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No dia em que o Governo decidiu permitir que os eleitores votassem antecipadamente, no domingo anterior ao das eleições presidenciais de 24 de Janeiro, não previu que haveria uma pequena multidão de cerca de 250 mil votantes antecipados em todo o país. Em Lisboa eram umas escassas dezenas de milhar de votantes, mas ainda estavam a “fazer bicha” à hora de as urnas encerrarem! Comprova-se, assim, que a falta de previsão tem sido, manifestamente, a imagem de marca do PS desde que tomou o poder graças ao golpe parlamentar de 2015. Chega sempre tarde e não deixa esperanças para o dia da eleição presidencial.

Antes mesmo da pandemia, o improviso, a falta de competência e a manipulação dos meios de comunicação já tinham caracterizado o comportamento do Governo perante os incêndios florestais de 2017 e repetiram-se durante a tragicomédia de Tancos, que se prolonga até hoje, assim como o caso Sócrates, sempre de modo a iludir as pessoas e a sacudir as responsabilidades do Governo com a protecção do PR. E assim sucessivamente perante casos com a dimensão do chamado “Novo Banco” e agora a TAP, ambos a financiar pelos contribuintes, como tantos outros buracos, até que a falta de rigor e de previsão económico-financeira desembocou de novo no aumento da dívida externa.

Perante o agravamento da pandemia para valores impensáveis, é manifesta a desorientação do Governo e dos seus aliados no Parlamento e na Presidência da República. Estes continuam a refugiar-se atrás da “bazuca” da UE, da qual já se fala há tempos, mas que, aparentemente, não virá tão cedo. O mesmo se diga das vacinas, que em breve viriam resolver de vez o assunto e chegaram a ser saudadas como o “fim da pandemia”, mas afinal escasseiam de tal modo que, desde o Natal até agora, a vacinação ficou-se por uma centena de milhar, correspondente a menos de 1% da população e a quem ainda será necessário administrar a segunda dose!

Entretanto, a pressão sobre os hospitais e os profissionais de saúde não cessa de aumentar, atingindo, neste momento, mais de cinco mil internamentos, dos quais 664 em cuidados intensivos. Este afluxo contínuo de novos casos, já classificado como o mais grave do mundo, está não só a paralisar o normal atendimento aos outros doentes graves como, segundo as últimas notícias, também já está a obrigar os profissionais de saúde a escolher quem salvar entre os internados em cuidados intensivos. A organização e o financiamento do SNS já há bastante tempo que funcionavam mal e, neste momento, foram ultrapassados pelos acontecimentos com os riscos que isso comporta para muitos dos doentes actuais e para o estado de saúde futuro da população.

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Por fim, têm vindo a multiplicar-se, sem cessar, essas instituições de resposta ao envelhecimento cada vez mais acentuado da população, onde estão alojadas para cima de 300 mil pessoas – os chamados “lares de idosos”. Não é que isso não fosse já conhecido, mas agora, com a pandemia, as incapacidades técnicas e humanas dessas Instituições Privadas de Solidariedade Social geridas pelas Misericórdias tornaram-se evidentes apesar do financiamento estatal, sem falar do grande número de lares clandestinos tolerados pela Segurança Social. É nesses estabelecimentos que morre metade, ou mais, das vítimas da Covid-19!

O agravamento notório da pandemia, em simultâneo com a campanha eleitoral para a Presidência da República e o início da presidência do Conselho da UE, sinalizam o início do desmoronamento dessa pseudo-solução governamental iniciada pelo PS após as legislativas de 2015 – a tal “geringonça” –, que entretanto deixou manifestamente de funcionar como antes. Costa bem quis ter a maioria absoluta em 2019, mas, apesar da actual distorção eleitoral, não conseguiu e não encontrou substituição.

O PS perdeu-se entre a inútil confecção do Orçamento e a irrupção da pandemia. Não só gasta dinheiro e aumenta o défice, como afectou as uniões partidárias, como se viu nos Açores, onde a tentativa de reconstituir uma “geringonça local” sob o domínio do PS não funcionou na Região Autónoma. O soçobrar parlamentar do PSD e a virtual desaparição do CDS no Continente apenas indiciam mais dificuldades para o pequeno mundo dos partidos políticos, conforme se tem visto durante a campanha presidencial…

Independentemente do que acontecer em Belém, a perda simultânea de popularidade do PR e do PM impedi-los-á de se apoiarem um ao outro. Entretanto, a continuação da pandemia e o atraso da recuperação económica irão prolongar a recessão e desapontar a população em Portugal ainda mais do que no resto da Europa. A agonia política do PS deve-se não só à iminente catástrofe sanitária, mas também à debilidade económica do país. Esta, por sua vez, deriva da baixa produtividade resultante do estatismo, do corporativismo e, por fim, da pretensa “ideologia de esquerda” insuflada pelo PS, desde a burocracia à escola e à comunicação social!