Estes últimos tempos têm sido particularmente férteis em discussões sobre as migrações. Angela Merkel cedeu ao seu parceiro de coligação, a CSU, e anunciou que a Alemanha deportará imigrantes registados noutros países da União Europeia (são muitos). No Conselho Europeu, as discussões não satisfazeram de modo algum os adeptos de uma política de abertura integral à imigração que Merkel havia proposto em 2015. António Costa apelidou a reunião do Conselho Europeu de “horrível” e Augusto Santos Silva, concordando com Costa, declarou que, apesar de tudo, o resultado não havia sido “desastroso”. Desastroso, acrescentou Marcelo, teria sido não ter havido acordo nenhum.

No meio disto tudo, não faz mal ler livros que, embora apresentando uma visão particular da situação, deixem ouvir as várias vozes e os vários argumentos usados no debate. Foi o que eu fiz, para tentar pôr, na medida do possível, as ideias em ordem, e tirei da pilha de livros para ler um livro que estava lá há muitos meses. Trata-se de uma obra publicada no ano passado por Douglas Murray, um jornalista da revista Spectator, A estranha morte da Europa. O livro, de resto, foi traduzido recentemente em português e publicado pela editora Desassossego. Já agora, a tradução do subtítulo contém uma variação significativa em relação ao original inglês. Enquanto que neste se lê: “Imigração, Identidade, Islão”, a tradução portuguesa apresenta: “Imigração, Identidade, Religião”. Ignoro se esta modificação foi acordada com o autor. De qualquer maneira é estranho, porque o argumento central do livro gira em boa parte em torno da questão da compatibilidade do Islão com os nossos hábitos civilizacionais e nenhuma outra religião é, nesse contexto, especificamente discutida.

E é difícil, a este respeito, não nos lembrarmos do que o próprio Murray escreve a propósito da tentativa de silenciamento por parte da polícia e das autoridades de várias localidades do norte da Inglaterra das violações sistemáticas e em grande escala de muito jovens raparigas praticadas desde o início de 2000 por gangs de paquistaneses e de indivíduos oriundos do norte de África. Razão do silenciamento? Obviamente, o receio de contribuir para a “islamofobia”. Estes receios vêm, é claro, de atrás. Em 1999 Christian Jelen havia denunciado, em A guerra das ruas. A violência e “os jovens”, a táctica utilizada pelo jornalismo francês que consistia em atribuir um certo número de episódios de violência aos “jovens” em geral quando estes encontravam a sua origem numa reduzida faixa destes: crianças e adolescentes oriundos das imigrações magrebina e africana. A razão é sempre a mesma. Murray tem óptimas páginas em que explica este fenómeno: tende-se a atacar os problemas secundários (a suposta ou real “islamofobia”) em vez do problema principal que se encontra na sua origem. A inversão da atenção provoca nos críticos da “islamofobia” o sentimento de uma “elevação moral” que a discussão do problema principal não permitiria nunca. Claro que tal atitude tem consequências: a deterioração da linguagem num sentido traz consigo fatalmente a sua deterioração no sentido oposto, nomeadamente a identificação de todos os imigrantes com terroristas. Com o espúrio argumento de não se fazer o jogo da extrema-direita, faz-se o jogo da extrema-direita.

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