A direita tem por bases filosóficas o pessimismo antropológico e o realismo geopolítico e rejeita as concepções optimistas do homem que, de Rousseau a Marx, foram a base ideológica de utopias que levaram aos Goulags soviético e maoista. Acredita na importância da História, da Geografia e da Geopolítica para a definição e para a acção dos homens e das comunidades políticas e acredita na Nação como comunidade de destino, corpo intermédio entre o individual e o universal, a pessoa e a humanidade.

Respeita a religião, a memória colectiva, a família. Tem uma concepção orgânica da sociedade; valoriza a pessoa e as suas liberdades mas não sacraliza o individualismo e o arbítrio. Por isso, embora veja na iniciativa privada e no mercado livre a melhor forma de dinamizar a economia e criar riqueza, sustenta que há uma ética de justiça e de solidariedade que, em nome do interesse colectivo, deve corrigir as desigualdades mais profundas e proteger os grupos mais débeis, reforçando a coesão nacional. Sendo pela liberdade económica, está longe dos dogmas ultra-liberais.

Em síntese, a direita é tendencialmente nacionalista em política, liberal-solidarista em economia e conservadora em costumes. E quando não é conservadora em costumes, deixando a vida privada no domínio do privado, não prescreve a legalização de soluções de rotura.

A própria natureza “geométrica” desta classificação, apesar de seguir uma dicotomia mais ou menos constante de conservadores versus progressistas, aponta para o seu carácter relativo em termos de tempo e lugar.

De todas as formas, qualquer síntese deste tipo será sempre tendencial, até porque direita e esquerda são conceitos relacionais, com uma dinâmica histórica.

A oposição direita/esquerda teve origem na arrumação espacial dos deputados em França, depois da Revolução, quando, por facilidade de contagem, os partidários do direito de veto do Rei ficaram à direita do Presidente da Assembleia Constituinte e os opositores se posicionaram à esquerda. A própria natureza “geométrica” desta classificação, apesar de seguir uma dicotomia mais ou menos constante de conservadores versus progressistas, aponta para o seu carácter relativo em termos de tempo e lugar.

Em França, que foi o modelo europeu de grandes transformações de regimes e constituições, a direita, depois da Restauração, era tradicionalista, católica e conservadora; a esquerda, republicana, laica e liberal. Com a industrialização, a urbanização e a “questão social”, a economia, o dinheiro e as classes sociais entraram nos critérios: a direita defendia a propriedade, a esquerda considerava-a, com Proudhon, um roubo. E com a Primeira Internacional e o proletariado como classe vanguardista e libertadora da Humanidade, quando a esquerda radical passou também a ser, além de socialista, internacionalista, os liberais chegaram-se à direita, com medo da “rua” nas revoluções de 1848.

Mas a partir da derrota na guerra franco-prussiana, o nacionalismo vai, em França, por obra de pensadores como Renan, Taine, e depois Barrès e Maurras, não só integrar o pensamento da direita conservadora, como dar-lhe um sentido orgânico e autoritário. E surgirá, também em França, em autores como o mesmo Barrès e Georges Sorel, a vontade de fundir o nacionalismo e os nascentes movimentos sociais; foi esta ideia que, junto ao sindicalismo revolucionário e pelo engenho de Mussolini, inspirou inicialmente o fascismo, que é uma simbiose de “direita” e “esquerda” tradicionais.

E o fascismo triunfa em países como a Itália por ser, para as classes médias nacionalistas e conservadoras, uma alternativa e uma força frente a ameaça do comunismo e dos comunistas que, depois da vitória de Lenine na Rússia, são vistos como o inimigo principal da civilização. O marxismo-leninismo inspira a Terceira Internacional e é essa esquerda marxista-leninista que entra em conflito com sociais-democratas e liberais – a esquerda moderada.

A direita – nacional-populista – foi buscar a fronteira e a identidade nacional; a esquerda – internacional-populista – foi buscar as minorias e a gestão dos seus direitos e identidades para as congregar numa nova internacional contra a opressão de uma vasta classe dominante.

Mas o triunfo eleitoral do hitlerismo na Alemanha leva as esquerdas a unirem-se em “frentes populares”. A guerra de Espanha e o curso subsequente das alianças europeias levará à guerra mundial, em que a Alemanha e as potências do Eixo vão perder contra a aliança da Anglo-América e da URSS. Derrota no campo de batalha e em todos os campos, em face dos excessos concentracionários do hitlerismo – uma versão socio-darwinista, etnocêntrica e pagã do nacionalismo. Depois, a damnatio memoriae caiu, não apenas sobre o hitlerismo, mas sobre todos os fascismos e nacionalismos – e, por amálgama manipulada, sobre toda a direita.

A Guerra Fria levou a um reagrupamento anti-comunista e anti-soviético, animado pelos Estados Unidos, numa frente ampla que subordinou e dissolveu outros conceitos ideológicos e uniu as direitas permitidas e até as excluídas com as esquerdas moderadas.

Quando Gorbachev, sob pressão económica e cultural da América de Reagan, liberalizou politicamente a URSS, levando-a ao suicídio, e os partidos comunistas caíram por toda a parte, os conceitos e definições voltaram a uma espécie de estaca zero. A questão económica, que perdeu importância quando deixou de haver modelos socialistas, trouxe uma escalada do modelo liberal democrático que se impôs como único modelo político; e o capitalismo, com a globalização, voltou a não ter regras nem limites.

Daí vieram – sobretudo a partir da crise de 2008 – as novas forças chamadas “populistas”, numa linha geral de reacção ao optimismo globalizador mundial e à infalibilidade da “mão invisível”. Vieram da direita, mas também da esquerda, ou daquela esquerda que não se converteu totalmente à gestão do capitalismo. A direita – nacional-populista – foi buscar a fronteira e a identidade nacional; a esquerda – internacional-populista – foi buscar as minorias e a gestão dos seus direitos e identidades para as congregar numa nova internacional contra a opressão de uma vasta classe dominante: a humanidade em geral, opressora do planeta e das outras espécies; os indivíduos de raça branca, responsáveis, geracional e transgeracionalmente, pela opressão dos indivíduos de outras raças; os indivíduos de sexo masculino, responsáveis pela opressão dos indivíduos de sexo feminino; os indivíduos de sexo fixo ou correspondente ao biológico, responsáveis pela opressão dos indivíduos de géneros alternativos; e os indivíduos de cultura de matriz cristã, responsáveis por todas as inquisições, opressões e perseguições a indivíduos de outras crenças ou descrenças.

Em Portugal

A partir do fracasso da República dos Democráticos, da reacção militar do 28 de Maio e do Estado Novo, a direita governou autoritariamente Portugal por quase meio século. Quando a esquerda chegou ao poder, pelo golpe militar do 25 de Abril, a esquerda mais radical – poderosa em termos de activismo de rua e de influência no MFA – tratou de neutralizar e eliminar a direita que existia. De resto, a esquerda tinha, há muito, a hegemonia cultural, uma vez que Salazar, ao centralizar e monopolizar o pensamento político da direita e ao domesticar a sua própria área política, fora secando intelectualmente as direitas, facilitando, paradoxalmente, o domínio da esquerda na cultura. Fosse como fosse, quando do golpe militar de Abril, a direita que existia ainda tinha visões alternativas à descolonização, ideias políticas e alguma capacidade de mobilização de quadros e de militantes.

Portugal deve ser hoje o país mais à esquerda da Europa Ocidental e o que tem mais representações parlamentares de extrema-esquerda: a comunista, a bloquista, e as do populismo radical – planetário, animalista, racial e sexual.

A sua neutralização fez-se manipulando e aproveitando os golpes de 28 de Setembro de 1974 e de 11 de Março de 1975 e com o silêncio de Pilatos do PPD-PSD e do CDS, que depois aceitaram o Pacto MFA-Partidos para sobreviver. Eram uma direita conveniente à esquerda e, por isso, tolerada. Tinham um eleitorado de direita mas, ideologicamente, não tinham valores de direita, além do anti-comunismo e de uma vaga defesa da economia liberal.

O que é estranho é que, mais de 45 anos sobre o 25 de Abril e quase 44 anos sobre o 25 de Novembro, a direita partidária ainda esteja nesse registo assustadiço, preferindo ser ou dizer-se de centro, de centro-direita ou até de centro-esquerda.

Isto ainda é mais extraordinário num tempo em que a direita, nas suas várias formulações, cresce e se multiplica por toda a parte, por reacção ao domínio de um ultraliberalismo e de uma globalização sem limites, conscientemente servidos ou inconscientemente viabilizados pela ideologia da chamada “Nova Esquerda”,

Portugal deve ser hoje o país mais à esquerda da Europa Ocidental e o que tem mais representações parlamentares de extrema-esquerda: a comunista, a bloquista, e as do populismo radical – planetário, animalista, racial e sexual.

Como reconstruir em Portugal uma direita que seja idealista e realista; uma direita que, respeitando o tempo passado, seja deste tempo? Como consolidar aqui uma direita que não seja uma amálgama de slogans ocos, nem se sinta obrigada a apresentar constantes atestados de bom comportamento perante o sistema e a sua retórica, adoptando servil e acriticamente as categorias impostas pela semântica da esquerda doméstica do séc. XX? Como mobilizar uma direita nacional que não se molde à imagem caricatural que a esquerda faz dela nem se perca em chavões importados, roncantes e patrioteiros, alheios à realidade do nosso passado, presente e futuro?

Estamos num tempo de reacção e a reacção começa pela negação do estabelecido e envolve uma certa radicalidade. Por isso, e porque as sínteses vêm depois das antíteses, só muito dificilmente se chegará agora à síntese.

Desde 2016 que, na Europa e nas Américas, as direitas ganham referendos e eleições, elegendo governos e partidos populares e abalando o que parecia sólido e inamovível. Estas direitas são identitárias e são nacionais e, quer sejam mais conservadoras ou mais liberais em costumes, respeitam a propriedade e a liberdade económica, pondo-lhes limites de interesse nacional e de justiça social. Não negam o projecto europeu mas querem uma Europa das Nações, com base nas soberanias nacionais e na tradição cristã europeia, e não uma federação ou confederação de interesses económico-financeiros, em que os grandes – países e corporações – mandam, com a cumplicidade de elites periféricas, cuja ambição máxima é serem procônsules ou mesmo capatazes dos seus próprios povos.

Sem pretender excluir outras famílias ideológicas que também cabem na direita e sem nunca descurar as nossas especificidades históricas e culturais, são, aparentemente, estas as linhas de identificação à direita capaz de responder aos presentes desafios. Até porque, como o conceito é relacional, será esta a direita passível de se integrar no movimento das direitas nacionais e populares que agora contesta a hegemonia política do bloco central e o domínio cultural de uma esquerda também renovada.

Nova esquerda, nova direita

É que a esquerda deixou de ser leninista para ser gramsciana: não trata já de um assalto final ao “Palácio de Inverno”, ao Estado, mas da conquista das mentalidades para dominar a sociedade, suplantando “corpos intermédios” entre o local e o global, como os Estados, através de uma desconstrução (e reconstrução) cultural e civilizacional. Assim, a esquerda internacional continua a ter um projecto de mudança da sociedade; só que não é, para já, um projecto de socialismo totalitário, instaurado por revoluções com sangue, partidos únicos, polícia política, confiscações, campos de concentração ou fuzilamentos, mas um projecto de mudança da própria natureza humana e da sociedade, uma mudança radical mas feita em suaves prestações e viabilizada por pequenas e médias decisões, aparentemente inócuas. O fim é a destruição dos chamados “valores tradicionais” e a sua substituição pelos valores de uma humanidade nova e de um novo ser humano, actualmente em construção experimental – volátil em matéria de género, desenraizado da família e da pátria, activamente neutro em termos religiosos, inibido de usar certas palavras e conceitos, permanentemente ameaçado pelo clima e pelos eco-inconscientes e em tudo semelhante aos animais, que, por sua vez, o novo homem irá “humanizando”.

A esquerda deixou de ser leninista para ser gramsciana: não trata já de um assalto final ao “Palácio de Inverno”, ao Estado, mas da conquista das mentalidades para dominar a sociedade, suplantando “corpos intermédios” entre o local e o global, como os Estados, através de uma desconstrução (e reconstrução) cultural e civilizacional.

É hoje pelo domínio da escola, da Academia – sobretudo das Humanidades – e dos media que a esquerda passa o seu pensamento, “apartidário, não-ideológico e científico”, através de mensagens cada vez mais simplistas, como que isentas e factuais, dirigidas a destinatários (e a re-emissores) cada vez mais formatados e acríticos.

Curiosamente, é também hoje a esquerda, como detentora da nova verdade absoluta, quem proíbe pensamentos, palavras, actos e omissões; e é sobretudo ela quem hoje censura, julga e persegue. O newspeak, termo que George Orwell cunhou no 1984 e que definiu como “uma linguagem forjada para estreitar a amplitude do pensamento”, com “a eliminação ou substituição de certas palavras e a criação de palavras novas, para fins políticos”, acabou por ser a sua profecia mais certeira para o futuro que agora vivemos.

Diz o credo de isenção jornalística que todo o profissional bem pensante ao serviço da verdade absoluta tem de falar newspeak, temperando com um ou mais adjectivos torpes a ocasional referência a Marine Le Pen, Donald Trump, Jair Bolsonaro, Boris Johnson, Matteo Salvini, Santiago Abascal e criaturas afins – seres intrinsecamente perversos e diabólicos de que “ninguém gosta” (a não ser uns quantos eleitores). Do mesmo modo, onde quer que dois ou três generosos activistas se reúnam em nome da morte assistida, da vida interrompida, dos mil géneros e transgéneros, da guerra dos sexos, da luta das raças e da agonia do planeta, aí estará um profissional da informação; em contrapartida, os fiéis ou apóstolos de outras causas não-alinhadas que acaso se reúnam aos milhares num qualquer terreiro ou santuário terão de se contentar com a presença de Deus.

A retórica dominante, como a de todo o pensamento de raiz utópica, é agradável, sobretudo perante públicos de conceitos médios e banalizados, cada vez com menos ciência e paciência para um “pelo contrário”, um “não é bem assim” ou um “no entanto” que seja. Até pela sua laicização deturpada da mensagem cristã, o optimismo antropológico da esquerda e a promessa de igualdade, de libertação da História e de todas as tradições, barreiras e tabus, na sua vacuidade demagógica e redutora, são infinitamente mais “simpáticos e generosos” do que quaisquer propostas realistas. Além disso, enquanto a direita e as direitas têm sempre um cunho local e uma especificidade nacional (logo, “egoísta”), a esquerda, declaradamente internacionalista (logo, “generosa”), internacionalizou efectivamente as suas causas – do catastrofismo climático ao anti-racismo à americana, das políticas de género à higienização histórica.

Resistir a este projecto e encontrar-lhe uma alternativa deve ser, essencialmente, a missão das direitas ou do que quer que seja que valha a pena pensar e construir para parar o experimentalismo suicida e a regressão civilizacional sob a capa de progresso que ameaçam a Europa e as Américas.

Desde a crise de 2008-2010, e mais claramente desde 2016, que há uma mudança profunda na política e na geopolítica do mundo euroamericano. Uma mudança que, este ano, nas eleições para o Parlamento Europeu, confirmou uma forte representação de partidos e forças políticas nacionalistas e identitárias, diferentes entre si, mas a que os seus adversários e os media chamam indiscriminadamente populistas, de extrema-direita ou de direita radical. Graças à sua presença na União Europeia e à de representantes de países que, a leste, sofreram o “paraíso socialista na terra” – e também aos conservadores, aos democratas cristãos e aos liberais europeus –, o Parlamento de Bruxelas votou a equiparação do comunismo ao nazismo, para grande indignação da esquerda radical. Já é um princípio.

A entrada no Parlamento e na competição político-partidária, ao fim de 45 anos, de partidos ainda neófitos mas que já representam alguma alternativa às oposições centristas despolitizadas – ou seja, a um PSD, e até a um CDS, quase ideologicamente indiferenciáveis do PS – pode vir a mudar as coisas.

Nestes trinta anos, o capitalismo liberal vitorioso estendeu-se a toda a terra, sem quaisquer limites, nacionais ou racionais, tornando-se, assim, próximo do “capitalismo selvagem”, descoberto e criticado por Karl Marx, um modelo que só se salvou graças às regras impostas pelo poder político – de Bismarck a Ted Roosevelt, dos fascistas aos sociais-democratas, dos solidaristas cristãos aos sindicalistas do Front Populaire. Desindustrialização na Europa e nos Estados Unidos, discrepâncias salariais faraónicas, destruição de tradições, culturas e indústrias, do Nordeste americano ao Nordeste francês, migrações, por vezes economicamente necessárias mas política e culturalmente explosivas, tem sido o quadro desde os anos 90 do século passado. E como as forças políticas do “grande centro” – centro-direita conservador e democrata-cristão, centro-esquerda social-democrata e socialista – se têm mostrado incapazes de responder a estes desafios e a natureza política tem horror ao vazio, surgiram novas forças, novos partidos e novos líderes.

Portugal, que não tem claramente muitos destes problemas mas que tem outros, ficou fora desta tendência. Não tem uma imigração significativa de origens culturalmente estranhas, embora isso possa estar a mudar; é um Estado-nacional antigo e sem dissidências religiosas ou raciais; e não tem separatismos ou secessionismos nacionalitários, como os nossos vizinhos do Reino de Espanha, com a Catalunha e o País Vasco.

Nas últimas eleições, sem grandes alternativas conhecidas (o Chega e a Iniciativa Liberal eram novos e desconhecidos), muitos eleitores conservadores ficaram em casa, entendendo que, para centro e centro-esquerda, o Partido Socialista estava muito bem, de preferência sem Geringonça. Mas a entrada no Parlamento e na competição político-partidária, ao fim de 45 anos, de partidos ainda neófitos mas que já representam alguma alternativa às oposições centristas despolitizadas – ou seja, a um PSD, e até a um CDS, quase ideologicamente indiferenciáveis do PS – pode vir a mudar as coisas. E PSD e CDS, ou se reformulam e estabelecem pontes para reconstruir e consolidar uma direita plural mas que possa funcionar ocasional e estrategicamente em bloco, ou podem estar a caminhar rapidamente e em força para a irrelevância.