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Habitação e Urbanismo

Anúncios sem casas…

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Merecemos o Livro de Recordes do Guinness. Temos um Governo que alcançou um feito inédito na política de habitação: em quatro anos conseguiu produzir mais anúncios que casas. Isto sim… é obra!

Precisa de uma casa com uma renda baixa?

O Governo está muito preocupado consigo e arranjou várias soluções. Criou as rendas acessíveis, os seguros de renda e até proclamou o arrendamento como uma prioridade. O quê? Não encontra casas com rendas baratas? Pois… terá que esperar porque estas coisas, segundo o Ministro Pedro Nuno Santos, ainda “vão demorar”.

Mas o Ministro do Ambiente em 2017 falou em colocar no mercado 170.000 casas. Pois falou… mas isso era para ser feito em oito anos. Não me diga? Já passaram dois anos e não há resultados? Olhe… tem que ser mais paciente.

Acha que estou a gozar consigo? Não se ponha assim. O Sr. Primeiro-ministro até revelou uma nova paixão: a habitação acessível. Calma, não comece a vociferar. Nem todas as paixões têm que dar frutos em nove meses. O quê? Esta já vem de 2013? Está bem… mas seis anos não é assim tanto tempo.

Desculpe? Está a dizer-me que António Costa repetiu o anúncio em 2019? Já percebi… mas não se exalte! É evidente que uma casa não se faz de um dia para o outro! Ainda há poucos dias anunciaram uma lista de 29 imóveis para arrendamento acessível. Caramba! Assim não percebo o que diz. Está a dizer-me que é a repetição do anúncio daquele Fundo que prometeram em 2016? Mas qual fundo? Daquele que previa renovar 7.500 casas em dez anos? Está bem, mas seja compreensivo. Não se investem 1.400 milhões de euros de repente. Não são 1.400 milhões? Aumentaram a promessa para 2.700 milhões no programa nacional de reformas? Ah… mas certamente que esse Fundo já promoveu algumas casas? O quê? Nenhuma? Nem uma? Bom… mas ainda agora o Ministro das Finanças anunciou que estimam gastar 20 milhões de euros por ano com as rendas acessíveis. Não? Lá está você… sempre do contra. Está a dizer-me que para serem 20 milhões teria que haver umas 5.000 casas e ainda só têm 20? Sim, mas António Costa veio dizer que houve pouca adesão porque as pessoas estavam de férias. Não se ponha às gargalhadas! Isto é uma anedota? Você acha que quem está numa aflição para arranjar casa não vai de férias?

Mas veja. O Primeiro-ministro está tão preocupado que até anunciou prioridade ao emprego jovem e à habitação. Não anunciou? Isso era uma promessa de 2016? Claro, era uma promessa e em 2017 até reforçaram o arrendamento jovem para 18 milhões de euros. Não? Reforçaram, mas depois Mário Centeno só os deixou gastar 14 milhões? Mas um ano depois voltaram a aumentar a verba para 18 milhões, não foi? Não se ria… prometeram o mesmo aumento duas vezes seguidas e depois o valor desceu? Já só falta anunciarem que aumentam de 18 para 14 milhões?

Acha que nos tomam por estúpidos? Ai acha? Então? Se eu me recordo daquela da habitação vitalícia? Claro que me lembro. O Governo anunciou que passamos a ter uma casa para toda a vida e que é um sistema especial. Não é compra, não é arrendamento… O quê? Os senhorios e os inquilinos dizem que é um negócio ruinoso? Vá… não exagere! Um destes dias ainda metem as funerárias no negócio?

Bom… mas já reparou que estão a fazer um grande esforço. Quase todos os dias há mais anúncios. Lembra-se daquele programa com um nome engraçado: o Chave na Mão? Você regressa à aldeia onde nasceu e entrega a casa que tem na cidade ao governo para a arrendarem. Não, não é uma piada. O quê? Isso foi há mais de um ano e ainda nem sequer apareceu uma casa? Tenha calma… estas coisas levam tempo! Se calhar também estão de férias…

Reparou naquele anúncio de um programa chamado Porta de Entrada para acorrer a situações de catástrofe como os incêndios de Monchique e de Mação? Nãããão!!! Por favor, não me fale novamente de Pedrógão Grande. Desculpe? Está a dizer-me que em Pedrógão uns entraram pela porta do cavalo e outros levaram com a porta na cara? Que maldade… lá anda você a brincar com as portas. Eles até arranjam uns nomes divertidos para estas coisas.

Mas caramba, não percebo de que se queixa. Não há memória de um governo tão preocupado connosco e que tanto fala da habitação, dos despejos, das casas vazias, das rendas altas, da especulação imobiliária, da desertificação… Vá lá! Não comece a protestar.

É só conversa? Fartam-se de falar, mas não há resultados? Não concordo consigo! Até fizeram uma Lei de Bases da Habitação. Então? A lei não serve de nada? Como assim? É uma lei fantástica, a primeira, cheia de ideias e de inovações. O quê? Não têm dinheiro? E só falta anunciarem que todos teremos uma casinha com uma horta e um portão para o Rossio?

Por favor, não goze com a situação. Não está a troçar? Ainda vamos parar ao Livro de Recordes do Guinness? Não diga isso. Está bem. Já sei que temos um governo que alcançou um feito inédito na política de habitação: em quatro anos conseguiu produzir mais anúncios que casas.

Está a ver? Isto sim… é obra!

Arquitecto, presidente do Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana de 2012 a 2017

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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