvio, não faltaram vozes a encontrar justificação fácil para a decisão do Primeiro-Ministro. Lembraram que, depois do 25 de Abril de 1974, todos os Presidentes da República, eleitos democraticamente, foram reeleitos. Alertaram para o risco de o Partido Socialista repetir erros anteriores, como o apoio a uma candidatura serôdia de Mário Soares. Insistiram na ideia de a probabilidade de uma futura maioria absoluta ficar comprometida se o PS não souber valorizar a coabitação pacífica com Marcelo durante o mandato inicial.

De acordo com a vida habitual, malgrado murmúrios de contestação interna, a posição do líder do PS sobre a problemática da eleição presidencial ficaria por aqui, mas, sem que nada o fizesse prever, o benfiquista António Costa encarregou-se de reverter a decisão do Primeiro-Ministro com o mesmo nome. Decidiu que, na sua qualidade de sócio e simpatizante do glorioso Sport Lisboa e Benfica (SLB) deveria interferir no próximo ato eleitoral do clube, mas indo além do direito de voto. Assim, aceitou integrar a Comissão de Honra da recandidatura de Luís Filipe Vieira. Uma forma de dizer que apreciava o trabalho de recuperação que Vieira tem vindo a protagonizar à frente de uma coletividade que encontrou, desportiva e financeiramente, nas ruas da amargura e nas travessas do descrédito e não apenas bancário.

Por falar em bancos, o facto de o nome do cidadão Luís Filipe Vieira ter vindo a ser ligado a comportamentos empresariais eticamente pouco louváveis não constituiu razão suficiente para António Costa recusar integrar a respetiva Comissão de Honra. Provavelmente, porque deu por adquirido que a política e o futebol pertencem a mundos e lógicas diferentes. Seguramente porque acredita que Portugal é um Estado de Direito onde vigora a presunção de inocência.

Só que nem todos os portugueses comungam da visão costista, talvez cansados de ver a culpa morrer solteira sempre que a questão envolve personagens desses universos. Por isso, o respaldo a Luís Filipe Vieira levantou um coro de protestos que não se quedou pelas restantes candidaturas à direção do SLB ou pelos simpatizantes de outros emblemas desportivos. A cumplicidade – para não falar de alguma promiscuidade – entre a política, o mundo empresarial e o universo clubístico voltou à luz da ribalta e a questão da eleição presidencial reassumiu pertinência.

Na realidade, os candidatos populistas, ao apresentarem-se como os únicos e legítimos representantes do verdadeiro povo, receberam um enorme balão de oxigénio. O espanto inicial não tardou a dar lugar ao contentamento. Sabem que sua posição antissistema sai reforçada com este autogolo de um dos mais destacados protagonistas do sistema. Passaram a dispor de mais um exemplo passível de colher junto dos eleitores que percebem estar a pagar erros de gestão bancária  a que, ao contrário do Banco de Portugal, foram alheios. A quebra de confiança nas instituições crescerá e não são necessários dotes premonitórios para adivinhar que os resultados eleitorais dos candidatos populistas irão beneficiar da inépcia do primeiro-ministro.

Definitivamente, António Costa tem uma severa malapata no que às recandidaturas diz respeito. Qualquer que seja o âmbito. Só que a falta de sorte não decorre, como creem os espanhóis, da intervenção do diabo. Tem a assinatura do Primeiro-Ministro português.