Rádio Observador

Combustível

Crónica de uma greve (literalmente) anunciada /premium

Autor
1.365

A greve mostrou por uns dias o que é habitar a Venezuela. O nosso “espaço público”, da saloiice do poder à subserviência dos “media”, mostra-o constantemente. É é ridículo perder tempo a lamentá-lo.

Domingo. Tal como o governo, passei o fim de semana – e as semanas anteriores – a ignorar o anúncio de greve de 600 ou 800 camionistas de “materiais perigosos”. Tal como o governo, julguei que os materiais perigosos se referiam a adeptos da bola, devoluções do último cd de Fernando Tordo ou jihadistas refugiados. Tal como ao governo, não me pareceram produtos cuja falta eu lamentasse excessivamente.

Segunda-feira. Aumentaram de frequência as notícias sobre a greve, que afinal se prende com a distribuição de combustíveis. O governo continuou indiferente. Eu também. O governo porque faz da inépcia um modo de vida. Eu porque, sempre que assino meia dúzia de linhas em prol do automóvel, apanho com a indignação dos fervorosos adeptos das ciclovias, dos veículos eléctricos e sobretudo dos transportes públicos, a acreditar nas televisões o meio favorito de ministros e autarcas – além disso, gozam de descontos e, garantem-me, são imensamente práticos.

Terça-feira. Tomei café numa bomba de gasolina em pleno funcionamento e nem me ocorreu abastecer. A que propósito? As recorrentes reacções ao meu apreço por carros criaram-me a impressão de que apenas uma ínfima minoria dos meus compatriotas apreciaria deslocar-se dessa anacrónica maneira. Seriam, à minha imagem e semelhança, criaturas poluentes e ultrapassadas, paradoxalmente por bicicletas partilhadas, calhambeques híbridos e “metros” de superfície que se movem a 20 km/h. Por isto ou por aquilo, convenci-me de que estas eram as formas de locomoção da população em peso, consciente dos “desafios da mobilidade” e convertida à necessidade ambiental de demorar hora e meia entre Matosinhos e Campanhã.

Quarta-feira de manhã. Acordei com a revelação de que os meus compatriotas são, com todo o respeito, uns hipócritas sem remédio. Tanta lengalenga alusiva aos horrores dos combustíveis fósseis e, à primeira (ou segunda, ou, vá lá, à décima sétima) suspeita de que os combustíveis fósseis podem escassear, lançam-se aos trambolhões nos respectivos postos, a fim de atestar o carrinho, que bom jeitinho lhes dá. Hipócritas e ponderados, já que, para evitar cortes no fornecimento de um produto, não há melhor do que correr aos magotes a adquiri-lo. Tal como o governo, aqui comecei a preocupar-me. O governo, que sempre jurou não ter nada a ver com o problema, passou a tentar resolver o problema, sinal claro de que o problema não se resolveria tão cedo e que, com sorte, arriscava agravar-se. Nos intervalos das “selfies” em velórios e baptizados, o prof. Marcelo disse umas frases no seu estilo próprio, mas, francamente, não prestei atenção e, à excepção do comentador Marques Mendes, duvido que haja no planeta criatura que preste.

Quarta-feira de tarde. Após longa hesitação e moderada preguiça, parti finalmente em busca de gasóleo, mistela que, em Janeiro, o ministro do Ambiente previu abolida em “quatro ou cinco anos”. Aparentemente, queria dizer meses: nos raros postos abertos, a venda limitava-se à gasolina, além de tabaco e vitualhas. Esgotadas as lojas óbvias, atirei-me em busca das obscuras. Com a ajuda do GPS e de indomável coragem, descobri bombas em lugares ermos. Infelizmente, outros descobriram-nas primeiro. A saga ameaçava terminar sem glória quando, em território ausente dos mapas, encontrei um estabelecimento com gasóleo, ou uma promessa do dito. Embora estivesse “no casco” (cito), o funcionário sugeriu que eu esperasse na fila. A fila era de dois carros. Esperei um instante, ou o tempo suficiente para que um sujeito se plantasse junto à minha porta aos gritos: “Não vai meter gasoil! Não vai meter gasoil!” Baixei o vidro e respondi com serenidade: “Hã?” O sujeito repetia: “Não vai meter gasoil!” Olhei em redor à cata de um tradutor e percebi que a fila não era de dois carros: era de uns trinta, e que o condutor de um deles ficara irado face ao desplante com que os ignorei. Presumi que o “casco” e a minha paciência não resistiriam a tamanha procura e arranquei de regresso a casa. Principiei a odisseia com autonomia para 60 km. À chegada, mal dava para 20.

Quarta-feira à noite. Por motivos óbvios, permaneci no remanso do lar, a aprender os meandros da situação. Aprendi, por exemplo, que, avesso a interferir em questões do foro privado, o governo interferira para decretar racionamento e “serviços mínimos”. Aprendi que os mesmos se restringiam a Lisboa e ao Porto, na acertada suposição de que o interior se fornece em Espanha, aliás o que só os maluquinhos não fazem há anos. Aprendi que esta greve em particular é um acto vil, na medida em que não desfruta do aval da CGTP e contesta o progresso com que a esquerda nos abençoou. Aprendi que a autarquia lisboeta disponibilizou bicicletas ao povo, sob o divertido argumento de que “estas têm o depósito cheio”. Aprendi que é infinita a resignação do povo perante a prepotência. Aprendi, com a dona Catarina do BE, que a culpa disto é da “troika”. Aprendi que, em simultâneo aos cérebros que se torce a ver se dão mais, há cérebros que já nascem torcidos. E aprendi que o prof. Marcelo voltou a emitir frases, ainda que com ele a aprendizagem seja ilusória.

Quinta-feira. De manhã, a greve acabou, graças a um governo que não podia fazer fosse o que fosse para que a greve acabasse ou para prevenir os seus efeitos. À hora de almoço, naturalmente, as bombas permaneciam vazias. De tarde havia “gasoil”, a euro e meio o litro. Ajoelhei e agradeci ao dr. Costa.

Sexta-feira. O “spin”, designação “fina” de propaganda, arrancou em grande. Avençados disfarçados de opinadores condenaram a greve. Sociólogos disfarçados de avençados condenaram o “aproveitamento político” da greve. E o DN, uma filial disfarçada de zombie, chamou à “capa” (que não tem), um artigo (que não se lê), assinado por uma “jornalista” (que não se enxerga). A manchete? “O advogado de Maserati que dirige os camionistas”. Por esquecimento, não mencionaram o Fiat Punto do advogado que dirige o DN.

Epílogo. E é assim. A greve mostrou por uns dias o que é habitar a Venezuela. O nosso “espaço público”, da saloiice do poder à subserviência dos “media”, mostra-o constantemente. É ridículo perder tempo a lamentar o buraco a que chegamos se podemos aproveitar para temer o buraco a que haveremos de chegar. De carro ou bicicleta, não vai demorar muito.

Notas de rodapé

1. Na Madeira, o acidente com um autocarro levou o vice-presidente da região a esclarecer, com certo enfado, que o turismo local não seria afectado por aqueles 29 alemães mortos. Claro que não: a população alemã é de largos milhões, pelo que ainda sobraram muitos. E então ingleses, americanos, espanhóis e franceses sobraram todos. Enquanto isso, o presidente madeirense, que não emitiu um pio a propósito, foi dado em parte incerta num vago “estrangeiro”, e depois no Dubai. Fez bem. Por um lado, evitou dizer disparates. Por outro, apesar de lhe imitar a estratégia, não se deixou fotografar em calções como o dr. Costa durante os incêndios. Um estadista que ninguém vê: por mim, trocava já 300 estarolas do “continente” pelo dr. Albuquerque. Quanto aos madeirenses, esses ingratos, suspeito que em Setembro trocarão o dr. Albuquerque por quem calhar.

2. Não sendo sequer remotamente cristão, tive pena do que aconteceu a Notre-Dame. E tive ainda mais pena de que os escombros não tivessem desabado em cima dos que, de uma maneira ou de outra, celebraram a tragédia.

3. Greta Thunberg, a criança sueca que inspirou milhares de crianças a marchar contra o capitalismo de telemóvel em punho, apelou no Parlamento Europeu a que “salvem [quem?] o mundo como salvaram [salvaram?] Notre-Dame”. Presumo que as idades mentais da audiência e da oradora sejam equivalentes. Já os jornalistas que chamam “activista” a Greta são bastante mais jovens.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Crónica

I love Portugal /premium

Alberto Gonçalves
2.410

Os portugueses lúcidos, coitados, padecem da esperança de que os portugueses restantes acordem para as delícias da liberdade. Sucede que para os simplórios a liberdade não é deliciosa: é uma ameaça.

Combustível

Os motoristas e o mercado

Jose Pedro Anacoreta Correira

Quando o Governo não consegue instrumentalizar politicamente os sindicatos, passa ao ataque. A luta e defesa dos trabalhadores é só para trabalhadores do Estado e filiados na CGTP.

PSD

Rui Rio precisa do eleitorado de direita /premium

João Marques de Almeida

O eleitorado de direita deve obrigar Rui Rio a comprometer-se que não ajudará o futuro governo socialista a avançar com a regionalização e a enfraquecer o Ministério Público. No mínimo, isto.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)