Um dos maiores progressos que emergiu da utilização alargada dos computadores de palma de mão, a que se convencionou apelidar de telemóveis inteligentes – embora telefonar seja o que menos se faz com eles -, foi a utilização da georreferenciação. Já ninguém precisa de decorar nomes de ruas, ou caminhos de um local para outro. Mais, tal é, de facto, ineficiente face à profusão de aplicações que o fazem por nós e não poucas vezes descubro que o caminho que fiz centenas de vezes não é, afinal, o melhor caminho. Hoje, sabemos até quando é que esse é o melhor caminho e quando o não é, algo impensável há 10 anos.

A minha aplicação é o Waze (nem sei se isto se configura como publicidade ou não, mas peço desculpa). Na manhã do dia em que estou a escrever isto, a dita aplicação “mandou-me” seguir pela IC17 em direção ao meu destino, ordem por mim seguida, dado que ainda estávamos em horário de poder haver muito trânsito pelo meu percurso habitual. Ia a uma velocidade considerável pela dita via – mas dentro dos limites, para que conste em ata – e apita um aviso de acidente mais à frente. Um ou dois segundos depois, e numa curva, estava o trânsito completamente parado, o que me fez pensar no que poderia ter acontecido se não tivesse sido avisado esse par de segundos antes. Provavelmente, nada aconteceria, mas tenho que admitir que a possibilidade de acontecer foi muito reduzida por aquele aviso.

Mas há mais. Comecei a pensar no que custaria se o Estado montasse um serviço público que fornecesse igual valor. A notificação que recebi foi introduzida por um qualquer outro utilizador da aplicação, que depois é difundida por todos. No local onde o acidente aconteceu, a seguir a uma curva e ocupando duas faixas, sabe-se lá quantos acidentes adicionais aquele aviso evitou. A aplicação vai informar, ainda, os demais utilizadores que pensassem em usar aquela via e vai desviar o tráfego para vias alternativas, uma vez que aquele percurso se tornou demasiado lento.

Como ainda sou do tempo em que havia senhores em helicópteros a informar as pessoas antes de sair de casa de qual o melhor percurso para o emprego, devo dizer que muito se progrediu em termos de serviço público desde essa altura. O que é interessante é que, do ponto de vista técnico, nem sequer é uma coisa por aí além sofisticada. É complicada em termos arquiteturais, de forma a obter uma resposta rápida para os utilizadores, mas nem se pode dizer que, matematicamente, seja algo muito complexo.

Contrapondo, porém, à sua baixa sofisticação técnica, está a sua sofisticação conceptual. Toda a plataforma vive do contributo de cada um dos dispositivos que a utiliza. Há um efeito de comunidade em que o proveito da sua utilização deriva do contributo que se dá com a sua utilização e, neste aspeto, é brilhante! Mesmo que conseguíssemos imaginar que as autoridades responsáveis pela regulação do trânsito conseguissem atingir um tal nível de serviço (a lei portuguesa impõe um funcionamento pré-histórico da nossa administração), dificilmente conseguiriam aquilo que resulta como o principal ativo da app – a nossa colaboração. Porque são quem nos multa, quem nos persegue, quem nos manda parar e, sejamos honestos, ninguém quer colaborar nisso. E é precisamente sobre isto que gostaria de lançar a reflexão: porque é que o serviço de valor vem de uma app estrangeira, a quem não pagamos, e não daqueles nacionais a quem de facto pagamos para fazer aquilo que a app nos proporciona?

As pessoas que se dedicam à economia comportamental terão aqui um caso para estudar em detalhe, mas parece razoável que se avance com a hipótese que as entidades que nos castigam, dificilmente podem esperar que recebam colaboração sem um prémio compensatório. Esta hipótese é reforçada com o facto de um dos tipos de aviso permitidos pela aplicação ser “Presença de Polícia” e, outro, “Radar de Velocidade”. As pessoas da autoridade tributária poderiam, eventualmente, contribuir para validar esta hipótese, já que o ato de pedir fatura com número de contribuinte deve ter subido substancialmente depois de se terem introduzido sorteios de automóveis e descontos no IRS. Ainda assim, a percentagem de faturas com número de contribuinte no grande consumo deve manter-se completamente marginal.

Assim, onde faria sentido o Estado português ter usado mais especialistas em economia comportamental e menos especialistas em construir apps, seria no caso da app da Covid. Não seria assim tão complicado perceber que ninguém vai contribuir para algo do qual não se percebe o prémio. Digo isto, porque no início da crise da Covid-19 formaram-se diversos consórcios e associações de empresas, entidades académicas e individuais, que até tiveram alguma divulgação mediática. E, como é relativamente óbvio porque é uma coisa que salta à vista, “toda a gente” pensou numa aplicação que usasse a georreferenciação e o contágio. E “toda a gente” abandonou a ideia, porque não há prémio para quem está contaminado para andar a dizer que está contaminado. Na verdade, o que acontece é que quem está contaminado é castigado pelas autoridades quando anda na rua. E mesmo que não fosse pelas autoridades, seria pelas outras pessoas.

Ou seja, quando as autoridades estão à espera de um efeito Waze, aquilo que vão receber como colaboração será aquilo que as autoridades fiscais, ou as autoridades de trânsito, recebem como colaboração. Ou seja, algo perfeitamente marginal. E nesse caso, todo o investimento que se colocou na app foi, tudo indica até agora, inútil. Pode haver muita gente a instalar, mas dificilmente alguém contaminado se regista e, mesmo que o faça, não vai partilhar o seu estado (no telefone desativa-se essa possibilidade). Isto irá chocar os meus amigos próximos, mas teria sido mais eficaz se tivesse havido um investimento prévio num qualquer laboratório de economia comportamental (céus, estou a dizer bem dos economistas…). Os especialistas que conheço teriam montado a experiência e teriam chegado rapidamente à conclusão que aqui se coloca apenas como hipótese: que ninguém colabora com quem o castiga e dificilmente o faz sem receber nada em troca pela sua contribuição. É verdade que os não contaminados receberiam, à partida, o prémio de saber se a pessoa próxima pode estar infetada, mas o contaminado recebe apenas castigo e isso anula qualquer proveito que os não contaminados esperem receber.

A experiência de economia comportamental poderia contribuir não apenas para a decisão do investimento na app, como também para a definição geral das medidas das autoridades de saúde. O que o efeito Waze demonstra é que as pessoas contribuem individualmente para o bem comum nas condições certas, sendo capazes de acrescentar valor ao serviço público oferecido pelo Estado. Aquilo que se está a passar nas escolas, com regras impostas nas salas de aula que são perfeitamente inúteis assim que os miúdos saem das instalações, e que geram conflitos com pais, professores e alunos, está a provar isso mesmo. Ninguém está com vontade de colaborar para o bem comum, nem quem anda nas escolas, nem quem está a produzir regras e parece relativamente óbvio, nesta fase, que alguém tem de conseguir ali um efeito Waze. Procurem os laboratórios de economia comportamental (*). Por favor!

(*) Por exemplo, o  XLAB