Em junho fui um dos convidados à mesa redonda do Parlamento Europeu intitulada “The Day After”, organizada em Bruxelas com o objetivo de estabelecer um diálogo entre cidadãos russos exilados na Europa e representantes do Parlamento Europeu e da Comissão Europeia. Juntos, cerca de 300 participantes tentaram encontrar perspectivas e possibilidades para uma transformação democrática da Rússia.

Quase todas as principais forças pró-democráticas russas presentes na UE compareceram,  mas a equipa de Alexey Navalny optou por não participar. Foi uma boa oportunidade de partilha de visões sobre o futuro da Rússia, bem como das ideias e projetos relevantes que existem. Falou-se muito sobre uma janela de oportunidades, que eventualmente se abrirá para os democratas na Rússia.

É importante perceber a variedade de caminhos possíveis, não só para o nosso movimento, mas também para toda a Europa. Ambos estão sujeitas ao perigo representado pela atual ditadura macabra de Putin.

A grande maioria dos líderes do movimento democrático russo, incluído Navalny, considera que a federalização, com um papel importante para o parlamento, é a opção que melhor permitirá que a Rússia se transforme numa democracia sustentável. Apesar desde consenso, há grandes diferenças nas visões de como é que se poderá  atingir essa meta.

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Apresento de seguida cinco possíveis cenários. Não vou apostar num desses cenários em particular, pois a probabilidade de concretização de cada um deles depende do resultado da guerra na Ucrânia, seja o mesmo provisório ou definitivo, e de um alargado conjunto de outros fatores, como, por exemplo, a saúde de Putin nos seus 70 anos. Também não podemos excluir uma possível mistura ou sequência de alguns destes cenários.

Cenário 1. Implantação do regime democrático resultante das eleições livres requeridos pelo Ocidente

Esta visão é que mais aproxima as equipas de Navalny e de Kasparov, que de resto têm muito pouco em comum. A Rússia já atravessou uma transformação democrática nos anos 80, com a Perestroika de Gorbachev. Não deu certo, e

uma segunda oportunidade pode ser difícil. Não ajuda também o declínio atual das opiniões favoráveis à democracia no mundo, bem como a forte propaganda anti-liberal de Putin, ao longo das últimas duas décadas.

Para Garry Kasparov, essas eleições teriam lugar na sequência de uma derrota da Rússia na Ucrânia, um fiasco completo para o exército russo que faria cair o regime do Kremlin e levaria ao afastamento do poder de todos os aliados de Putin. Para que este cenário se concretize, é essencial que se mantenha o apoio à Ucrânia de todas as formas possíveis. Nesse caso Garry Kasparov regressaria à Rússia e participaria na transformação democrática, com toda a sua experiência.

Na perspetiva da chefe da Anti-Corruption Foundation de Navalny, Maria Pevchikh, as eleições devem ser lançadas por alguém que ocupa agora um alto cargo no regime de Putin, mas que no momento certo organizaria uma espécie de golpe de estado, aproximando-se do Ocidente com o objetivo de levantamento das sanções. Segundo a Maria, Navalny, já libertado, poderia se candidatar nessas eleições, e teria fortes possibilidades de as ganhar, e o seu partido, construído pela equipa que voltaria do exílio, ganhar as eleições legislativas.

Com esse cenário em mente, Navalny já anunciou uma «campanha eleitoral contra o candidato “Guerra”», liderada por Leonid Volkov, que visa mudar a opinião pública na Rússia. A campanha vai ser coordenada por emigrantes, mas incluirá todos os que nela queiram participar dentro do país.

Cenário 2. Luta pelo poder entre os possíveis sucessores de Putin, incluindo uma coligação democrática que conte com o apoio das próprias forças armadas

Esta opção é defendida por Mikhail Khodorkovsky, como a única possível de acontecer durante a nossa vida, ou pelo menos, nos anos que lhe restam (Mikhail tem 60 anos). O motim de Prigozhin deu-lhe alguma esperança, ao ponto de apelar para ajudas ao grupo Wagner, com o objetivo de enfraquecer o regime putinista.

A ideia de procurar  o apoio de forças armadas na luta pela democracia na Rússia causou uma ruptura na coligação criada por Khodorkovsky, coligação na qual ele investiu bastante tempo e trabalho.

Para os liberais que, como eu, durante mais de uma década apelaram ao protesto pacífico é difícil enfrentar a necessidade de recorrer às armas, mesmo quando a situação o exigir. Tal opção, antes de ser apresentada deve estar bem fundamentada e aceite pela opinião pública e, ainda mais importante, parece ser pouco realista, pelo menos de momento.

Cenário 3. Crescimento da diáspora russa, com grande intervenção política, criando uma nova imagem do país e conseguindo a transformação democrática a partir de fora.

A politização da diáspora foi defendida em Bruxelas, entre outros, por Denis Bilunov, que usa a diáspora cubana nos EUA como exemplo para os russos na Europa. Mesmo sem mencionar essa ideia, vários jornalistas e ativistas do movimento a ser construído no exílio apostam na comunicação, cultura e educação civil, não querendo entrar já no combate armado contra as forças de Putin.

Algumas das ONGs criadas pelos russos antes da invasão da Ucrânia aumentaram recentemente a sua presença na Europa. A Free Russia Foundation, criada em Washington, já está presente em 6 capitais europeias. A Boris Nemtsov Foundation for Freedom, fundada na Alemanha, trabalha com projetos de educação civil e jornalismo em vários países europeus. Em Portugal foi recentemente criada a associação Parus, com o objetivo de defender os direitos humanos e apoiar com as ferramentas que se mostrarem necessárias a sociedade civil, dentro e fora da Rússia.

Dito isso, são ainda poucos os corpos políticos que envolvem a diáspora russa. Serão necessários mais partidos, clubes ou associações a discutir ideologias e projetos para o futuro da Rússia. Espera-se que apareçam mais nos próximos meses, e que alguns ganhem dimensão e força suficiente para influenciar a situação.

Acrescento agora dois outros cenários que ainda podem parecer bastante exóticos. Prigozhin ensinou-nos que não decemos descartar hipóteses, mesmo as que pareçam menos credíveis.

Cenário 4. Estabelecimento do regime democrático numa região russa controlada pelo exército ucraniano, com futura propagação do mesmo para toda a Rússia

Ideia anunciada em Bruxelas pelo ex-deputado russo Gennady Gudkov. Vai em linha com os sonhos de alguns separatistas exilados que pretendem a independência de diferentes partes da Rússia, e de alguns russos que lutam no exército ucraniano declarando como seu objetivo a reconquista de Moscovo. Parece-me muito longe da realidade.

Cenário 5. Impossibilidade de transformação democrática na Rússia nas próximas décadas

Este cenário infeliz já aconteceu na Rússia, há 100 anos, quando após uma sangrenta guerra civil, se instalou o regime soviético. É pouco provável que a história se repita porque vivemos num mundo em permanente mudança e com tecnologias avançadas. Mas, nas mãos dos ditadores como Putin ou Xi, as tecnologias também podem servir para construir uma ditadura duradoura, com ferramentas inteligentes de controle total sobre as pessoas.

Os que querem uma Rússia livre preferem nem sequer considerar essa opção pessimista, que pode invalidar uma grande parte dos nossos esforços e desmotivar os que lutam pela liberdade.

Entre os cenários que listei apenas o 3°, o crescimento de uma diáspora influente, implica um regime democrático sustentável na Rússia. Mesmo se um golpe de Estado conseguir derrubar o regime de Putin, e alguém de repente proclamar a liberdade, vamos enfrentar um longo caminho para construir ou reconstruir todas as instituições que são os pilares e o cimento de uma democracia duradoura. Além disso, a sociedade russa, vítima de propaganda militar que sofreu durante mais de 10 anos, precisa atravessar um processo de recuperação, que não se pode fazer de um dia para outro. Essa é uma missão que pode avançar já, com a ajuda da diáspora.

A criação de uma influente diáspora democrática russa parece-me ser o objetivo mais viável para dedicarmos os nossos esforços, no momento histórico que vivemos. É válido para todos que acreditam que a Rússia virá a ser membro da família dos países livres e democráticos europeus.