O “eles” refere-se ao Partido Comunista e ao Bloco de Esquerda. A repressão violenta da ditadura Chavista mostra que não mudaram, nem mudarão. Recordam-se que a transformação das esquerdas Marxistas foi um dos argumentos de António Costa para justificar a geringonça. O PM estava enganado. O “muro” totalitário das esquerdas não foi derrubado, como se vê nas ruas de Caracas.

O PCP nem se preocupa em disfarçar. Apoia o regime de Maduro como esteve sempre ao lado de todas as ditaduras totalitárias comunistas ao longo do século XX. Convém recordar que o partido comunista nunca aceitou as reformas de Gorbachev, continuando fiel à ortodoxia soviética pré-Perestoika. Após o colapso da União Soviética, manteve o apoio aos regimes cubano e norte coreano. Desde o início do século, olhou para a aventura Chavista como mais uma manifestação socialista contra o “imperialismo” norte americano. Hoje, apoia um regime que mata os seus cidadãos nas ruas de Caracas. Defende um governo que ordena o exército para disparar contra populações indefesas. Expressa a sua solidariedade com uma oligarquia corrupta que condenou o seu povo à pobreza e à fome. Caiu a mascara simpática de Jerónimo de Sousa. Um dos partidos que forma a maioria parlamentar de uma democracia pluralista europeia confessou o seu apoio a uma ditadura brutal e corrupta.

A posição do Bloco de Esquerda só aparentemente é diferente. No essencial, continua a defender o regime Chavista. Os seus militantes são apenas mais cínicos do que os comunistas. O chefe espiritual dos bloquistas, Francisco Louçã já explicou a linha oficial ao partido. Em primeiro lugar, de acordo com a sua tradição Trotskista, houve um ditador bom, Chavez, e agora há um ditador mau, Maduro. Nas cabeças dos bloquistas, há sempre um Estaline a trair o bom do Trotsky. O que é extraordinário é que Louçã é capaz de dizer isto com ar sério e em directo na televisão. Eis um cinismo e um profissionalismo político exemplares.

A redução da oposição venezuelana a uma “direita oligárquica, autoritária e corrupta” é o segundo argumento de Louçã para justificar o seu apoio ao regime Chavista, mesmo com Maduro à frente do país. Não tenho dúvidas que haverá grupos de oposição a Maduro com intenções duvidosas, mas a caricatura de Louçã, num momento em que morrem inocentes nas ruas de Caracas, é chocante. Este argumento do Bloco de Esquerda mostra um problema mais grave e que revela o pensamento do partido. Para os bloquistas, a principal fractura política é entre a esquerda e a direita, e não entre a democracia pluralista e as ditaduras. Mais, a direita é por definição anti-democrática e autoritária. Para o BE, não existe uma direita democrática. Por isso, tudo é permitido à esquerda para derrotar os inimigos de direita. Dito de outro modo, no Bloco, não há uma cultura de competição democrática entre a direita e a esquerda. A política é um confronto permanente contra um inimigo chamado direita. Aquelas mentes não se conseguem libertar da educação totalitária. A crítica aparente a Maduro tem ainda um propósito interno. Serve para se distinguirem do PCP e alimentar a ficção de modernidade contra o tradicionalismo dos comunistas.

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Neste momento, o PS, que se orgulha de ser um dos fundadores da democracia pluralista portuguesa, deve o poder ao apoio de forças totalitárias que apoiam, expressamente (o PCP) ou cinicamente (o BE), a ditadura venezuelana. Os mesmos líderes políticos que não se cansam de falar dos valores democráticos, sobretudo durante as grandes celebrações políticas, estão aliados a forças políticas que defendem a violência do regime Chavista. Quando os dirigentes do PS assistem às imagens do exército venezuelano a atacar populações civis não se lembram do Estado Novo, da PIDE, do 25 de Abril? E se se recordam, não sentem nada? Olham para tudo aquilo com a indiferença cínica da realpolitik? Não reconhecem na luta daquelas populações um combate pela liberdade e pela dignidade de se viver em democracia? O exercício do poder afastou-os assim tanto dos valores que dizem defender? E o facto de centenas de milhares de portugueses viverem na Venezuela aumenta a importância dos acontecimentos naquele país. A um partido, o PS, que se orgulha de ter lutado contra o Estado Novo, não custa ver tantos Portugueses a serem vítimas de uma ditadura, a ser-lhes negado aquilo de que nós gozamos?

Nos momentos de conflito entre populações a lutar pela democracia e um governo a usar a força para manter a ditadura percebe-se quem está disposto a apoiar os valores democráticos. Não basta fazer discursos eloquentes nas comemorações do 25 de Abril. O apoio do PCP e do BE ao regime Chavista não surpreende. Mas a indiferença do PS perante o que se passa na Venezuela é preocupante.