Com o anúncio da candidatura de Sampaio da Nóvoa a Belém, as presidenciais entraram na agenda política – mesmo que Marcelo Rebelo de Sousa queira adiar o calendário. Aliás há um paradoxo interessante entre o anúncio de Nóvoa e o calculismo de Rebelo de Sousa. O primeiro proclama-se independente, mas quer o apoio do PS. O segundo é do PSD, mas não quer fazer campanha com o seu partido.

Nenhum dos dois tem as qualidades para ser o Presidente que Portugal precisa nos próximos cinco anos. O país necessita acima de tudo de um político disciplinado e que saiba resistir aqueles apelos e sentimentos populares que acabam por ser prejudiciais aos portugueses. Há momentos na história em que um país necessita de um anti-populista, que tenha a frieza e a disciplina para tomar as decisões certas, mesmo que não sejam populares. Sobretudo um Presidente da República deve manter uma racionalidade que não perca de vista os grandes objectivos do país. O pior para Portugal, neste momento, seria um Presidente que se perdesse nos populismos tácticos e não aguentasse a pressão de não ser popular.

A política, sobretudo nos tempos de crise, é uma actividade ingrata e muito exigente. Não é um concurso de popularidade, como infelizmente muitos políticos nacionais julgam. Mais do que um bom Presidente, Cavaco Silva foi o Presidente que o país precisou nos últimos quatro anos. Espero que um dia a história seja justa para o seu contributo – absolutamente decisivo – para o país ter saído da crise para a qual foi arrastado pelo “populismo” de Sócrates.

Pelo que se viu na apresentação da sua candidatura e por outras declarações públicas, Sampaio da Nóvoa não tem as qualidades exigidas a um político para tempos difíceis. Nunca apresenta ideias políticas concretas, refere-se apenas a sonhos e a ilusões. O seu discurso é o exemplo perfeito do populismo político. Não faz a mínima ideia do contexto europeu e internacional em que Portugal está inserido, e dos quais o seu bem estar económico e social dependem absolutamente. Não tem qualquer experiência política. Sampaio da Nóvoa em Belém seria o caminho para a instabilidade permanente. Seria uma espécie de Syriza na Presidência da República. E António Costa sabe-o muito bem. Aliás, a sua estratégia parece clara. Deixar que Sampaio da Nóvoa se derrote a si próprio. Eis o drama presidencial de Costa: com a desistência de Guterres, não tem candidato.

Sem Guterres, Durão Barroso é o político mais bem preparado para ser Presidente da República. Tirando Mário Soares e Cavaco Silva, ninguém em Portugal tem a sua experiência política. Tem além disso as qualidades necessárias para o cargo em tempos de crise: disciplinado, determinado e racional. É o que o país precisa num Presidente da República. E depois de dez anos em Bruxelas, em crise permanente, ninguém tem dúvidas que Barroso é um político para tempos difíceis. Nunca o dirá em público, mas até António Costa concordaria que se algum dia estiver em São Bento, seria muito melhor ter Barroso em Belém do que Nóvoa.

Mais importante, Durão Barroso goza de uma experiência internacional que mais ninguém possui em Portugal. Nos próximos cinco anos, a questão central continuará a ser a manutenção de Portugal no Euro. Convinha que a nossa classe política não fosse vulnerável a duas ilusões. Em primeiro lugar, a crise não acabou, em grande medida por causa do governo grego. Nos próximos meses, é possível que o problema da Grécia traga a instabilidade de regresso aos mercados financeiros. Em segundo lugar, a Alemanha não vai pagar para algum país ficar no Euro sem fazer reformas. Não vale a pena acreditar nisso. Ora, neste contexto Barroso tem acesso imediato a todos os líderes europeus, como ninguém tem em Portugal. Quem já esteve no governo sabe que isso representa um capital político raro.

Num momento em que o bem estar dos portugueses exige novos mercados para as exportações portuguesas, e de investimento externo, mais uma vez os contactos de Barroso nos Estados Unidos, na China, no Brasil, em África seriam preciosos. Para um país como Portugal, a experiência internacional de Barroso constitui um capital político único. E se quiserem ser honestos, aqueles que usaram este argumento no caso de Guterres, também o devem reconhecer no caso de Barroso.

Resta no entanto saber um ponto essencial. Se Durão Barroso estará disposto a convencer os portugueses de que é o político português com melhores condições para ser Presidente nos próximos cinco anos. Seria uma luta política difícil. Mas em democracia, são essas as lutas que têm valor e que marcam a história de um país.