A propósito da declaração do Presidente da República de que não iria à recepção a Greta Thunberg, na terça-feira, para que esse gesto não pudesse “ser considerado aproveitamento político”, surgiram nas redes sociais muitos comentários negativos – ou indignados – de defensores da activista sueca.

Entre outras críticas, mais ou menos ferozes, referiu-se o facto de Marcelo Rebelo de Sousa ter visitado e apoiado, ainda no domingo passado, o Banco Alimentar contra a Fome – o que, acrescentavam, poderia igualmente ser visto como um aproveitamento político.

Experimentei defender nas minhas redes sociais, num texto curto, o Banco Alimentar (BA). Escrevi que não percebo como é que ainda existem pessoas que o conseguem atacar e preferem a hiperactividade mediática da jovem Greta.

Nos comentários, sobretudo no Facebook, multiplicaram-se as difamações contra o BA, incluindo a sua presidente, Isabel Jonet, nenhuma delas fundamentada com qualquer prova concreta, baseadas apenas no velho e portuguesíssimo ‘diz-que-disse’. Não as vou repetir, porque são apenas isso: difamações sem qualquer sentido que não merecem sequer ser lidas.

Não sendo o que os fanáticos da causa chamam de “negacionista” das alterações climáticas, mas não partilhando o entusiasmo histérico pelo fundamentalismo ambientalista de Greta Thunberg, dou toda a razão ao Presidente por não ter ido receber a adolescente às Docas de Santo Amaro.

É certo que o Presidente preferiu Isabel Jonet a Greta Thunberg – e esta escolha deve ser lida também, felizmente, como um sinal político. O bom senso tem limites que não devem ser ultrapassados.

Bastou ver a forma como alguns aproveitaram politicamente a chegada de Greta, usando e abusando do tempo de antena proporcionado pela activista, desde o presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, ao porta-voz do PAN, André Silva, passando pela inevitável Joacine Katar Moreira, do Livre, para aplaudir a decisão de Marcelo Rebelo de Sousa.

Quanto à visita e ao apoio firme ao BA, o Presidente da República limitou-se a manter uma linha de coerência que tem seguido desde que assumiu o cargo – e que já vem aliás dos tempos em que dava notas como comentador, quando convidava Isabel Jonet para estar presente nos seus programas.

Se há algum político que tem demonstrado ao longo dos tempos uma preocupação permanente em relação aos mais pobres e, nomeadamente, aos sem-abrigo, esse é o actual Chefe de Estado.

Ainda no mês passado, numa nota publicada no site de Belém, voltou a lembrar que “quase dois milhões de portugueses são pobres” – sendo que cerca de 330 mil crianças estão em risco de pobreza em Portugal – e que, por isso mesmo, “o combate à pobreza e a correcção das desigualdades sociais são duas prioridades que exigem determinação e responsabilidade colectiva”.

Em relação ao BA, só o facto de ter a colaboração e o empenho de mais de 40 mil voluntários deveria obrigar a ser comentado sem precipitações e com algum respeito. Ou pudor. Como informa o respetivo site foi aquele o número de voluntários de 21 Bancos Alimentares de todo o País, incluindo Abrantes, Algarve, Aveiro, Beja, Braga, Castelo Branco, Coimbra, Cova da Beira, Évora, Leiria-Fátima, Lisboa, Madeira Oeste, Portalegre, Porto, Santarém, Setúbal, S. Miguel, Terceira, Viana do Castelo e Viseu.

É obra conseguir recolher-se, só num fim-de-semana, mais de 2.100 toneladas de géneros alimentares, numa campanha realizada em 2.000 superfícies comerciais de 21 regiões do país.

É também bom saber que os alimentos serão distribuídos a 2.400 Instituições de Solidariedade Social – atenção, não se choquem que não usei a tão desvalorizada palavra “caridade” – que, por sua vez, “os entregam a cerca de 380 mil pessoas com carências alimentares comprovadas, sob a forma de cabazes ou de refeições confecionadas.”

Perdoem-me se prefiro de longe esta rede social às virtuais, em que alguns são apenas comentadores de sofá e moralistas do wi-fi ou do 4G. O Banco Alimentar para a Fome é, definitivamente, um banco bom.