Na escadaria dos Paços do Concelho de Lisboa há uma escultura a celebrar a república portuguesa e a educação. Em oito anos a vê-la diariamente, Dom António Costa e a sua corte na atual direção do PS não aprenderam nada sobre serem republicanos e laicos; preferem ser monárquicos e fundamentalistas.

Nesta república semelhante à de Bolsonaro e filhos, Costa sénior para pôr Costa júnior a presidente de junta, trocou esse lugar pelo de deputado com Pedro Cegonho. Não houve um único voto envolvido nestas transações do regime apodrecido. Tal como ninguém escolheu o rei D. Carlos, nenhum eleitor escolheu quer Dom Pedro Cegonho para deputado da assembleia da república quer Dom Pedro Costa para presidente da junta de freguesia de Campo de Ourique. Para integrar a lista geral de deputados por Lisboa do PS, Cegonho não foi escolhido sequer pelos militantes socialistas que já não contam para nada. Cegonho só foi eleito especificamente pela população para presidente da junta. Costa júnior não foi eleito presidente. Dava era jeito lá em casa do pai Costa o filho ser presidente da junta. Num país falido porque governado há décadas por estes métodos da corte política, de que há de viver o real primogênito sem ser do Estado?

Claro que houve “eleições” como havia no MPLA de José Eduardo dos Santos que também ajudava a filha devido á “competência” dela. Alguns Lisboetas militantes do PS tiveram de pôr a cruz na lista única de candidatos a deputados por Lisboa do PS escolhida por Costa onde Cegonho estava incluído. Isso foi só encenação pois o voto dos militantes só conta quando agrada ao chefe. Por exemplo na Distrital de Braga os militantes votaram por larga maioria para incluírem candidatos de valor na lista de deputados do PS por aquele círculo. No entanto, Costa, removeu da lista de candidatos os que tinham valor e tinham sido eleitos pelos militantes. Não davam jeito a D. Costa: Eram republicanos éticos e podiam não compactuar com arranjos familiares ou caros negócios na TAP, Lítio, BES, SIRESP e Kamov. Assim, como podemos combater o conflito de interesses e lobbies?

Quanto à população, em nenhum círculo eleitoral do país, pode escolher unipessoalmente o seu deputado do PS. Nós portugueses tivemos de votar por atacado em listas distritais gerais de nomes sancionados todos por D. Costa, sem escolher nem saber que deputado nos representa especificamente, como aconteceria numa democracia avançada. Não representando a população, como combateremos a abstenção que põem em causa a democracia?

Esta corte monárquica de ex jotas partidários, que nenhum eleitor pode escolher unipessoalmente para a assembleia da república ou governo, acumulam cargos e respetivos salários como se fossem super gestores. Isto apesar de não terem experiencia profissional relevante fora da política. Cegonho acumulou ser deputado da nação e presidente de junta. Há outros presidentes de juntas de Lisboa que são deputados nacionais e acumulam vários cargos subsidiados pelo estado claro. Esta fidalguia tem uma ganância tão grande por dinheiro do estado que quer lá saber de ter tempo para gerir bem. Desprezam os milhões de cidadãos que deveriam servir e os milhares de portugueses qualificados que poderiam fazer a tempo inteiro cada um dos múltiplos cargos que cada um destes fidalgo tem. Como se não bastassem estes vícios cumulativos no ativo político, até os políticos reformados acumulam reforma com subvenção vitalícia. Na corte acreditam mesmo que há 2 pesos e 2 medidas: uma para a plebe outra para eles. Estes filhos de algo – ou quem os puser avante no poder – até podem fazer festas numa pandemia enquanto a população não pode. Que exemplo de democracia, qualificação, dedicação e resultados dá tal classe política?

O nepotismo está conotado com países que são pobres precisamente por não terem os melhores a governar, mas familiares de governantes a terem todos os cargos e privilégios sem saber gerir nada. Pode-se argumentar que num país rico como a América atual há também nepotismo com Trump a orientar a filha e o genro lá na Casa Branca. Isso é condenável, como outras coisas em Trump, mas Trump e a família já eram ricos antes da política. Nem a filha nem o genro auferem salários do estado. Por contraste, devido à política, na corte de Costa ascenderam socialmente, vivendo bem acima da média salarial portuguesa. Vários amigos de Costa nos negócios custam-nos milhares de milhões. Tudo o que seja parente e sobrinha de Carlos César está no governo nacional ou regional e empresas do estado independentemente do mérito ou qualificações (curiosamente na História já Cicero nos tinha alertado que depois do César original, Júlio, seria destruída a república e os imperadores passariam todos a ser familiares de César). Os irmãos Mendes têm a chefia do parlamento e a responsabilidade máxima pelos nossos impostos, sem qualquer qualificação ou experiencia profissional fenomenal em, por exemplo, políticas fiscais para atrair investimento internacional que gere riqueza. Uma orgia de monarquia e nepotismo maior e mais dispendiosa per capita que a de Trump apesar do país ser mais pobre. Os Portugueses ganham metade do que os Americanos ganham e são taxados o dobro. Enquanto os perdões fiscais vão para a Energia, os portugueses de classe média sofrem perseguições fiscais ou cartas atrasadas para as multas serem inevitáveis. Tudo contado, no final do mês um Americano médio pode ficar com um salário líquido até quatro vezes maior que o de um Português. Boa governação cá e defeitos só lá fora?

Houve um retrocesso civilizacional em Portugal. O PS de D. António Costa Bolsonaro dos Santos Trump, de novo rei de Portugal e dos Algarves, tornou-se numa espécie de monarquia de sangue não azul, mas onde o sangue de meia dúzia de famílias com garante sempre um bom cargo no estado, no governo, no parlamento, numa autarquia ou numa empresa pública sem qualquer eleição ou avaliação imparcial de resultados. Vieira da Silva pôs a filha a ministra e a mulher a deputada. Ana Paula Vitorino pôs o marido a ministro. Os deputados e governantes ex jotas partidários já de meia idade põem as mulheres na TAP, na câmara de Lisboa ou no governo. Tanto lhes dá desde que o contribuinte pague tudo e muito. Não são capazes de fundar empresas ou esforçarem-se a trabalhar no privado que não viva do estado. Costa tem uma visão tão limitada para a família (quanto mais para a nação!) que nunca se lembrou de ensinar ao filho “vai qualificar-te, trabalhar no privado ou lá para fora para aprenderes como os outros países ficam ricos.” O plano foi sempre viverem do estado. Isto é ainda pior que a monarquia antiga porque essa preocupava-se em educar os príncipes para governarem. Nem a Rainha de Inglaterra tem o descaramento de orientar a família tanto no estado, sem exigir qualificações e profissões, como no atual PS fazem. Não há portugueses mais qualificados que esta meia dúzia de famílias governantes por direito monárquico?

Urgem reformas em Portugal que nos propelem finalmente para o topo europeu. É necessária uma lei séria e muito mais abrangente que a que existe, contra o nepotismo. A cunha e o favoritismo em Portugal é um problema bem mais grave e com mais danosas consequências para a vida dos cidadãos que noutros países. O país é mais pobre que a França (que legislou forte em 2017 contra o nepotismo) logo a população paga muito mais os efeitos de ser governada por uma monarquia degenerada. As contratações para os cargos de maior responsabilidade têm de ser não por nomeação monárquica de amigos ou familiares de políticos, mas por avaliação criteriosa de currículos, capacidades, méritos e resultados passados. Façam-se contratações da mesma maneira que a Fundação para a Ciência e Tecnologia já faz para atribuir bolsas de investigação, desde o saudoso e grande socialista democrático inteligente Mariano Gago. O grande Gago não escolhia a família e amigos como o pequenino Costa, exigia os melhores e para isso instituía um júri de mérito, internacional e imparcial. A riqueza da democracia faz os países ricos. Se não fizermos reformas assim como eliminaremos os vícios políticos que perpetuam a nossa pobreza?

Para transparência total, o autor destas linhas é há quase 2 décadas um profissional qualificado da indústria farmacêutica internacional que nunca viveu da política. No entanto, é militante do PS desde 1988 por admirar os fundadores heróis laicos e republicanos. Antes do exilio no estrangeiro foi eleito coordenador da secção do PS de Sesimbra e membro de comissão nacional do PS. Com um grupo íntegro e honesto já ganhamos a distrital de Setúbal no passado. Já no exilio, conseguimos montar uma oposição interna em Setúbal a Costa e seus fidalgos locais, os barões Mendes (os cavaleiros da ordem de Santiago, que tem a sua espada inscrita nos símbolos dos concelhos do distrito de Setúbal, devem estar às voltas na campa, por verem tão fraca fidalguia). Agora, mesmo que este autor ou outro/a que não fossem da linha de Costa ganhassem a presidência da distrital de Setúbal e fossem eleitos pelos militantes para integrarem a lista de deputados do PS por Setúbal, como não há democracia no PS monárquico, Costa nunca permitiria a eleição para o parlamento de alguém contra o nepotismo e que exigisse reformas, mérito e resultados. Isto como Costa riscou a lápis azul outros no distrito de Braga e pelo país. Como risca a Ana Gomes de candidata à presidência. Com gente de bem riscada, como não há de a política repugnar a população?

Na corte de Costa além de não serem republicanos também não são laicos. São fundamentalistas religiosos. Como o filosofo-ministro Luc Ferry explicou “as religiões providenciam ilusões exigindo que abandonemos a razão e paguemos o preço de não podermos pensar livremente.” Na direção atual do PS, incluindo os nascidos nos anos 1970s e mais novos, exigem obediência total à ilusão do divino poder deles invocando até fazerem “milagres” nas finanças e na saúde. A Europa não acredita em tais milagreiros fundamentalistas, fechando-nos as portas dos aeroportos na cara devido ao Covid-19 e exige-nos impostos em troca de ajuda humanitária. Há pobres almas que se não rastejarem perante a corte monárquica e religiosa do PS atual e não abdicarem dos princípios que estiveram na base da fundação PS, perdem empregos. Ora sabemos que no país mal gerido por Costa e seus há décadas, há poucos bons empregos, raros como água no deserto. Por isso que alternativas tem alguns se não serem lacaios cobardes da corte falando só grosso contra quem não tiver poder?

Poder-se-ia argumentar que, no passado, familiares de Soares no PS também tiveram destaque. No entanto, a família Soares já tinha a sua empresa educacional credível e fonte de riqueza fora da política. Era e é dum magnifico calibre intelectual mais próximo da nobreza de alma dos irmãos Kennedy do que da pequenez da obsessão doentia pela cunha e fidalguia de Costa. O Autoconfiante Soares adorava e promovia o debate de ideias diferentes dentro e fora do partido, combateu o comunismo e fez-nos entrar na Europa, galvanizando a nossa qualidade de vida. O inseguro Costa tem pavor da diferença de opinião, aproxima-nos do comunismo e afasta-nos dos padrões éticos e financeiros da Europa. Costa promoveu a expulsão de centenas de militantes do PS. Militantes há décadas no PS não puderam ser candidatos a presidentes das suas câmaras, mesmo tendo sido eleitos pelas concelhias locais do partido. O delito de opinião deles foi terem apoiado Seguro e serem condenados a ter de concorrer nas autarquias fora do PS. Valerá ainda a pena ser militante do PS e acreditar que, depois da tragédia de D. Costa e seus príncipes herdeiros jotas partidários, é possível recuperar no partido socialista a ética laica e republicana e respectiva liberdade de discussão que construa reformas e uma visão estratégica da nação no topo da Europa?

Com Costa igual a Dos Santos ou Bolsonaro, minguou assim para poucochinho o outrora grande PS de Soares, Sottomayor Cardia ou Tito de Morais. O partido já foi republicano e laico, moderado ao centro esquerda e pro-europeísta, combatendo corajosamente quer os ditadores de esquerda quer os de direita. Agora afastou-se dos antigos altos padrões europeus, republicanos e laicos. Tornou-se numa caricatura dos regimes que antes combatia, misto do pior da monarquia com o pior da extrema esquerda e da extrema direita. Afastou do poder os militantes mais pensantes e questionadores, expulsou os mais mobilizadores da população, tirou por completo o poder às bases, reduzindo a militância à insignificância. Costa promoveu à liderança atual uma reduzida e consanguínea monarquia de governantes ex jotas já de meia idade mais ainda sem profissão a não ser viverem da política. Esta fidalguia tem tiques, censura e resultados econômicos parecidos com repúblicas tropicais das bananas quer de esquerda chavista quer de direita pinochetiana. Pode já não haver salvação para tamanha corrupção. Estes nobres sem nobreza só se mantem no poder por aquilo que Noam Chomsky explicou sobre controlo dos media: “se a população não souber que há melhores alternativas não pode votar nelas e pensa que está sozinha no seu desespero e abstenção”. Por quanto mais tempo estes monárquicos do PS não terão oposição externa e calarão na TV e jornais impressos tradicionais lisboetas a oposição interna republicana e reformista?

Pedro Caetano é MPH (Harvard), PgDip (Oxford), PC (London), MS (Michigan), PharmD (Ohio State), MBA (ESSEC), MBA (Mannheim), PhD (Michigan), AA (Cincinnati), Lic. (Lisboa); Ex-Professor de Farmacologia e Epidemiologia na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa. Atual Director Global na Industria Farmacêutica baseado no condado de Oxford, Reino Unido.

(Artigo alterado às 11h24 a pedido do autor)