Na semana em que Telma Monteiro se sagrou campeã da Europa, foi condecorada por António Costa e João Paulo Rebelo pela honra que tem dado a Portugal com o seu mérito desportivo.

Ironicamente, o Judo e as consideradas modalidades de “alto risco” nos escalões “não profissionais” serão as últimas a desconfinar.

Será que teríamos uma Telma Monteiro hexacampeã da Europa se esta tivesse sido privada de treinar e competir enquanto júnior? Aliás, gostaria de pegar no exemplo supracitado para recordar que o sucesso de Telma começou a ser desenhado enquanto ainda pertencia ao escalão júnior, época em que conseguiu apuramento para os Jogos Olímpicos de 2004.

A formação de atletas não se consegue colocando um pó instantâneo num copo com água, como alguns parecem acreditar. Existem etapas desde o início da vida da criança, com a aquisição de competências motoras básicas (que ficaram bastante comprometidas com o encerramento dos parques infantis e o confinamento generalizado da infância) até ao seu percurso como atleta sénior.

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Um ano e uns meses de paragem na vida de um jovem atleta é o suficiente para comprometer de forma fatal a evolução, rendimento e planos daqueles que têm o sonho de representar Portugal na sua modalidade.

Gostaria de perguntar ao advogado e Primeiro-Ministro António Costa e ao gestor e secretário de Estado do Desporto João Paulo Rebelo, o que diferencia uma modalidade de “baixo, médio e alto risco”?

No Futebol há menos contacto que no Judo? No surf há menos contacto que no voleibol? Quem esteve no terreno sabe que não é assim. Seguindo a mesma lógica, gostaria de confrontar o Executivo com as suas próprias contradições :

  • Porque é que confinamos o desporto “não profissional”, quando este é praticado pelos grupos de menor risco e quando a obesidade é uma agravante a quem contrai o vírus da Covid-19?
  • Qual a diferença, no que diz respeito ao risco de contágio, de um grupo de jovens numa sala de aula ou num pavilhão desportivo?
  • Porque é que foram tomadas medidas para que o desporto profissional continuasse, independentemente “da caixinha”em que foi categorizado pelo Executivo, mas as mesmas medidas não se estenderam aos escalões desportivos “não profissionais”?
  • De que forma é suposto os clubes resistirem, se têm que obedecer, sem público, sem mensalidades, sem apoios à suspensão total ou quase total das suas actividades?

A resposta é directa: o desporto “não profissional” não é tão lucrativo e precisa de apoios que, regra geral, não tem, com muitos atletas jovens a participarem em provas a expensas próprias.

O sucesso desportivo depende da meritocracia que é incorruptível e de capital. O socialismo não é amigo do capital nem da meritocracia e não a facilita. O socialismo aparece no fim, para a fotografia de quem teve que enfrentar mais espinhos que rosas na sua carreira desportiva para, por mérito, conseguir resultados.

O desporto foi, é e continuará a ser uma preocupação secundária, especialmente quando é “não profissional”, ainda que seja essencial para o desenvolvimento de um “eu moral”, para além do aperfeiçoamento físico.

Num país liberal como a Holanda, a actividade física é vista como parte indissociável da saúde do indivíduo, estando integrada no Ministério da Saúde, Bem-Estar e Desporto, tutelada pelo Vice-Primeiro-Ministro que, aliás, acumula actualmente as duas funções.

Quantos anos vamos ter que esperar, para que em Portugal haja, efectivamente, uma reforma desportiva que dignifique os atletas de todos os escalões?

Quantos anos vamos ter que esperar, para que em Portugal, ser atleta, treinador ou profissional da área em qualquer uma das suas vertentes não seja um risco com mais investimento do que lucro?

Quantos anos vamos ter que esperar para que o desporto não continue a ser ignorado na desportiva?