1 Quando era miúdo o meu pai levou-me algumas vezes ao Mosteiro da Batalha, perto da minha terra, para me contar algumas das páginas mais admiráveis da história de Portugal, ali inscritas em pedra. Referência habitual era a violação dos túmulos joaninos pelas tropas invasoras francesas, à procura de tesouros supostamente neles escondidos.

Nunca tive notícia que alguma das grandes (ou pequenas) figuras políticas que tivemos, designadamente republicanas, e grandes democratas que tive ainda a sorte de conhecer, tenha sequer considerado a possibilidade de se exigir à França a devolução do que quer que tenha sido saqueado. Nem sei sequer se alguma coisa poderia ser inventariada ou localizada.

E as cerâmicas e objectos de arte admiráveis levados da civilização chinesa milenar para a Europa, os Estados Unidos e Japão, durante o curto período de domínio ocidental e nipónico das regiões costeiras do sul da China? Alguém tem notícia de que o Governo chinês as reivindica?

Julgo que ninguém de bom senso, avaliação informada e recta intenção, poderá ver no documento apresentado pela deputada Joacine Moreira na AR (ou pelo Livre, não percebi, sinceramente?) o mais leve vestígio de seriedade. Nem prioritário, nem fundamentado, nem praticável, nem , na verdade, prudente pelo que suscitaria hoje na sociedade. Irresponsável, portanto. Provocatoriozito.

E o que terão a ver o contexto, as circunstâncias e o valor do que das nossas ex-colónias tenha vindo para Portugal com o saque pela França, Inglaterra, Alemanha e Itália de grandes civilizações, Grécia e Egipto, particularmente, de criações que são património da Humanidade? E todavia ouve-se de vozes de quem se esperaria conhecimento, cultura e responsabilidade ou um silêncio ensurdecedor ou mesmo algo que lembra o que inunda as redes sociais.

Por isso foi… lúgubre ver o homem que eu julgava dever esperar ser Sá Fernandes colocar-se exactamente na posição igual (que ele julgará inversa), na argumentação, na cegueira, exibidas por André Ventura. Um André Ventura, na circunstância que julgou propícia, embriagado com o sucesso fácil das suas intervenções — em geral certeiras, mas casuísticas — como eu previ que poderia vir a acontecer-lhe. Gémeos desavindos, portanto.

Diga-nos lá, Doutor Sá Fernandes, o que veio para Portugal, da Guiné, por exemplo, que julgue deva ser devolvido àquele país? Os quadros de Malangatana de Moçambique? Mas esses foram comprados, estou certo. Será que eu devo devolver as duas peçazinhas de artesanato em pau preto que um tio embarcadiço me trouxe de Angola era eu miúdo? Recordações que guardo numa arrecadação e nunca compraria?

Em suma: eis o tipo de contributo que pelos vistos o Livre — e o Doutor Sá Fernandes se a Deputada Jacine Moreira o deixasse (perdoe-me a picardia irresistível) — daria prioritariamente a Portugal se viesse a ser Governo! Viu-se até agora que outro tipo de contributos poderia dar?

2 A graçola a que um André Ventura inadvertido não resistiu (que teria piada e seria merecida pela Senhora e o Livre se dita numa roda de amigos, negros e brancos, no café) foi um grande tiro no pé do Chega! Porque o Chega precisa de alargar o espectro de potenciais eleitores, de atrair potenciais apoiantes mais qualificados, como desesperadamente carece.

Terrível foi a reacção politicamente primária, tristíssima, da AR — como tem aliás, sempre acontecido relativamente à novidade do Chega — a revelar sem disfarce a qualidade da realidade parlamentar e partidária a que Portugal e os Portugueses parecem condenados. Salvou-se o IL!

Saúdo, do mal o menos, o recuo do PS… que me apetece atribuir à sensatez que me têm parecido ter as intervenções e a postura de Ana Catarina Mendes (ontem bem constrangida quando divulgou o choradinho do PS, sem um palavra para se demarcar do disparate e oportunismo flagrantes da provocação de Joacine.

3 E que dizer da reação da generalidade da comunicação social, essa também esperável, claro? Que em vez de ser contraponto critico salutar foi o coro para o logro do costume em curso.