A eleição de Donald Tusk para Presidente do Conselho Europeu foi uma boa notícia. Como comentou João Carlos Espada, essa eleição constitui a melhor esperança para desencadear um processo de ajustamento interno da UE. No entanto, embora saúde a nomeação, temo que continue a haver boas razões para cepticismo relativamente ao rumo da UE. Assim como também para lamentar o alheamento nacional relativamente aos graves problemas e riscos do processo de integração europeia tal como ele tem sido imposto centralizadamente via Bruxelas. Um bom exemplo disso é que poucos dias antes da eleição de Tusk, um desenvolvimento muito relevante na política interna do Reino Unido (mas com claras causas e consequências a nível europeu) passou quase despercebido entre nós.

No dia 28 de Agosto, Douglas Carswell, um dos mais respeitados deputados do Partido Conservador, anunciou publicamente a sua saída dos Conservadores e a sua adesão ao United Kingdom Independence Party (UKIP), o qual, recorde-se, venceu as últimas eleições europeias no Reino Unido. Num discurso marcante, Carswell anunciou também a sua intenção de se submeter a uma eleição intercalar antecipada no seu círculo, de forma a que os eleitores que o elegeram tenham oportunidade de se pronunciar democraticamente sobre a sua decisão.

Sem surpresa, o primeiro-ministro David Cameron reagiu lamentando a decisão e alertando o eleitorado conservador no sentido de que votar UKIP facilitará uma vitória do Partido Trabalhista. Do ponto de vista da matemática eleitoral num sistema de círculos uninominais, Cameron tem muito provavelmente razão, mas é cada vez mais duvidoso que o seu apelo venha a revelar-se eficaz.

No próximo dia 9 de Outubro, curiosamente também o dia de aniversário do primeiro-ministro, os eleitores de Clacton terão oportunidade de avaliar Carswell e responder a Cameron. Para já, as sondagens apontam para a reeleição de Douglas Carswell, agora integrado no UKIP, por uma margem esmagadora. Um indicador da robustez da posição de Carswell é a aparente recusa de Boris Johnson relativamente aos apelos dos estrategistas do partido para que se apresentasse a votos contra o UKIP em Clacton.

Mas mais relevante ainda do que a reacção dos eleitores de Clacton, é a forma como os conservadores em geral reagiram ao anúncio de Carswell. Contrariamente ao que é comum nestes casos, o tom geral não foi o de acusar um “traidor” mas antes o de mostrar compreensão – e em alguns casos até simpatia – pela decisão de abandonar o Partido Conservador. Isto acontece porque há um sentimento cada vez mais generalizado de que, sob a liderança de Cameron, o Partido Conservador tem ignorado crescentemente as preocupações e preferências da sua base de apoio. Tudo em nome de um rebranding que aproxima em muitas áreas o partido das posições de centro-esquerda. Acima de tudo, Cameron tem procurado estar alinhado com os principais dogmas do politicamente correcto, e o crescimento do UKIP passa em boa parte por aproveitar esse movimento.

Neste contexto, a mudança de campo por parte de Douglas Carswell assume particular simbolismo. Carswell era consensualmente considerado um dos deputados Conservadores mais liberais – no sentido clássico – e a sua saída pode ser vista como representando o esgotamento da paciência por parte dos proponentes de uma corrente de pensamento que desde (pelo menos) os anos 1970 constitui a mais importante e consistente referência teórica do Partido Conservador. Os comentários de Daniel Hannan são a este propósito bem elucidativos.

A insatisfação com a liderança do Partido Conservador assume expressão máxima no tema da integração europeia. Internamente, Cameron é visto cada vez mais como alguém cuja prioridade nesse plano é manter o Reino Unido na UE a qualquer custo e, o que é pior, sem capacidade para contrariar o estatismo dos eurocratas que controlam Bruxelas. Também aqui o UKIP – com todas as suas inconsistências e ambiguidades – tem o mérito de dar voz às preocupações de muitos milhões de cidadãos britânicos.

Neste contexto, a insustentabilidade democrática do actual rumo da política europeia de Cameron parece cada vez mais evidente. Resta saber se o primeiro-ministro britânico ainda irá a tempo de inverter caminho para evitar o pior.

Professor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa