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Este tempo de prolongado confinamento, se alguma vantagem tem é a de nos proporcionar uma especial oportunidade de reflexão mais profunda e existencial. Entretanto, nesta proximidade do tempo litúrgico da Quaresma, que culminará com a Páscoa, dei comigo debruçado sobre a relevância que o invisível tem na nossa vida.

É um facto que nem tudo o que existe é visível. Mas num mundo mediático, em que cada vez mais estamos imersos, o que não aparece à vista dos olhos… parece que não existe. Já na venerável narrativa do evangelho de João, Tomé respondeu ao anúncio dos outros apóstolos de que tinham visto Jesus, do seguinte modo: «Se eu não vir em suas mãos o lugar dos cravos e se não puser o meu dedo no lugar dos cravos e minha mão no seu lado [trespassado], não acreditarei» (Jo 20, 24-25). E o ditado popular, inspirado por esta passagem, fixou a conhecida máxima «ver para crer como São Tomé». Quanto a este apóstolo, repare-se que nem mesmo o sentido da visão lhe bastou: teve ainda que recorrer ao sentido do tacto, para que se rendesse à evidência de que Jesus ressuscitara e lhe aparecia.

Embora Jesus tenha rematado a referida cena com Tomé declarando «felizes os que não viram e acreditaram» (Jo 20,29), não deixa de ser naturalmente bastante humano o recurso aos sentidos corporais para constatar a existência de algo. Aliás, segundo um outro evangelista – Lucas – o próprio Jesus exorta os onze apóstolos a recorrer aos sentidos da visão e do tacto, para que acreditassem que era Ele mesmo que lhes aparecia: «”Vede as minhas mãos e os meus pés: sou eu! Apalpai-me e entendei que um espírito não tem carne, nem ossos, como estais vendo que eu tenho”. Dizendo isto, mostrou-lhes as mãos e os pés». E como se isto ainda não bastasse, ainda comeu ali mesmo diante deles «um pedaço de peixe assado» (cf. Lc 24, 36-43).

Trata-se aqui sobretudo (ou à partida) da visão humana no sentido fisiológico: aquela que depende das potencialidades de uma estrutura nervosa que começa na retina, passa pelo nervo óptico e termina no córtex cerebral occipital. Mas que também depende quer das condições de visibilidade do próprio objecto percepcionado: a sua dimensão micro ou mesmo nano, ou a sua capacidade para reflectir a luz, quer da qualidade desta própria luz.

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E ao falar de luz, muito haveria ainda a considerar: a luz no sentido imediato e literal, físico, com todo o seu espectro de vários comprimentos de onda, do visível ao invisível pelo olho humano; ou a luz no sentido metafórico, intelectual, como quando nos referimos a alguém especialmente inteligente, dizendo que é um iluminado; ou quando, nessa perspectiva, o saber é reduzido ao racional, apenas dependente da razão, referindo-nos ao movimento filosófico do Iluminismo, surgido ao longo do século XVIII europeu.

Neste último sentido, ocorre dizer que já muito antes do chamado Século da Luzes, a metáfora da luz como condição do saber perfeito ou da sabedoria verdadeira, afastamento das trevas, etc. foi utilizado pelos gregos e depois pelo próprio Cristo ao dizer de Si mesmo e dos seus seguidores: «Eu sou a luz do mundo; aquele que me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida» (Jo 8, 12; e também 9, 5 e Mt 5, 14). São inúmeras as referencias bíblicas à luz como atributo da glória divina e do acesso à verdade, sobretudo nos escritos do apóstolo e evangelista São João. Parece-me óbvio que os filósofos iluministas – inevitáveis filhos da cultura cristã – como que se apropriaram desta noção, desde sempre grega e logo depois cristã.

Aliás, consideremos o que diz o Catecismo da Igreja Católica (CIC) no nº 1216, quando descreve os diversos nomes do sacramento do Baptismo (itálicos no original):

«Este banho é chamado iluminação, porque aqueles que recebem este ensinamento [catequético] ficam com o espírito iluminado…» (São Justino, Apologia I [cerca do ano 150]). Tendo recebido no Baptismo o Verbo, «luz verdadeira que ilumina todo o homem» (Jo 1, 9), o baptizado, «depois de ter sido iluminado» (Hb 10, 32), tornou-se «filho da luz» (cf. 1Ts 5, 5) e ele próprio «luz» (Ef 5, 8).

De facto, não existem apenas realidades ou coisas materiais. Há entes de natureza espiritual. Nem toda a realidade pode ser integralmente reduzida à matéria, seja esta o que for. E há realidades que integram os dois “mundos”, tal como cada um de nós, seres da espécie humana. E há seres pessoais puramente espirituais, como os anjos (cf. CIC nn 328-336). Usando os sentidos do corpo, o intelecto e a razão, as faculdades da consciência, do saber que se sabe, isto é, das faculdades humanas naturais, podemos concluir da existência do sobrenatural ou transcendente. Nós, os cristãos que acreditamos em Deus Uno e Trino, cremos que Ele Se revelou ao longo da História por palavras e acções; e que essa revelação culminou na Pessoa de Jesus Cristo – que é Deus, a segunda Pessoa da Santíssima Trindade desde toda a eternidade, “agora” feito homem. Mas tendo cumprido a sua missão salvadora e redentora nesta terra, regressado à glória celeste, permanece verdadeiro o que o próprio Jesus disse a uma mulher da Samaria: «Deus é espírito e aqueles que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade» (Jo 4, 24).

Assim, o invisível por natureza, tornou-se visível, sem deixar de o ser. De facto, diz o sublime apóstolo e evangelista São João: «Ninguém jamais viu a Deus: o Filho único […], este o deu a conhecer» (Jo 1,18). E na sua primeira epístola reitera que «ninguém jamais contemplou a Deus» (1 Jo 4, 12). Já desde os tempos do Antigo Testamento se contava que um dia Iahweh/Deus respondeu a um ousado pedido de Moisés o seguinte: «Não poderás ver a minha face, porque o homem não pode ver-me e continuar vivendo»; e depois de conceder a Moisés que apenas o veja «pelas costas» (sic), acrescenta Deus: «Minha face, porém, não se pode ver» (cf. Ex 33, 18-23); e já anteriormente dissera Deus a Moisés: «Desce e adverte o povo que não ultrapasse os limites para vir ver Iahweh, para muitos deles não perecerem» (Ex 19, 21).

E, contudo, é-nos assegurado pelo CIC (nº 1023) que o Céu, para aqueles que o ganharem após a morte, consiste na visão beatifica, em ver a Deus face a face. E de imediato cita-se ali um documento solene do Papa Bento XII (papa de 1334-1342), onde este pontífice, «com a sua autoridade apostólica» especifica que se trata de ver «a essência divina com uma visão intuitiva e face a face, sem a mediação de qualquer criatura» (Constituição Benedictus Deus).

Mas com a encarnação de Deus (da Pessoa do Logos/Verbo/Palavra), que é Jesus de Nazaré, chamado Cristo, surge esta surpreendente resposta de Jesus ao apóstolo Filipe que pede para lhe mostrar Deus/Pai: «Há tanto tempo que estou convosco e não me conheceste, Filipe? Quem me , o Pai»; isto pouco antes de advertir Tomé com estas palavras: «Se me conheceis, também conhecereis a meu Pai. Desde agora o conheceis e o vistes» (Jo 14, 7). São estas, algumas das palavras inequivocamente reveladoras da sua identidade divina, que Jesus transmite aos Doze, num contexto de despedida, durante a chamada Última Ceia, na véspera da sua morte. Sim, o invisível, tornou-se definitivamente visível, ainda que a seu modo, já neste mundo! Já antes, no episódio da Transfiguração (cf. Mt 17, 1-13; Mc 9, 2-13; e Lc 9, 28-36), Jesus tinha revelado e deixado, por um momento, ver um pouco da Sua glória divina a Pedro, Tiago e João.

Mas Aquele que desde toda a eternidade era invisível e não se pode ver sem morrer, não deixava de o ser, não fosse Ele ainda e sempre o absolutamente transcendente, o Mistério absolutamente Outro. Efectivamente, as aparições de Jesus, durante aqueles quarenta dias depois da ressurreição, não deixam de ser elas mesmas profundamente misteriosas pois as propriedades do seu corpo ressuscitado não deixam de ser surpreendentes: aparece com diversas fisionomias, onde, como e quando quer; e sem estar limitado aos condicionalismos do espaço e do tempo (cf. CIC, nn. 645-646).

Dito de outro jeito: a relevância histórica de Jesus de Nazaré, enquanto revelador de Deus, não deixa de estar absolutamente dependente da consideração e fé de cada um de nós na sua “discreta” divindade. Esta, não é imediatamente visível, evidente. Ou ainda: a sempre misteriosa divindade de Jesus é absolutamente relevante para o reconhecimento do impacto que Ele tem, ou não, nas nossas vidas. Este personagem famoso (passe a expressão), de cuja existência histórica poucos duvidarão, é ou não, Deus? É a pergunta absoluta e fundamental que espera a resposta pessoal e determinante de cada um que d’Ele tenha um razoável conhecimento. Aliás Ele próprio perguntou aos seus discípulos – e através deles a cada um de nós: «E vós, quem dizeis que eu sou?» (Mt 16, 15; Mc 8, 29; e Lc 9, 20). Sabemos o que Pedro respondeu de imediato por revelação divina e que, segundo São Mateus (16-20), lhe mereceu o primado entre todos os apóstolos.

E sempre tendo em vista o nexo incindível da invisibilidade com a visibilidade, da Pessoa de Cristo e dos Apóstolos que nos legaram o que experimentaram com Jesus, tenho presente a Igreja e a fé que só nela se acredita, se professa e transmite. Qual é a vertente invisível da Igreja? É a da sua irreversível e incindível ligação com a própria Pessoa divina de Jesus e com o Seu Espírito. A Igreja é uma extensão no tempo do próprio Cristo. Daí advém a sua unidade, unicidade e universalidade e a sua santidade: é verdade que só Deus é santo; mas é precisamente esta intimidade que Deus lhe concede, tendo-se entregue totalmente a Ela, que assim faz a Igreja também santa, ainda que constituída por pecadores. Se lhe faltasse esta indefectibilidade da total entrega de Jesus, a Igreja seria uma sociedade apenas humana, ainda assim eventualmente interessante.

Um outro âmbito de profunda relação do invisível com o visível que me ocorre, é o dos sete Sacramentos da Igreja. Como escreve um teólogo contemporâneo que tenho estado a ler, «a extensão da incarnação não respeita apenas à natureza da Igreja, mas também à sua acção que é sempre uma actividade incarnada. É o caso, por excelência, dos sacramentos. Eles dispensam uma graça sobrenatural e invisível através de sinais materiais e visíveis». Ou, como diz o CIC no nº 115, «[…] Os mistérios da vida de Cristo são os fundamentos do que, de ora em diante, pelos ministros da sua Igreja, Cristo dispensa nos sacramentos, porque “o que no nosso Salvador era visível, passou para os seus mistérios [ou sacramentos]” (São Leão Magno [papa de 440-461], Sermão 74,2)».

A Eucaristia é o Santíssimo Sacramento, a «fonte e cume de toda a vida cristã» (LG, 11). Sabemos que Cristo está presente de múltiplos modos na Igreja, mas de modo único e excelente (cf. CIC, nº 1374) «sobretudo sob as espécies eucarísticas» (SC, 7) do pão e do vinho consagrados na Missa. Aqui a relação do invisível com o visível é absolutamente fundamental e atinge como que o seu ápice. Inquéritos recentes nos Estados Unidos da América revelaram que apenas 31 % dos católicos, acreditam nesta presença substancial e invisível de Cristo na Eucaristia. Será a nossa fé na Presença real do Cristo completo neste sacramento (com o seu corpo, sangue, alma e divindade), suficiente e verdadeira? Com que gestos, hoje, manifestamos exteriormente e visivelmente esta fé?

Ouso agora dar um salto para o âmbito da embriologia humana, área onde a visibilidade assume a maior relevância. A qualidade humana do zigoto também não se vê a olho nu: nessa fase é microscópica. Felizmente, hoje, as técnicas da microscopia óptica e da ecografia, permitem alargar as potencialidades da visão. Mas ainda que não seja imediatamente visível, como é então possível negar ao produto da fusão dos gâmetas humanos, masculino e feminino, precisamente a qualidade humana? Torna-se e-vidente que o zigoto, desde o instante em que se fundiu o espermatozóide e o óvulo é um de nós!

Entrando agora no âmbito da antropologia cristã: tendo ao longo dos meus 40 anos de médico assistido à morte natural de algumas pessoas, doentes, familiares e até amigas, confronto-me sempre, perante os seus inertes e frios restos mortais (propriamente chamados cadáver), com a questão do que havia ali e que agora, imediatamente depois da morte, já não há. O que havia ali, que fazia daquele conjunto orgânico, precisamente um organismo integrado e íntegro, dotado de um eu pessoal e que se esvaneceu? Havia um eu imaterial e irrepetível que permaneceu sempre o mesmo ao longo do seu crescimento desde a fase embrionária, apesar da matéria concreta que constituiu o corpo vivo estar continuamente a renovar-se. De facto, não se vê directamente, é espiritual, mas as suas manifestações são evidentes. É aquilo que a tradição designa por alma espiritual.  Cremos que é imediatamente criada por Deus, e que subsiste depois da morte corporal; e se reunirá “um dia” com o seu corpo ressuscitado e glorioso. Consola lembrarmo-nos disto ao vermos a fria e despersonalizada estatística diária de tantas mortes por Covid.

Enfim, o esquecimento histórico, no tempo de algumas poucas gerações, a que a grande maioria de todos nós, os não-famosos da História, estamos condenados é ele mesmo como que uma invisibilidade ou inexistência fatal, fixada a prazo. Já alguma vez imaginaram quantas pessoas como nós já viveram desde que somos o que somos? Onde paira a sua memória? Mas havendo um Deus Pessoal e Transcendente, que seja o Eterno-Presente – qual cloud sobrenatural – permaneceremos como que eternamente em Sua memória.

Que consciência temos das realidades quer invisíveis quer de natureza espiritual? Que relevância têm para cada um de nós? Estamos suficientemente atentos aos seus sinais? A sua consideração pesa no modo como pensamos e vivemos a fé? Uma visão estritamente materialista limita a nossa visão do Universo, do Homem e da sociedade. Somos apenas carne? Há algo em cada um de nós irredutível à matéria, sem o qual simplesmente não somos humanos? Ou somos quanto muito um complexo sistema, composto apenas de matéria, ainda que especialíssima e quimicamente muitíssimo sofisticada? Não me parece e não quero crer! «O espirito é que vivifica, a carne para nada serve» (Jo 6, 63).

«Existem tantas coisas que não vemos e que existem e são essenciais […]. Precisamente as coisas invisíveis são as mais profundas e importantes» (Bento XVI, resposta a uma criança, num Encontro de Catequese e Oração, 15 de Outubro de 2005).