Ontem, li três notícias que mostram as mudanças das posições das mulheres. A primeira vem de uma sociedade medieval, e com algumas regras detestáveis, a Arábia Saudita. No reino saudita, desde ontem, as mulheres já podem viajar sem autorização de um homem, já podem registar os seus filhos e até já podem pedir o divórcio. A figura do guardião masculino, responsável pelas mulheres, incluindo Mães, irmãs, tias e primas, está a chegar ao fim. Uma notícia óptima para as mulheres sauditas.

A segunda notícia diz que pela primeira vez uma mulher irá arbitrar uma final da supertaça europeia de futebol, entre o Liverpool e o Chelsea. Num país, como o nosso, com tantas polémicas com arbitragens no futebol, seria óptimo se houvesse cada vez mais mulheres a arbitrar os jogos mais importantes e decisivos. Estou convencido de que o nível da arbitragem aumentaria, assim como a disciplina dos jogadores, e de que os casos duvidosos diminuiriam. Parece ser mais difícil corromper as mulheres do que os homens. Pelo menos, não seria fácil oferecer “fruta” às árbitras, e poderia ser o caminho para o fim dos “padres” benfiquistas no futebol. Precisamos de mais mulheres nos relvados portugueses a arbitrar os jogos do Campeonato e das taças.

A terceira notícia diz respeito à escolha, pela União Europeia, de apresentar Kristalina Georgieva como a candidata dos europeus à chefia do FMI. Desconfio que Centeno percebeu que existia uma grande vontade na Europa de escolher uma mulher, e por isso retirou a sua candidatura. A escolha de Georgieva segue-se à de Ursula Von Der Leyen para a presidência da Comissão Europeia e à de Cristine Lagarde para a chefia do Banco Central Europeu. Sobretudo no caso da Comissão Europeia já não era possível adiar a escolha de uma mulher para a sua presidência, visto que nunca tinha acontecido em mais de 60 anos de integração europeia. Foi um sinal importante para uma maior igualdade entre homens e mulheres na Europa.

Devo dizer, no entanto, que sou contra a política de quotas por três razões. Em primeiro lugar, porque viola o princípio da igualdade. E viola-o num duplo sentido. É um acto discriminatório contra os homens e desvaloriza as mulheres que concorrem a esses lugares. Não concebo que se combata uma injustiça criando outras injustiças. Em segundo lugar, a minha oposição resulta de uma atitude conservadora em relação às mudanças sociais. Acho que as alterações por decreto criam desequilíbrios e exageros sociais desnecessários. Por fim, e aqui está a minha costela liberal, considero que as nossas sociedades devem ser reguladas pelo mérito e pelo princípio das oportunidades iguais. Desejo viver numa sociedade onde as mulheres gozam das mesmas oportunidades dos homens e chegam aos lugares de topo devido ao seu valor e aos seus méritos e não pela imposição de quotas.

Esta consideração sobre as quotas leva-me ao tema da emergência da ideologia feminista. Vivemos tempos de ideologias monotemáticas, o que claramente derrota as previsões daqueles que durante décadas têm falado do “fim das ideologias”. O feminismo transformou a causa justa da igualdade de oportunidades na visão radical da “igualdade de género”. A igualdade de género é um disparate, é absolutamente falsa (qualquer pessoa que tenha filhas e filhos percebe imediatamente o meu argumento) e procura alcançar outros objectivos políticos. Na verdade, usa a luta justa pela igualdade de oportunidades para legitimar a conquista do poder por grupos políticos radicais, que pretendem, de resto, acabar com a liberdade individual.

Há ainda uma consideração mais pessoal. Quando observo muitas das feministas, sobretudo as militantes em partidos radicais, parece-me sempre que perderam, algures no passado, o seu lado mais feminino, aquele que distingue as mulheres dos homens por todas as boas razões. Aprenderam muito sobre argumentos ideológicos e formas de luta política, mas esqueceram-se do que de mais elementar existe nas mulheres. Numa das suas melhores canções, “Foi Assim”, Maria Bethânia canta que procura um homem que “pudesse compreender todo o meu Eu.” Bethânia sempre lutou pela igualdade, mas também é sábia. Ao contrário da Bethânia, muitas feministas esqueceram que o Eu feminino é muito mais do que a militância política. Deveriam ouvir mais música e estudar menos ideologia.