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Na sexta-feira, entre as 17h27 e as 17h29, passei a ser um dos poucos Portugueses que já foi beneficiado por José Sócrates sem precisar de lhe pagar um suborno. Foi quando o juiz Ivo Rosa afirmou que as entregas em numerário de Carlos Santos Silva a Sócrates indiciam “a existência dum mercadejar do cargo por parte do Primeiro-Ministro” e que esses factos “são susceptíveis de configurar um crime de corrupção passiva sem demonstração de acto concreto”. A partir desse momento, a Justiça reconheceu oficialmente José Sócrates como corrupto. Logo, foi aí que a Ericeira se converteu na única localidade do mundo ocidental em que é possível observar-se um Primeiro-Ministro com certificado de corrupção, sem ser em cativeiro. Instantaneamente, eu e todos os proprietários da Ericeira vimos duplicar o valor das nossas casas. A Ericeira já era a única Reserva Mundial de Surf na Europa, agora é também a única Reserva Mundial de Primeiros-Ministros Corruptos no planeta inteiro. Como atração turística, goza agora de um prestígio imbatível.

Note-se que foi um processo muito difícil. Se, para se tornar Reserva de Surf, houve que assegurar a qualidade e a consistência das ondas, a importância histórica e cultural do surf local, assim como a riqueza e a sensibilidade ambiental da área, para ser Reserva de PM Corruptos houve que provar, num tribunal português, que um ex-PM apanhado a ser comprado foi, de facto, comprado. Sublinho: num tribunal português. É um crivo muito mais apertado.

Toda a gente que passa pela Ericeira já tinha a sensação de que se trata de uma terra propícia para encontrar aquele tipo específico de aldrabão que recebe luvas em troca de burla encomendada. No entanto, só agora, com o reconhecimento de Ivo Rosa, existe a autenticação. Bem se dizia que é um juiz garantista: garantiu que Sócrates é, comprovadamente, um corrupto. Já sabíamos que era um vigarista, agora temos a certeza que é um vigarista DOC, com estampilha e tudo. Desde o séc. XIII que a Ericeira não vivia um momento tão importante em termos administrativos. Em 1229, recebeu o seu foral; em 2021, recebe o seu fora-da-lei.

Segundo Ivo Rosa, Carlos Santos Silva adquiriu um Primeiro-Ministro por 1.727.398,56 euros. (Gostava de ter assistido à negociação que terminou num preço tão pouco redondo. Deve ter havido regateio de grande qualidade. Além de larápios, são mesquinhos). Entretanto, acabou por não o utilizar em acto concreto. No fundo, Santos Silva tinha um PM no bolso para usar em caso de necessidade. Nunca se sabe quando é que dá jeito. Como um canivete suíço. Neste caso, um canivete com conta em banco suíço.

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Agora, a Ericeira tem de rentabilizar Sócrates para atrair visitantes. Pode começar já por criar uma campanha de marketing (proponho “Vá para fora vê-lo enquanto não vai dentro!”) e por vender pacotes turísticos que conjuguem aulas de surf com observação de corruptos no seu habitat. Misturar as praias fustigadas pela nortada com o ex-PM que também atira areia para os olhos. De manhã, a pessoa faz surf, à tarde vê José Sócrates a passear à beira-mar, a lanchar marisco e, com sorte, a receber um envelope com fotocópias. Os mais afoitos até poderão interagir com ele. Dizem os locais que Sócrates responde sempre que lhe chamam “gatuno”.

Seja como for, estão de parabéns os jagozes (nome por que são conhecidos os naturais da Ericeira). José Sócrates é uma estupenda aquisição para a vila. Só não digo que já é filho da terra para não agoirar. Sabe-se o que Sócrates fez à mãe, deixou-a toda depenadinha. Não tentemos o destino. Sócrates é um jagoz recente, mas já goza há muito tempo.

A identificação de Sócrates com a Ericeira é cada vez maior. Vão-se descobrindo pontos em comum. Por exemplo, entre Sócrates e o prato típico ericeirense, a caneja de infundice. Trata-se de cação cortado às postas, embrulhado em panos e guardado num local escuro durante duas semanas, tempo em que adquire um forte odor a urinol, a tal infundice – segundo o dicionário: “infundice. n.f. Barrela feita de urina em que se demolhava a roupa muito suja, para depois se lavar mais facilmente”. É como Sócrates lida com dinheiro: esconde-o no escuro para o lavar e isso deixa um cheiro nauseabundo.

Por essa razão, fiquei esperançoso com a hipótese de Sócrates voltar à política. Conto que se candidate à presidência. Mas à da Junta de Freguesia, não à da República. A Ericeira precisa de um líder como Sócrates. Por exemplo, para se ter uma ideia do atraso, actualmente só existem duas estradas para Mafra. E zero aeroportos. Um escândalo. Sócrates mudaria isso num instante.

Vejo por isso com grande satisfação que a Ericeira aprendeu com os erros do passado. A 5 de Outubro de 1910, foi da Praia dos Pescadores, no centro da vila, que o último Rei português e a família real embarcaram rumo ao exílio. Ao vê-los partir, a Ericeira perdeu o ensejo de ficar com um chamariz único. A presença de D. Manuel II, da sua mãe e da sua avó, teria dado um forte impulso ao desenvolvimento do turismo local. Quem não gostaria de se cruzar com D. Amélia na lota? Ou de apanhar carreirinhas com D. Maria Pia? Enfim, uma pena. Porém, desta feita, a Ericeira não enjeitou a oportunidade de guardar no seu seio um estadista caído em desgraça e que perdeu a serventia. Acarinha Sócrates e não o deixa zarpar dali. A Ericeira ganhou olho para o negócio. Ou isso, ou tem consciência ambiental e sabe que em nenhuma circunstância se deve deitar lixo para o mar.