Como eu sempre digo, não há animal no mundo mais mortífero que um político com imaginação. E os políticos são seres surpreendentes. Podem ser mais cinzentos que o betão, entediantes na retórica, tão vistosos que se confundem com as paredes mais desmaiadas dos edifícios públicos que atravessam, com penteado e fato que nos fazem reviver os anos 90 do século passado, causadores de bocejos em todas as pessoas com quem troquem mais de duas frases – que ainda assim, garanto-vos, são uns génios fervilhantes de criatividade. Em se tratando de impostos (ou de regulamentações que atormentem a vida às populações), os olhos destas personagens brilham intensamente e o político mais amorfo de súbito transforma-se num criativo inexcedível. A originalidade vibrante para inventarem e criarem e sugerirem novos impostos é algo que nunca cessa de me surpreender nestas pessoas que usualmente, por comparação, tornam qualquer manga de alpaca num boémio cintilante.

Por isso não me espanta a fúria de criação de impostos ditos contra a especulação imobiliária. Por um lado, porque é sempre bom criar impostos contra algo que não existe. Pela minha parte, humildemente confesso que não sei o que é a especulação imobiliária. Ao contrário dos investimentos mobiliários, em que é possível através de compras e vendas massivas influenciar momentaneamente o preço de ações, moedas e por aí adiante, nunca vi pessoas ou empresas a comprarem por atacado imóveis e depois açambarcá-los vazios para fazerem subir os preços. Se a oferta é mais ou menos rígida (e é, exceto quando se permite mais construção numa certa zona, e nem sempre é possível), o preço dos imóveis é muito mais determinado pela procura do que pela oferta.

O que tem sucedido em Lisboa e Porto é um natural encarecimento das casas porque de repente os citadinos se lembraram que é cool morar nos centros das cidades (antes fugiam deles como Maomé do toucinho), há prédios ocupados com turismo e porque estamos a sair de uma crise económica forte e é mais que normal que os preços (que caíram bastante) agora subam. Há quem compre e venda pouco depois ganhando dinheiro? E daí? Não foi por isso que os preços aumentaram. Só se consegue vender o que alguém quer comprar.

Mas pronto, inventem-se impostos para satisfazer o ímpeto criativo na hora de taxar da classe política. Que o Bloco de Esquerda – na tentativa de fazer esquecer a sua defesa de Ricardo Robles, a pessoa que fez todo o contrário do que em tom moralista apregoava – proponha taxar mais quem ganha dinheiro com vendas de imobiliário, não espanta. Que o PSD – em moldes ainda misteriosos – lhe siga as pisadas é que era um tudo nada menos previsível.

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