Sei bem que estamos em ano de eleições e que António Costa tem de dizer coisas aos funcionários públicos que os façam correr a ir votar no PS em outubro (que as sondagens não estão boas para vitórias retumbantes e por maioria absoluta). Vai daí, ofereceu um dia de férias aos funcionários públicos para acompanharem o primeiro dia de aulas dos seus filhos. Um dia inteiro. Presumo que António Costa julgue que os pais ficam a roer as unhas nos pátios dos recreios enquanto, com geringonças periclitantes de tecnologia surripiada aos submarinos, vigiam os seus filhos nas salas de aula durante (digo outra vez) um dia inteiro.

Ou não julga nada disso e simplesmente quer dar mais um dia de férias aos funcionários públicos – regalia que os privados não terão – porque, como se sabe, os serviços públicos não estão, muitos deles, em rutura à conta das 35 horas e das cativações e do (tão etéreo que é inexistente) investimento público. E também se sabe que estamos em ótimas condições orçamentais para pagarmos mais horas extraordinárias que sejam necessárias para compensar este novo dia de férias.

Dos lados da direita, houve quem fizesse pouco da proposta de Costa. Também se percebe. Há pelas novas direitas (suspiro acompanhado de revirar de olhos) gente que acha que as mães deviam estar exclusivamente em casa a tratar dos filhos, pelo que não precisam de férias. E que os pais são seres humanos biologicamente programados para somente se preocuparem com o sustento familiar, não se envolvem nessas pieguices de levar filhos à escola nos primeiros dias e estar lá um bocadinho com eles, pelo que também não há precisão de lhes dar férias. Ou, mais uma alternativa na linha destas novas direitas, quem tem trabalhos bem pagos e diferenciados não precisa de cumprir horários, ou pode alterá-los facilmente, pelo que esta medida visaria a raia miúda, e quem se interessa por medidas que beneficiem os parasitas que votam no PS e no BE? A noção de bem comum desta nova direita é tão etérea e inexistente quanto o investimento público da era Centeno.

Cabe aqui talvez lamentar a bipolaridade da discussão política atual, e mais ainda da portuguesa – que, afinal, está cheia de gente com propensão para o extremar de posições e a incapacidade para o juízo. Vénias para a baixa literacia, a escassa informação e o pouco mundo.

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