Numa entrevista de campanha eleitoral publicada pelo «Público», o actual primeiro-ministro falou mais da União Europeia e do pretenso lugar de Portugal no mundo do que tinha falado até agora, apresentando-se pela primeira vez como um «líder» político com pretensões a vir a ser um dia, quem sabe, presidente da Comissão Europeia…

Entretanto, o «Público divulgou a notícia de o primeiro-ministro vir a indicar o antigo ministro das «obras públicas», agora candidato ao Parlamento Europeu, Pedro Marques, para Comissário Europeu dos Fundos Estruturais após as eleições de Maio próximo. Ignoro se a notícia é verdadeira mas não é ocasional. Ora, Portugal tem actualmente como Comissário Europeu, indicado pelo anterior governo, o Doutor Carlos Moedas com o pelouro estratégico da Investigação, Ciência e Inovação, que tem já entre as suas funções a Inteligência Artificial e os seus prolongamentos tecnológicos e económicos…

Mas não, o primeiro-ministro só pensaria, segundo o jornal, em ter alguém na Comissão Europeia para encaminhar a maior quantidade possível de fundos para obras públicas que iriam, finalmente, desenvolver Portugal depois de décadas de desbarato para o país, mas enriquecendo para os clientes do sistema e enchendo os olhos do eleitorado. Ficamos a saber com que contamos: clientelismo puro e duro. Se menciono esta rasteira ambição de atrair a maior quantidade possível de fundos europeus para tapar os buracos das nossas finanças é porque, na mesma entrevista, com chamada à primeira página, o mesmo Costa proclamava o mais típico «slogan» da esquerda mal-agradecida: «O euro foi o maior bónus que a Europa ofereceu à Alemanha»…

Pura e simplesmente lamentável! No seu túmulo Mário Soares teria vergonha e perguntar-se-ia como é que um líder do PS esquecia a protecção que a então CEE deu à democracia portuguesa! Portugal ofereceu um «bónus» à Alemanha? O PS acredita nisso? É como aqueles marxistas de carregar pela boca que imaginam que Lisboa enriquece à custa de Trás-os-Montes. O actual líder do PS não se recorda da tontice do seu antecessor Guterres quando este cantarolava: «Estamos no grupo da frente»?

Se desde então andámos para trás e se hoje, como os «brexiteers» convencidos que estarão melhor fora da UE, um primeiro-ministro convence-se que foi o Portugal da produtividade comparativa cada vez baixa e da perda sistemática de oportunidades das duas últimas décadas que «ofereceu um bónus à Alemanha»? É por isso que o Estado não tem hoje dinheiro para sustentar o Sistema Nacional de Saúde? Se acredita em tal, está muito enganado; se não acredita, está a tentar enganar-nos!

É por isso que a ideia de colocar um membro do PS no comissariado da UE dedicado ao «bodo aos pobres», isto é, os fundos comunitários que aqui raramente serviram para alguma coisa de jeito, essa ideia bate certo com a visão de Portugal como um país sub-desenvolvido que espera viver à custa dos apoios externos, em vez de compreender e assumir os valores e os comportamentos necessários para vingar no contexto europeu.

Tão inquietante ou mais do que tudo isso, o líder do PS e os seus parceiros parecem continuar convencidos que o alegado problema do euro é a Alemanha não querer partilhar os seus ganhos com os outros países… Como se não os partilhasse já e como se Portugal não fosse, desde o primeiro dia, beneficiário líquido dos fundos e dos programas sem os quais ainda hoje estaria como no tempo do PREC! Pior: é não compreender que a UE, para subsistir e para se manter como um «player» internacional, conforme tem sucedido até agora, terá de tornar-se nos «Estados Unidos da Europa» em torno da sua moeda única. Também nos Estados Unidos há desigualdades tão grandes ou maiores do que na Europa mas a função do euro, como do dólar, é outra. É para constituir a Europa como união e como parceiro internacional que o euro serve: não é para redistribuir ganhos e perdas entre países que não sabem ou não querem fazer as reformas que há muito se impõem. Em contrapartida, a Irlanda tem cumprido o plano e é hoje, fora o Luxemburgo, o país com o maior PIB per capita da União Europeia!

A entrevista ao «Público» está cheia destes criticismos pseudo-progressistas, seja acerca dos «refugiados» que por alguma razão não pretendem vir para Portugal (e todavia já vieram nos anos de 1985 a ’95!); ou sejam pretensões internacionais como a venda de empresas à China em sectores sociais como a saúde; ou a Angola das nossas crenças pós-coloniais… Desta vez, depois de Sócrates, já não se fala do Brasil, mas fala-se de uma aliança política imaginária que iria da Grécia a África… Voltaremos ao assunto!