Incluo-me naquela que mediaticamente é neste momento a minoria mais minoritária que se conhece: aqueles que consideram que os mandatos presidenciais de Cavaco Silva foram francamente positivos – considero-os aliás mais positivos que os seus mandatos como primeiro-ministro – e que fazendo essa apreciação, já de si insólita, para mais a declaram.

Esta minha valoração radica essencialmente no seguinte: creio que devemos em boa parte a Cavaco Silva termos chegado a 2016 com as instituições a funcionar regularmente. E isso tem um valor inestimável para o país. Ou pelo menos eu assim o creio.

Para os partidos, para o ego de alguns e para a popularidade do próprio Cavaco teria sido bem melhor que Cavaco fosse outro e reagisse doutro modo. Por mim estou convicta do contrário. Tudo aquilo que irrita em Cavaco – a formalidade, aquele nunca disfarçado orgulho dos tímidos e a misantropia crescente – levaram a que o ainda Presidente da República se apegasse ao que era fundamental: o regime. Cavaco Silva foi um bom Presidente da República precisamente porque não quis ser nem mais nem menos do que Presidente da República.

Se tivermos em conta que Cavaco foi Presidente da República enquanto José Sócrates foi primeiro-ministro e logo em seguida, com o país a viver sob resgate percebemos quão importante foi termos tido naquela função alguém que tinha como fio condutor manter a normalidade no meio da excepcionalidade, quando não da mais destravada insanidade.

No seu institucionalismo feroz Cavaco não deu espaço ao circo mediático dos “demitólogos” que todas as semanas anunciavam a queda do governo e, ao fazer uma interpretação restrita dos seus poderes, confrontou os portugueses com as consequências das suas escolhas.

Em 2016 é fácil dizer que a vitória de Sócrates em 2009 foi um erro trágico e que teria sido positivo para o país ter-se visto livre dessa funesta figura antes do pedido de ajuda externa. Mas não só é um facto incontornável que os portugueses deram a vitória a Sócrates em 2009 como tenho a certeza que se Cavaco tivesse feito a Sócrates o que Sampaio fez a Santana Lopes, hoje Portugal estaria ao nível do folclore bolivariano, pois muito provavelmente Sócrates teria ganho novamente as eleições e, como é mais que óbvio, Cavaco teria acabado a ser afastado.

Em 2016 é também óbvio que Cavaco sabia o que fazia quando em 2013 propôs um acordo ao PS, PSD e CDS. Caso esse acordo tivesse vingado seríamos poupados a esta espécie de processo de reversão em curso que estamos a viver e que nos vai custar caríssimo. Mas em 2013 António José Seguro rejeitou esse acordo e Passos Coelho não lastimou certamente o seu falhanço. (Portas, no estado de descrédito político em que estava, não conta para esta enumeração!)

Em 2017 outras coisas se perceberão porque o tempo será naturalmente favorável a Cavaco. E os primeiros ventos dessa mudança virão da esquerda a quem já não passa desapercebido que os afectos, o falar directamente com o povo e a imprevisibilidade do presidente Marcelo são, por agora, uma faca de dois gumes. Faca essa que no dia que Marcelo quiser se transformará no punhal a ser cravado nas costas do primeiro-ministro. Ou de quem Marcelo entender.

O tempo também permitirá que a poeira assente e que finalmente se constate que não é possível perceber o Portugal da democracia sem perceber o cavaquismo, esse movimento de milhões de eleitores, sempre subestimados mediaticamente, sempre ridicularizados pelo país público e publicado. E, fenómeno que passou quase ignorado, como e porquê Cavaco Silva, Presidente da República, acabou a ter de matar o cavaquismo dos anos 90 do século passado. Não duvido que entre os maiores críticos de Cavaco se contam muitos daqueles que votaram nele para primeiro-ministro. Esperavam certamente voltar a ouvi-lo dizer novamente “deixem-nos trabalhar!” Acredito que se tal tivesse acontecido Cavaco seria hoje bem mais popular e teria a sua gente a defendê-lo. Mas o país não teria ganho nada com isso.

E essa é a questão que se me coloca neste momento: é possível um Presidente da República sair de Belém com altos níveis de popularidade com esse presidente a respeitar os seus poderes e sem procurar subverter o regime? Não sei. Mas sei que Eanes, Soares e Sampaio saíram popularíssimos de Belém. O primeiro fez um partido, o PRD, a partir da presidência. O segundo, Soares, levou os últimos anos do seu mandato presidencial numa cruzada pública contra o então primeiro-ministro que por sinal se chamava Cavaco Silva e tinha sido eleito com uma maioria mais que absoluta. Quanto ao terceiro, Jorge Sampaio, numa manobra de bastidores nunca explicada, afastou Santana Lopes. Mas eram todos popularíssimos no final do mandato.

E aqui chegamos ao equívoco dramático em que assenta a Presidência da República: os portugueses elegem os seus presidentes para que eles subvertam o regime ou para que o defendam e mantenham?

Cavaco Silva optou por mantê-lo mas a impopularidade é o preço que pagou por isso. Seria aliás interessante perceber se Cavaco faria as mesmas escolhas caso pudesse voltar atrás. Mas essa é uma questão meramente teórica. Felizmente para nós Cavaco não pode voltar atrás e escolher ser popular.