Nos últimos anos, a Europa foi um viveiro de novos partidos. Portugal seguiu-lhe o exemplo e teve (pasme-se!) 21 partidos a concorrer às legislativas de 2019. Apuraram-se os resultados, aplicou-se a matemática do método e sentaram-se os meninos na dança das cadeiras da Assembleia da República. O Aliança, que apenas tinha deposto pouco mais de meia nádega, saltou fora. Regras são regras e, ou o rabiote cabe inteiro ou apenas terá nova oportunidade na próxima música. 61 mil votos e a representação de cerca de 1,8% dos portugueses que foram votar, não foi suficiente. De lá para cá repousa em parte incerta, o que muito se estranha já que i) resultou da cisão de militantes do PSD; ii) Santana perdeu essas eleições obtendo quase 46% dos votos dos militantes; iii) é liderado por um ex-primeiro ministro; iv) são-lhe reconhecidos os dotes oratórios e a capacidade interventiva. Só que, o Aliança não é um partido de ideais, de causas, de conteúdo programático. É um partido de líder. Um one man show. E o artista sebastianizou-se, deixando o partido órfão, à semelhança do que aconteceu com a Nova Democracia de Manuel Monteiro. Dão-se alvíssaras…

A Iniciativa Liberal optou por fazer concorrer o seu líder pelo Porto. Aqui a relação entre o fiofó e o tamanho da cadeira foi idêntica, pelo que Carlos Guimarães Pinto não logrou lugar sentado. Já em Lisboa o assento foi feito à medida de Cotrim de Figueiredo. Resultado: líder deposto e substituição pelo parlamentar. Mas, de lá para cá, a multidão aguarda com muito mais expectativa o próximo cartaz da IL (brilhantes na comunicação) do que as intervenções parlamentares. Apesar do programa diferenciado, radical em termos económicos, a postura passiva, conformada e inócua na discussão do orçamento, lembram um doente nos cuidados intensivos com prognóstico reservado. Desejam-se rápidas melhoras…

O Livre incubou um sistema inovador na escolha dos parlamentares que o representariam, escancarando as portas a todos os que quisessem votar. Joacine encheu o autocarro com todo o pessoal do condomínio e deu chapelada aos demais, estando encontrado o candidato do partido. Os portugueses ratificaram a escolha nas urnas presenteando-a com uma cadeira. Pouco demorou até se queixar da mesma, colocando um problema ao próprio partido que, não podendo mudar quem se senta, lá tratou de arranjar marceneiros a gosto enquanto tal foi possível. Como a donzela tinha gostos peculiares quanto à forma e medidas da poltrona, logo os artífices renunciaram ao ofício, pelo que o divórcio está iminente, podendo o Livre ficar sem representação parlamentar e Joacine condenada a representar pouco mais que os condóminos que a elegeram. Rui Tavares que aprenda que as utopias têm um preço demasiadamente elevado!

O partido de Freitas do Amaral e de Adelino Amaro da Costa elegeu 5 deputados, muito perdendo para a IL e, sobretudo, para o Chega. Já andou de táxi, agora mudou para van. Cristas demitiu-se, as eleições estão marcadas e os candidatos no terreno. O CDS reinventar-se-á, não quanto aos ideais ou matrizes político-sócio-económicas, mas quanto à postura, à comunicação e à forma de fazer oposição e rapidamente recuperará parte do seu eleitorado. Está no bloco da cirurgia estética a fazer peelings, liftings, lipoaspirações e outros retoques que o tornarão mais atraente. Aguarda-se o resultado da mão mágica do cirurgião…

Já o PSD é um caso de Dr. House. Os sintomas estão à vista de todos e são confusos. Ninguém sabe do que se trata, mas há a convicção plena que pode ser fatal. E, pior, está vetado às listas de espera do Serviço Nacional de Saúde…

Consta da ficha do paciente:

Historial clínico: em janeiro de 2018 superou, à tangente, um problema de liderança.

Assistido diversas vezes nas urgências com queixas de discurso vago e confuso, modorra, falta de ambição, fraca argumentação e pouca tolerância a críticas. Inábil na resolução de problemas internos e/ou externos. Foi medicado, seguido em psicologia, não apresentando melhorias significativas. Submeteu-se a provas de esforço, em Maio de 2019, com resultados catastróficos, acusando acentuada perda de leitores. Mudança do paradigma terapêutico, com reforço muscular, acompanhado de psicotrópicos (leves) para elevar a auto-estima. Nova prova de esforço, em Outubro de 2019, roçando mínimos históricos, apesar de condições exógenas extremamente favoráveis. De então para cá –  e apesar disso – apresenta tiques de tiranete, ligeiro autismo, manifesta incapacidade de auto-crítica, avesso ao diálogo e discurso delirante;

Data do último episódio agudo: a 13 de Janeiro de 2020, com um post numa rede social, em pleno exercício público de autoflagelação;

Observação clínica: o paciente apresenta-se desorientado no tempo e espaço, com um discurso ilógico e por vezes delirante. Imagina inimigos internos.

Reúnem os médicos de urgência, analisam a ficha do paciente, os resultados toxicológicos e imagiológicos. Devoram literatura sobre casos idênticos, sublinhando o de um outro partido, conhecido como o caso do “poucochinho”. Discutem internamente a situação, concluindo tratar-se de uma infecção no cérebro que contagia os restantes membros. Aconselha a prudência a intervenção cirúrgica com vista a remover o problema. Não podem dar garantias de sucesso pleno, mas assumem uma elevada probabilidade. O partido duvida, apesar de advertido que a recusa pode ditar a morte ou deixá-lo em estado vegetativo. O cérebro comanda a maior parte dos membros e tudo faz para manter o status quo. Esquecendo que teimosia e burrice andam lado a lado e que o perigo surge quando se encontram, desvaloriza os avisos e invectiva:

Então não morrem partidos todos os dias?”.

Já ao sair da sala, golpeia o pescoço na direcção dos clínicos e, de sorriso matreiro, dispara:

“E não há pessoas muito maiores que os partidos?”

“Haverá, seguramente. Manifestamente não é o caso!” – respondeu quase em surdina um dos médicos, enquanto começava a assinar a certidão de óbito…