Os partidos têm programas. Quando chegam os períodos eleitorais é obrigação dos jornalistas lê-los. Mas nada nos prepara para o que o PAN apresenta como sendo o seu “programa eleitoral para as legislativas de 2019”. Nada mesmo.

Quando o PDF me caiu na secretária do computador quase desesperei: 414 páginas. Apetece logo desistir, e se calhar é essa a intenção dos autores. Depois, passado o susto inicial, percebe-se que as 414 páginas são possíveis porque a letra usada é garrafal. Mesmo assim, quando se chega à última página, a contabilidade não engana: o PAN alinhou nada menos de 1196 propostas. Isso mesmo: 1196.

Na verdade nem as muitas páginas nem as 1196 propostas fazem do documento um verdadeiro programa eleitoral – é mais uma lista quase infindável de coisas de que os misteriosos membros do “Pessoas-Animais-Natureza” se foram lembrando e que achavam que ficavam num programa eleitoral. Há ali um pouco de tudo, desde vacuidades gerais e abstratas – do tipo “dotar de meios financeiros, técnicos e humanos necessários” os serviços públicos de saúde (medida 842) ou “reforçar o número de profissionais de saúde que prestam Cuidados de Saúde Hospitalares” (medida 849) – até micro-propostas como a de “restringir a largada massiva de balões e lanternas de papel em eventos” (medida 90).

Pode haver vantagens nesta forma de fazer política. Eu já ouvi alguém desabafar que, no meio da confusão que por aí vai, ainda vota PAN porque eles propõem “a obrigação de limpeza da propaganda política fixa até 30 dias após o acto eleitoral” (medida 98). É possível que pescando à linha muitos eleitores encontrem ideias simpáticas neste monte infindável de 1196 propostas, mas tendo tido a paciência (de santo) para olhar para todas elas devo dizer que o resultado de conjunto é aterrador.

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