Montepio

O caso Montepio, ou como nos querem fazer de estúpidos

Autor
  • Filomena Martins
386

Como é que quase nada se sabe de um negócio como este? Qual é o interesse (nacional) que o Governo vê nele? Estão a fazer Misericórdia com quem? A quem vai sair o Euromilhões? Quem vai pagar? Quando?

Primeiro esclarecimento: já tinha eleito o tema da entrada da Santa Casa no Montepio como tema para este artigo antes do PSD de Negrão e Rio o ter levado ontem ao seu primeiro debate com Costa. Como não gosto de andar (ou de pensarem que ando) a reboque de nada, estive quase a mudar de assunto. Mas o negócio (ou negociata) é demasiado importante para lhe passar ao lado. Porque mais do que concordar com as preocupações manifestadas pela bancada social-democrata, o que me preocupa mesmo é a falta delas do lado do PS. É a ausência de explicações claras do Governo e da Santa Casa. É o silêncio ensurdecedor da esquerda radical (que nem imagino o que estaria a dizer se isto estivesse a acontecer com Passos em S. Bento).

Segundo esclarecimento: não sou especialista em banca nem em impostos. Infelizmente, neste caso não preciso de o ser. Sei por experiência própria, tal como a maioria dos portugueses, que ambos têm estado diretamente relacionados pelas piores razões. Poupo-vos os pormenores dolorosos do quanto custaram aos contribuintes nas suas deduções fiscais, cortes salariais, taxas e taxinhas. Basta rever os números.

As três grandes falências bancárias (perdão, os três grande casos de polícia) dos últimos anos – BPN em 2008, BES em 2014 e Banif em 2015 – vão custar mais mil milhões de euros em 2018. Continua por saber como será contabilizada a recapitalização da CGD de 2017. Entre 2008 e 2016, segundo o Tribunal de Contas, já tínhamos pago 14,6 mil milhões de euros (1,8 mil milhões só em juros) com o salvamento e ajuda aos bancos. É 8% do PIB. Quase seis vezes o valor do défice. E a fatura continua longe de estar saldada.

Ora se além disto, a grande preocupação da Comissão Europeia em relação à nossa economia é ainda com a banca. Se os principais alertas do FMI a Portugal são sobre banca. Se as agências de notação continuam com dúvidas em relação ao rating por causa da banca. Se o Novo Banco pode precisar de mais uma injeção de capital. Se os bancos andam a subir comissões, a fechar balcões, a fazer despedimentos e o diabo a sete para se reestruturarem e voltarem a ser saudáveis. Se há problemas por resolver com os muitos lesados. Se foi preciso criar mecanismos novos, fundos de resolução e ainda se vai apertar mais a regulação. Então que obsessão é esta da entrada de uma entidade que nada sabe de banca num banco que, além dos nos últimos tempos parecer um saco de gatos, tem de separar as áreas da caixa económica e da associação mutualista por causa dos riscos de exposição? E de quem é essa obsessão? E porque não aprendemos (ou não queremos aprender) a lição?

Já me andava a fazer muita confusão que a Santa Casa estivesse a entrar de forma muito atabalhoada (e estou a ser simpática no termo) no milionário negócio dos jogos de fortuna e azar (sobre o qual há muito por explicar). Mas tornar-se banqueira? O que é que isso tem a ver com “a realização da melhoria do bem-estar das pessoas, prioritariamente dos mais desprotegidos, abrangendo as prestações de ação social, saúde, educação e ensino, cultura e promoção da qualidade de vida” de que falam os estatutos da SCML? Alguém está a confundir fundos e operações financeiras de risco (é isso que faz o Montepio) com o “desenvolvimento de iniciativas no âmbito da economia social”?

Se não estão a confundir, estão a tentar confundir-nos. Ou o Governo ou a Santa Casa ou o Banco de Portugal ou todos. Porque dizer que investir no Montepio é como investir em arte, depois da confusão com os Miró do BPN e a coleção de arte do BES, é uma anedota. Começar por falar num investimento de 200 milhões por 10% do banco e a seguir achar que reduzir para 160 milhões por 6% é um desconto, já é gozar. Querer fazer-nos acreditar que estamos a falar de uma instituição que vale entre 2 a 2,6 milhões, mais que o BPI e pouco menos que o BCP, é mais do que atirar areia para os olhos dos ignaros da economia. É mesmo chamar-nos estúpidos. E achar que somos.

O negócio deve avançar ainda em março depois da avaliação final do Haitong. Março começa hoje. Como é que quase nada se sabe de um negócio como este? Qual é o interesse (nacional) que o Governo vê nele? Estão a fazer Misericórdia com quem? A quem vai sair o Euromilhões? Quem vai pagar? E daqui a quantas legislaturas vem a conta?

Só mais duas ou três coisas

  • O que se passa em Ghouta Oriental, na Síria, é muito difícil de explicar. Mas é muito fácil de resumir. Há muitos interesses em jogo. Envolvem da Rússia à Coreia do Norte, da Turquia aos EUA. E mostram que as resoluções da ONU são como as palavras das Miss Universo. E isso significa que António Guterres tem apenas um papel de muito prestígio no Mundo. Infelizmente, este e outros casos exigem muito mais que isso.
  • “A verdade é como o azeite, vem sempre ao de cima”. “Mais depressa se apanha um mentiroso que um coxo”. Etc. Etc.. Podia estar aqui linhas e linhas com expressões populares. Iam todas acabar no mesmo: Vieira da Silva mentiu. O apoio à abertura de uma creche aos sábados para os trabalhadores da Autoeuropa é mesmo uma exceção. O DN confirmou que, ao contrário do que o que afirmou o ministro, só uma creche privada recebe uma comparticipação da Segurança Social para abrir todos os dias do ano.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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