Pego no mote dado por este texto no Observador para falar numa causa que deveria juntar todas as mães e todos os pais com prole em idade escolar: a abolição da peste epidémica que são os trabalhos para casa (ou como o meu filho mais velho, garboso frequentador do 3º ano, diz, Tortura Para Crianças).

Às vezes ouço pessoas referirem-se aos TPC como algo que molda o caráter das crianças, que lhes ensina a primazia do dever (donde o irritante nome ‘deveres’) face aos prazeres da vida que já lhes estão disponíveis; no fundo, são a bala de prata que leva os estudantes ao sucesso académico e até, no caso de jovens em risco, lhes evita uma vida entregue ao crime ou, pelo menos, à mandriagem.

Eu apresento-me como prova de que essa teoria está errada. Sempre devotei de forma consistente um ódio razoável aos TPC e já na primária me lembro de ter a professora a enviar notas à minha mãe por ausência de TPC realizados. Lembro-me até de um incidente (talvez na sequência de tais notas) em que o conflito entre o poder maternal e a minha pessoa, à volta de uma conta de dividir, foi tão violento que eu decidi (sem disso informar o poder competente, claro) que não ia aprender a fazer contas de dividir quando a divisão era por números com dois ou mais algarismos (as por um algarismo não valia a pena desaprender). E passei assim todos os anos (e nada mal), saltando as contas de dividir nos testes de matemática, até que lá para o 8º ano me ensinaram divisões com polinómios, o mecanismo era tão evidente que eu não podia alegar não o entender (a matemática é para se perceber em vez de decorar, e aprovo as medidas programáticas que têm ido nesse sentido e fogem do ensino tradicional da disciplina) e, embora contrariada por abandonar a resolução dos meus 8 ou 9 anos, comecei a fazer divisões por números de mais de dois algarismos. (Confortada, apesar de tudo, por naquela altura já não aparecem exercícios destes nos testes, pelo que havia já pago gloriosamente o preço da minha rebelião da infância).

Também me recordo de, no Secundário e quando havia esgotado o número permitido de faltas de material, copiar os trabalhos de casa de inglês pelas minhas amigas no intervalo antes dessas aulas. Isto é tanto mais sintomático do desprezo aos TPC (sistema a ser combatido pela subversão das regras) quanto eu nunca copiei num teste – nem nunca proporcionei que copiassem por mim (pela mesma razão que nunca usaria uma carteira de imitação de uma marca conceituada: horror ao postiço).

Ora nada disto me impediu de ser sempre boa aluna a matemática, ter tirado um curso que usa matemática já complexa e, na verdade, estudar para os exames de matemática (i.e., fazer exercícios) dava-me muito prazer. Também hoje leio muito mais livros (e jornais e…) em inglês do que em português. Nem tal desamor aos TPC me impeliu a abraçar uma vida de ilegalidade nem a descurar os meus deveres como mãe de família, profissional ou cidadã. Na verdade tenho muito orgulho por sempre ter entendido que, depois de saída do colégio às quatro meia, era o que faltava gastar o resto do meu dia a fazer TPC. Primeiro queria brincar e desenhar e, mais tarde, ler aquilo que me apetecia em vez do que os professores recomendavam.

Nos casos de escolas que apenas têm aulas de manhã ou de tarde, pode justificar-se que enviem alguns TPC diariamente. E no 3º ciclo ou no secundário evidentemente há disciplinas (matemática e pouco mais) que necessitam de treino e justificam trabalhos de casa. Mas não há qualquer motivo de ordem não sádica para esperar que crianças, depois de passarem a manhã e metade da tarde nas escolas, percam mais do seu dia – em vez de estarem a descansar ou a brincar – repetindo o que fizeram na escola. Isto para além de argumentos válidos como infernizar a vida das famílias e potenciar conflitos entre progenitores e prole cansados. (Há os inválidos, como não criar ‘assimetrias’ aos alunos sem famílias que ajudem nos TPC – desde quando o objetivo da escola é nivelar todos por baixo em vez de promover o potencial de cada aluno?)

Dispensam-se contudo lirismos (que acordam os meus instintos bélicos ou, pelo menos, sarcásticos) do calibre (parafraseio) ‘peça ao adolescente que leia um artigo no jornal e resuma’. Eu desiludo: ou as famílias têm por hábito comentar e debater notícias, políticas, eventos relevantes ou não esperem que estas conversas surjam por encenações planeadas.

Os meus filhos são incentivados a ouvir e perguntar e comentar as conversas dos adultos (as disponíveis aos seus ouvidos, evidentemente, e oh se são argumentativos) e este verão entusiasmaram-se sem medida com o ‘banco bom’ e o ‘banco mau’. Mas ficaria algo desapontada se, chegados à adolescência, num momento de fraqueza meu lhes pedisse para lerem e resumirem um texto de um jornal e não fizessem questão de me ignorarem e falarem do tema mais superficial que lhes ocorresse (outra coisa seria recomendar-lhes lerem, e comentarem só se lhes apetecesse, algo que os entusiasmasse). Se há dever que os filhos têm é castigar as coreografias pretensiosas dos pais.