Españolito que vienes
al mundo te guarde Dios.
Una de las dos Españas
ha de helarte el corazón.
António Machado

As eleições de 10 de Novembro em Espanha confirmaram uma tendência hoje constante em toda a Europa ocidental: fragmentação dos partidos e volatilidade do eleitorado.

O centro dominante – a direita e a esquerda sistémicas que têm governado em rotativismo, na Alemanha, em França e em Espanha, sempre com mais de 60% ou 70% dos votos – desapareceu.

Em Espanha, depois destas eleições, há 16 partidos no Congresso dos Deputados. À fragmentação junta-se a volatilidade do eleitorado. Em menos de seis meses o CIUDADANOS (centro liberal) passou de 57 deputados para 10, e de 4.200.000 votos para 1.600.000; no mesmo espaço de tempo, o VOX (direita nacional) subiu de 24 para 52 deputados e ganhou um milhão de votos, de 2.700.000 para 3.700.000. Quanto ao grupo PSOE (socialista) passou de 123 lugares para 120 e perdeu 700.000 votos; e o PP (centro-direita/conservadores) subiu de 66 para 89, ganhando mais de 600.000 sufrágios. O UNIDAS PODEMOS (extrema-esquerda) desceu de 42 para 35 lugares, e perdeu 600 mil votos populares, embora parte desses votos tenham ido para a dissidência MAS PAIS, que elegeu 3 deputados.

Estes novos problemas e desafios têm várias raízes e causas: as consequências económico-sociais da globalização e do fundamentalismo eurocrático; a negação da importância dos factores identitários, religiosos e nacionais; o laxismo migratório; e a imposição de uma agenda de esquerda radical ou de ultra-esquerda negacionista, que pretende branquear a própria história.

As razões destas mudanças são várias mas têm muito que ver com o aparecimento de novos problemas e desafios, problemas que o imobilismo mental, a repressão das palavras e dos pensamentos e os interesses das direitas e esquerdas sistémicas têm feito por ignorar, com a cumplicidade de uma comunidade académico-jornalística ideologicamente fixista, que ou os ignora ou os atribui a conspirações da “ultra-direita”.

Estes novos problemas e desafios têm várias raízes e causas: as consequências económico-sociais da globalização e do fundamentalismo eurocrático; a negação da importância dos factores identitários, religiosos e nacionais; o laxismo migratório; e a imposição de uma agenda de esquerda radical ou de ultra-esquerda negacionista, que pretende branquear a própria história (radicando-a em imaculadas utopias cuja “generosidade” isenta de culpas e aliena dos crimes e dos regimes que as têm materializado), enquanto cobra ao “ocidente euro-americano” a expiação transgeracional de ofensas e de condutas impróprias.

Memória, ressentimento, revanche

É esta agenda que a esquerda, ou esta esquerda, está a tentar cumprir em Espanha sem encontrar resposta. E fá-lo relançando uma ofensiva pelo aborto livre, pela eutanásia e pelas “causas fracturantes” do costume e tentando impor-se como uma espécie de nova inquisição, detentora do exclusivo da moral, da ética e da virtude, que policia os comportamentos e a linguagem não hesitando em mentir, caluniar e assassinar moralmente os seus adversários.

A transição do autoritarismo franquista foi iniciada e executada por parte da classe política do próprio franquismo, numa estratégia de reconciliação nacional que funcionou e se consagrou na Constituição de 1978. Mas a partir da Lei da Memória Histórica de Rodríguez Zapatero, a esquerda começou a querer reescrever um passado que entrara já nesse difícil mas apaziguador esquecimento cruzado de que também se fazem as nações. Cruzado porque na guerra civil de Espanha de ambos os lados houve carrascos e houve vítimas e de ambos os lados se cometeram atrocidades.

A obra de Zapatero e de Sánchez consistiu, essencialmente, em desenterrar mortos, desde as vítimas do franquismo ao próprio Caudilho.

Na última década do franquismo, com o regresso da maioria dos exilados e com o progresso económico-social do Estado das Obras, pusera-se fim às “duas Espanhas” e fora possível uma reconciliação nacional. Essa reconciliação foi negociada e mantida por dirigentes socialistas como Felipe González e Alfonso Guerra, que nunca se lembrariam de desenterrar Franco ou aliar-se ao PODEMOS.

A obra de Zapatero e de Sánchez consistiu, essencialmente, em desenterrar mortos, desde as vítimas do franquismo ao próprio Caudilho. Pedro Sánchez, que foi um dos perdedores do 10 de Novembro, achou que esta habilidade trasladatória lhe valeria uns quantos votos no campo da ultra-esquerda mas acabou por trazer mais algumas centenas de milhares de votos ao VOX.

A estratégia de Sánchez era aumentar a presença no Parlamento para poder governar mais à vontade, mas acabou por perder 3 lugares e a maioria absoluta no Senado. E, pelo método proporcional, não teria perdido 3 mas 27 deputados, ficando com 93.

O PODEMOS também desceu em relação aos resultados de Abril e ficou com 35 deputados; a cisão de Errejón – que se ficou pelos 3 deputados – abalou-o também.

E o grande perdedor foi o que pretendeu definir-se e identificar-se ideologicamente como centro liberal. O CIUDADANOS, que tivera grande sucesso ao aparecer como uma força anti-independentista na Catalunha e que aproveitara a baixa do PP causada pela corrupção e pela condução da crise do “referendo” de 2017, acabou por ser vítima das suas próprias contradições e volatilidade ideológica. Que é o mal dos “centros”, sempre que, apavorados com os “extremos”, perdem a noção do lugar onde estão e até de onde vieram.

De qualquer forma, a Espanha volta a um tempo de recordações fratricidas, às clivagens das famosas “duas Espanhas” que a classe média nascida do franquismo tinha reconciliado. Porque é precisamente esse cenário pré-guerra civil que esta esquerda ressuscita em Espanha, numa altura em que a questão dos movimentos nacionalitários da Catalunha e do País Vasco está ao rubro.

Nacionalistas ou nacionalitários?

Estes movimentos – e os outros agrupamentos regionais – somam à volta de 40 lugares num parlamento de 350. No seu conjunto, os “independentistas” catalães e vascos têm 37 lugares. As coligações possíveis à esquerda – PSOE, UNIDAS PODEMOS, MÁS PAÍS – somam 158 lugares; à direita – PP, VOX, CIUDADANOS – 151. São precisos 176 deputados, logo, não é possível fazer um governo estável sem recorrer aos independentistas. O que é impensável à “direita” e difícil para o PSOE, embora Pedro Sánchez nunca se tenha pronunciado categoricamente contra um arranjo com os separatistas.

Uma coligação dos dois grandes partidos – PSOE-PP – seria funcional mas muito perigosa para as lideranças; e reforçaria os partidos mais ortodoxos de cada bloco – UNIDAS PODEMOS e VOX. E na noite das eleições, no calor dos resultados, os líderes recusaram a solução.

Os independentistas catalães, desde o tempo de Pujol, prepararam as condições culturais de uma secessão através da hegemonia linguística do catalão e de uma educação histórica que recriou um “passado útil” para a Catalunha.

A Espanha tem um problema sério: a “questão nacional”; um problema que vai comandar a agenda política por muito tempo. Os independentistas catalães, desde o tempo de Pujol, prepararam as condições culturais de uma secessão através da hegemonia linguística do catalão e de uma educação histórica que recriou um “passado útil” para a Catalunha.

Por tudo isto – e pela dificuldade da classe política tradicional e sistémica em lidar com estes problemas – o VOX nasceu e cresceu. Os seus dirigentes vêm em grande parte do PP do País Vasco e da Catalunha, onde experimentaram na pele o terror da ETA e a agressividade do separatismo catalão. E sentiram a incapacidade do seu Partido de defendê-los. Mais: experimentaram a cedência e a resignação das direitas cultural e ideologicamente invertebradas ou ignorantes, prontas a deixar às esquerdas a supremacia e o monopólio das ideias, a troco da aceitação do liberalismo económico-social e do abandono dos “trabalhadores”.

Agora, com o VOX, a direita a que chamam “ultra” passou a afirmar-se de um modo destemido e claro, sem medo de palavras ou etiquetas, sem se importar de que lhe chamem franquista ou ultradireitista. Teve uma grande vitória, e nada daqui por diante será igual.

Frente popular sem povo

Que fazer com estes resultados? Pedro Sánchez, na senda de Rodríguez Zapatero, está, por decisão deliberada ou por demagogia necessária, a ressuscitar a confrontação das “duas Espanhas”. É uma decisão de alto risco. Os assustados que agitam a bandeira do perigo da “extrema-direita” não falam nas causas profundas nem na crescente rebelião “das massas” contra a nova vanguarda iluminada, a ultra-esquerda das minorias e das “causas fracturantes” que tenta por todos os meios assumir o comando ideológico, deixando a globalização fazer o resto.

Assim, Sánchez, depois da sua proeza de “justiceiro” póstumo do Vale dos Caídos, depois de reabrir feridas fechadas há muito e uma vez fracassada a sua megalómana tentativa de uma maioria quase absoluta, vai fazer um pacto com a extrema-esquerda do PODEMOS e contar com a boa vontade da ERC, um partido de esquerda radical e separatista. Mas lá, como cá, ninguém parece afligir-se com pactos com uma extrema-esquerda herdeira dos trotskistas radicais que, ainda que liquidados por Estaline, não deixaram de ser tão maus ou piores que os estalinistas. Sánchez, aparentemente, não pestaneja e avança destemido para o pacto, contra alguns dirigentes socialistas tradicionais e actuais – como Felipe González ou Alfonso Guerra, que já o criticaram dura e sarcasticamente, ou como os presidentes socialistas das comunidades autónomas de Aragão e Castilla-la-Mancha, Javier Lambán e Emiliano Garcia-Page, que já manifestaram a sua hostilidade a uma solução governamental que fique refém dos separatistas da ERC.

Consciente do buraco em que se meteu, para quem é que o restaurador da “Frente Popular” vai atirar as culpas? Para a “ultra-direita”, claro está, porque foi a “ultra-direita” que “contaminou boa parte das forças conservadoras com os seus postulados extremistas”

O acordo com UNIDAS PODEMOS e com Iglésias, um acordo que o próprio Sánchez, há dois meses, dizia publicamente que “tiraria o sono a 95% dos espanhóis”, vai ser referendado no dia 23 de Novembro entre os militantes do PSOE.

E consciente do buraco em que se meteu, para quem é que o restaurador da “Frente Popular” vai atirar as culpas? Para a “ultra-direita”, claro está, porque foi a “ultra-direita” que “contaminou boa parte das forças conservadoras com os seus postulados extremistas e os seus métodos de falsidade, insulto e intimidação”, conforme reza o texto da “Carta aos militantes”.

Assim, a coligação de Sánchez, ou a “geringonça à espanhola”, representa “a esperança progressista para milhões de pessoas que contemplam com preocupação o auge de uma ultra-direita fortalecida por direitas que se acobardam perante as suas mensagens de ódio e que se abraçaram a ela em governos autonómicos e municipais cada vez mais retrógrados.”

Esta “esperança progressista” traz todas as componentes de radicalização, já que junta ao PSOE a “ultra-esquerda” das causas fracturantes – o PODEMOS – e fica, ao mesmo tempo, refém da esquerda do separatismo catalão, que, ainda por cima, e como o próprio nome indica (Esquerda Republicana da Catalunha), é declaradamente anti-monárquica. Uma dupla divisão, que não trará ao Reino de Espanha a estabilidade e a unidade de que necessita.

Mas a culpa é do VOX.

Memória Histórica

A crise espanhola tem merecido a atenção de inúmeros observadores internacionais, alarmados com a evolução do cenário político. Stanley G. Payne, um dos mais importantes hispanistas vivos, é muito directo e claro no seu diagnóstico.

Numa entrevista a Jesus Palácios, publicada no diário La Razón, ainda em vésperas da eleição de Novembro, Payne atribui a crise e a ingovernabilidade de Espanha aos líderes do PSOE e do PP e à sua falta de imaginação, de responsabilidade e de patriotismo.

E perante o vazio de orientações e soluções dos dois maiores partidos de Espanha chega ao ponto de afirmar que “o VOX, em teoria, poderia resolver a crise”, por não estar “contaminado” e porque “as suas propostas vão à raiz dos problemas sociais e nacionais, que não são de direita nem de esquerda”. Acrescenta, entretanto, que, para isso, o partido de Abascal necessitaria de “ter um grande apoio social”, apoio esse que “por agora ainda não existe”.

Pessimista, Payne vai prevenindo que a situação é extremamente grave, que o actual “sistema político” poderá “colapsar” e que isso irá levar “à desagregação da nação”.

Stanley G. Payne, um dos mais importantes hispanistas vivos, considera que a Lei da Memória Histórica é um ponto-chave na construção do vitimismo espanhol

Indo às origens mais fundas e substanciais da crise, Payne centra-se no “discurso do victimismo”, o novo totalitarismo que divide a sociedade em duas classes – opressores e vítimas. Para ele, a Lei da Memória Histórica é um ponto-chave na construção do vitimismo espanhol, uma das pedras fundamentais da narrativa política revisionista da História e da apropriação da razão na História, que molda o passado à medida das conveniências das forças ditas “progressistas”. É através desta “arma sectária” para “controlar os partidos da oposição” que a esquerda procede à criminalização das forças que reagem a esta vaga interpretativa ameaçando catalogá-los de franquistas.

Quanto à exumação de Franco, Payne classifica-a como “uma profanação das Leis do Estado e da Concordata” e uma “violação dos direitos civis e políticos da família”, lembrando que a própria comissão criada em 2011 por Zapatero concluíra que a trasladação era desejável, mas que só deveria fazer-se “com o consentimento da Igreja, da Ordem Beneditina e da própria família”. Mas Sánchez, o Justiceiro, não quis saber, e acabou – diz Payne – por cometer essa “absoluta barbaridade”.

Dias depois, nas urnas, a justiça popular acabaria cair sobre o “Justiceiro”.