Rui Ramos Seguir Colunista do Observador O Euro, a Grécia, as dúvidas de Vítor Bento e as minhas A perspectiva de Vítor Bento, apesar de sugestiva, não me parece a mais adequada para perceber as frustrações das políticas de ajustamento desde 2010-2011. 10 Fev 2015, 12:18 437 Vítor Bento tem dúvidas em relação à zona Euro, e eu tenho dúvidas em relação às dúvidas de Vítor Bento. Admiro Vítor Bento e aprendo sempre muito com ele. Mas a sua perspectiva, que reduz tudo a “um problema típico de desequilíbrios das balanças de pagamentos em regime de câmbios fixos”, apesar de sugestiva, não me parece a mais adequada para perceber as frustrações das políticas de ajustamento desde 2010-2011. O Euro é o resultado de uma decisão política, que até agora integrou monetariamente 19 Estados independentemente do seu nível de desenvolvimento e da sua competitividade, sem prever saídas. Esperou-se que a própria participação na zona Euro, ao impedir os abusos da moeda (que eram uma maneira indirecta de cortar salários e pensões) e ao proporcionar investimento barato, levaria os países mais pobres e menos competitivos a prepararem-se para crescer de modo sustentável. Sabemos agora que não levou: no sul da Europa, os subsídios e os juros baixos apenas multiplicaram as casas e os centros comerciais.Vítor Bento afirma que a dívida pública na zona Euro não subiu muito até à crise de 2008. Em Portugal, porém, a dívida bruta das administrações públicas cresceu de 50% do PIB em 2000 para 68,4% em 2007: não tanto como depois, mas bastante. Mas a crise de 2008 inspirou uma nova decisão política com consequências: fazer tudo para evitar a recessão. A Alemanha conteve-se, mas não os países do sul: em Portugal, o défice das administrações públicas chegou a 11,2% do PIB em 2010 e a dívida pública aos 111,1% em 2011, e isto sem grandes bancos para resgatar, como a Irlanda. Foi então que os mercados, anestesiados até aí pela integração monetária, restringiram o financiamento.Tivemos assim a crise de dívida soberana do sul, que foi a ocasião de outra decisão política marcante. Para evitar a desagregação da zona Euro, recorreu-se a resgates e fez-se intervir o BCE e o FMI. A ideia era, desta vez, exigir reformas estruturais como contrapartida das ajudas. O dinheiro veio, os juros baixaram, mas as reformas ficaram mais ou menos no papel dos memorandos, e o crescimento económico necessário para absorver o desemprego não apareceu. Toda a gente começou então a afligir-se com o desemprego e a baixa de preços, de modo a exigir ainda mais dinheiro ao BCE. Mas fará sentido dizer, como diz Vítor Bento, que “estávamos melhor” em 2008? Sim, o desemprego era mais baixo, mas o défice da balança de pagamentos em Portugal, por exemplo, atingira os 19 mil milhões de euros, cerca de 10% do PIB. Estávamos bem apenas no sentido em que alguém a cair de uma grande altura está bem durante todo o percurso até ao momento de se estatelar no chão.As dificuldades da Grécia, como de outros países sob assistência, não derivam apenas de um mau desenho do programa de ajustamento. Talvez o programa pudesse ter sido melhor, mas a falta de competitividade da economia grega e sobretudo a sua recusa de melhorar essa competitividade são talvez candidatos mais forte para causas da estagnação. O que define o Syriza e os seus aliados de extrema-direita racista não é o repúdio da dívida, que até já querem pagar. Aquilo em que verdadeiramente consiste o seu projecto é na recusa da abertura e da flexibilização da economia. Esta resistência à mudança permite antecipar que, mesmo que os eleitorados dos países excedentários do norte pudessem ser persuadidos a ser ainda mais generosos, a nova liberalidade seria mal aproveitada pelos países deficitários do sul. Não se trata de um raciocínio moral. Se o dinheiro barato ou o subsídio fossem a solução, a Grécia nunca deveria ter tido problemas, porque há trinta anos que recebe fundos do norte da Europa para se desenvolver e escapar a bancarrotas (só desde 2010, embolsou 240 mil milhões de euros a juros baixos e com maturidades longas, e teve uma grande parte da dívida perdoada). Sem as chamadas “reformas”, o dinheiro, só por si, nunca será mais do que um paliativo temporário, tal como os perdões de dívida, porque a economia da Grécia não é capaz de usar os recursos de outra maneira. Muito provavelmente, serviria apenas para aumentar as importações com origem na Alemanha, como já está a acontecer em Portugal. Ora, ao eleger o governo do Syriza e da extrema-direita, o eleitorado grego sinalizou que não quer adaptar a sua economia para funcionar dentro da zona Euro. É este o problema que não cabe na análise de Vítor Bento.Neste ponto, chegámos ao maior erro da zona Euro, e que, esse sim, é o erro fatal: a ideia de que o enquadramento e a pressão externa bastariam para provocar mudanças na Grécia e em outros países, independentemente das configurações de forças políticas internas. Bem apertados, os gregos arranjar-se-iam para resolver o problema. Não se arranjaram. Pelo contrário: a pressão externa serviu apenas para fazer os partidos europeístas parecerem agentes de um castigo estrangeiro, e deu a bandeira da soberania aos populismos da extrema-esquerda e da extrema-direita. Mais: o enquadramento do Euro criou a expectativa de que, para preservar a união monetária, toda a UE acabaria por submeter-se ao Syriza, cujo despesismo pareceu assim credível aos eleitores gregos. Ironia da história: o Euro, que se julgava fosse o instrumento de transformação do sul, funciona agora como a primeira barricada do imobilismo.Em suma, o “erro” não está apenas na relutância da Europa do norte em partilhar os seus excedentes. A questão é política e não simplesmente monetária, e como tal não pode ser resolvida pelo expediente das transferências ou por outro qualquer novo malabarismo financeiro. Alan Greenspan pode ter razão desta vez: é preciso criar condições para que a Grécia dirigida pelo Syriza e pela extrema-direita possa seguir o seu caminho alternativo fora da zona Euro.