Em entrevista à TSF, António Costa garantiu que, tratando-se de ano eleitoral, “toda a gente vai querer dramatizar qualquer incêndio que exista”. O PM tem razão. Em Portugal, as pessoas tendem a dramatizar dramas. Têm pouca imaginação, os portugueses. Face a um drama, como um incêndio, a tendência é reagir da primeira forma que lhes vem à cabeça, a redundante dramatização. Há pouca reflexão sobre acontecimentos dramáticos enquanto se desenrolam. E não há um esforço criativo para procurar outra resposta. Os portugueses podiam relativizar o drama, desvalorizar o drama, ignorar o drama, escarnecer do drama. Mas não, quando vêem a sua casa a arder e correm risco de serem transformados em torresmos, os nossos compatriotas não são capazes de um rasgo de fantasia, de pensar fora da box, e acabam, inevitável e aborrecidamente, por dramatizar. O fogo já é tão repetitivo (não faz outra coisa que não queimar), que era mais animado se as reacções variassem.

Por sorte, a António Costa não falta inventividade em frente às labaredas. Podemos sempre contar com o PM para reagir aos incêndios de forma original. Seja descansando em merecidas férias, organizando um focus group para perceber se as pessoas levam a mal o facto de ele não dramatizar incêndios, ou exasperando-se quando jornalistas lhe perguntam se não seria altura de dramatizar um bocadinho os incêndios, Costa surpreende sempre na forma como encara a tragédia.

(Em nossa defesa, há que dizer que não somos os únicos. Já os antigos gregos dramatizavam o fogo. Fartaram-se de dramatizar sobre Prometeu, que roubou o fogo aos deuses para o dar aos homens e foi castigado por Zeus, que o acorrentou no cimo de uma montanha, para que uma águia lhe fosse debicar o fígado, todos os dias. À sua maneira, António Costa, com aquelas mudanças desastradas nas chefias da Protecção-Civil, também contribuiu para dar o fogo aos homens. Só não foi castigado com a perda diária da isca. Quer dizer, se calhar até foi, mas como deve implicar uma intervenção agendada no SNS, ainda vai demorar alguns anos).

Há quem tenha estranhado o facto de Costa começar já a falar de incêndios em Portugal. Mas Costa sabe que tem de marcar a agenda mediática. Com esta chamada de atenção, determinou que, caso haja uma tragédia, qualquer conversa da oposição será aproveitamento político. O que Costa fez foi o equivalente partidário a limpar a mata à sua volta, para que a oposição não tenha combustível para o queimar. António Costa esvaziou um putativo aproveitamento político de mortos, fazendo já o aproveitamento político do facto de os hipotéticos futuros mortos ainda estarem vivos. Costa conseguiu passar a ideia que a sanha eleitoralista é tanta, que quem está contra o Governo arranjará sempre algo para embirrar, sejam lareiras, bolos de aniversário com muitas velas ou crepes flambée.

Agora que o tema está lançado, vai começar a ser repetido pelo PS em peso. Há tempo mais que suficiente para condicionar os portugueses. Quando houver incêndios, vamos ver as imagens habituais de alguém coberto de fuligem, a correr desvairado de um lado para o outro. A diferença é que, este ano, vai haver outra pessoa a correr atrás da primeira e a dizer “lá estás tu a dramatizar, Manel! Tens de ser mais homenzinho. Larga lá o balde, pá!”

Esta estratégia de Costa aplica-se a qualquer tema. Basta começar com o enunciado “toda a gente vai querer dramatizar” e completar com a falha do Governo que se queira desvalorizar. “Toda a gente vai querer dramatizar assaltos patéticos a arsenais militares”, “toda a gente vai querer dramatizar atrasos de construção de alas pediátricas oncológicas”, “toda a gente vai querer dramatizar o esvaziamento de dramatizações que eu causei com a minha fórmula «toda a gente vai querer dramatizar»”.

António Costa está muito forte a apontar eleitoralismo na oposição. Toda a crítica feita ao Governo só existe porque é ano de eleições e não há nada de substancial a apontar à acção governativa, que está espectacular. Tivesse Portugal um sistema de detenção de incêndios tão bom quanto o sistema de António Costa de detenção de eleitoralismos e não estávamos a ter esta conversa.

A defesa do PS no caso das relações familiares no Governo é um exemplo. O problema não é do Governo, é da oposição que só fala disto porque não tem mais nada para dizer. Socialistas de vários níveis passaram os últimos dias a repeti-lo. Uma defesa que, diga-se, acaba por ser contraproducente: o PM, os ministros, os deputados, os secretários de Estado, argumentam de forma tão semelhante, soam tão iguais, que até parecem todos parentes. A verdade é que é cada vez mais difícil apontar um membro do Governo que não tenha uma relação familiar com um colega. É como jogar ao mikado: é precisa muita habilidade para conseguir pegar num que não tenha ponto de contacto com outro. Trata-se de um Governo, mas também de um jogo. Aliás, aí está uma boa sugestão: da próxima vez que estiver tudo a arder, não dramatize histericamente, relaxe e jogue antes uma partida de mikado socialista. Impossível ganhar, mas são horas de diversão.