A reputação da educação para a cidadania sofreu recentemente um abalo junto da opinião pública com as notícias que vieram das escolas da Torrinha, no Porto, e de Santo André, no Barreiro. Ao que parece, embora custe a acreditar, os temas da sexualidade e da igualdade de género têm estado a cargo de activistas de associações de lésbicas, gays, bissexuais, trans e intersexo. Este facto, que por si só seria suficiente para se transformar num problema político de primeira grandeza, recomenda que se volte a questionar a educação para a cidadania e os seus limites.

A educação para a cidadania pode ser muito boa ou muito má. Será muito boa se respeitar escrupulosamente a justa separação entre as esferas privada e pública, entre o que é das famílias e o que é da política. Será muito má se for interpretada pelo Estado como um instrumento político para a inauguração de um novo mundo com as novas gerações. No primeiro caso, a educação pode ser muito útil para as crianças e para o regime democrático. No segundo caso, seria melhor nem sequer existir.

A boa educação para a cidadania deve introduzir as crianças do ensino básico na prática da liberdade, incentivando-as a pensar, escolher e agir diariamente com autonomia, incutindo nelas hábitos de responsabilidade que as ajude a levar por diante as tarefas que têm em mãos, seja aquelas que só a elas diz respeito, seja as que são do interesse público. No mesmo passo, as crianças devem saber que a liberdade pertence de forma igual a todas as pessoas, independentemente da cor da pele, origem familiar, condição económica ou projecto de vida, aprendendo a ser tolerantes com as outras crianças, deixando que estas façam as coisas à sua maneira, mesmo se ou precisamente porque a maneira escolhida parece não ser a mais correcta.

Com efeito, se for convenientemente aplicada aos diferentes domínios que a sociedade e o Estado consideram prioritários, como o ambiente, família, justiça, saúde, segurança, sexualidade, trabalho e outros, a educação para a liberdade, igualdade, responsabilidade e tolerância é bastante robusta do ponto de vista do regime democrático que se pretende promover, suficientemente aberta a diferentes projectos de vida que as crianças queiram abraçar, e gera bons efeitos na vida de cada uma delas e de todos nós. E tudo isto pode ser facilmente atingido sem perturbar as exigências da vida privada, que apenas às crianças e suas famílias diz respeito, e as exigências da vida pública que a todos interessa.

Este artigo é exclusivo para os nossos assinantes: assine agora e beneficie de leitura ilimitada e outras vantagens. Caso já seja assinante inicie aqui a sua sessão. Se pensa que esta mensagem está em erro, contacte o nosso apoio a cliente.