Cai o pano sobre a época futebolística em Portugal, edição 2018/2019. O Benfica assegurou a reconquista do Campeonato, sendo unânime o reconhecimento da figura maior dessa proeza: Bruno Lage. O “Homem do leme”, música eternizada pelos Xutos e Pontapés, dá o mote para recordar a obra do treinador campeão com apenas meia época de trabalho à frente da equipa.

Sozinho na noite
um barco ruma para onde vai.
Uma luz no escuro brilha a direito
ofusca as demais.

Sozinho na noite. Era precisamente assim que se encontrava Luís Filipe Vieira no final de novembro de 2018. Na ressaca da derrota por 5-1 frente ao Bayern de Munique, o presidente do Benfica pernoitou no Caixa Futebol Campus e, durante a noite, viu a tal “luz”, que brilhou e lhe indicou o rumo a seguir. Esse rumo passava pela manutenção de Rui Vitória como treinador das águias, apesar dos resultados menos positivos e do fraco futebol apresentado pela equipa, que tanta contestação estavam a gerar.

As críticas ao treinador português multiplicavam-se nos meios de comunicação e subia a pressão, não só externa como interna, para a sua substituição no comando técnico do clube da Luz. Ao anunciar a decisão de manter Rui Vitória, Luís Filipe Vieira fez questão de vincar que essa decisão era, de facto, sua, revelando que a posição dos restantes responsáveis pelo futebol do Benfica era contrária à sua. Uma decisão histórica, porque humilhante para todo o universo benfiquista. Jamais um presidente de um clube com esta dimensão pode justificar uma decisão tão importante com uma luz que veio a meio da noite. Ponto final, parágrafo.

E mais que uma onda, mais que uma maré…
Tentaram prendê-lo impor-lhe uma fé…

Mas, vogando à vontade, rompendo a saudade,
vai quem já nada teme, vai o homem do leme…

Luís Filipe Vieira apoiou-se na situação vivida em 2013 com Jorge Jesus, com contornos semelhantes ainda que em momentos distintos da época, para reforçar que já anteriormente tinha remado contra a maré e levado o Benfica a bom porto. Mas a onda de bons resultados que se seguiram após este voto de confiança em Rui Vitória (sete vitórias consecutivas), esbarrou no empate com o Desportivo das Aves (Taça da Liga) e na derrota com o Portimonense, a contar para o Campeonato, que atirou o Benfica para o quarto lugar da classificação, a sete pontos do líder FC Porto.

Esta derrota do Benfica em Portimão rompeu de vez a ligação com Rui Vitória, tendo sido apontados nomes como José Mourinho, Jorge Jesus, Paulo Fonseca, Leonardo Jardim ou Rui Faria para suceder ao técnico ribatejano. Nenhum destes se confirmou, acabando por ser Bruno Lage, aquele que nada teme, a assumir o leme da navegação benfiquista, que tentava salvar uma época dada já como perdida. Não há mérito de Luís Filipe Vieira neste momento crucial da época, porque ficou claro que Bruno Lage não foi aposta primeira mas sim solução de recurso.

E uma vontade de rir nasce do fundo do ser.
E uma vontade de ir, correr o mundo e partir,
a vida é sempre a perder…

Com Bruno Lage, a vida do Benfica não foi sempre a perder. Antes pelo contrário, o treinador fez uma segunda metade de época fantástica. Mudou o sistema tático, recuperou jogadores que estavam “desaparecidos”, deu a titularidade e oportunidades aos jovens e recuperou os sete pontos de desvantagem para o primeiro lugar, com destaque para as vitórias em Alvalade, no Dragão, em Braga e em Guimarães, oferecendo a reconquista do Campeonato a um Benfica que, quando Lage chegou ao leme, estava afastado por todos dessa luta. Se o Benfica festejou o 37º título de campeão esta época, deve-o ao homem do leme: Bruno Lage.

E não foi só pela reconquista do Campeonato que o técnico se destacou. A sua postura é a de alguém que sabe estar no mundo do futebol, uma qualidade que tem tanto de rara como de menosprezada. O seu discurso é de uma elevação e de uma categoria tremendas, representando um raio de luz legítimo para todos os que aspiram a um futebol português mais digno, com mais fair play e com um ambiente mais saudável.

Mais do que teorias, frases feitas e lugares comuns, Bruno Lage insistiu sempre no treino como a variável chave para o sucesso, a consistência, o trabalho árduo, que seriam recompensados com vitórias. E já após a conquista do Campeonato, na última conversa com jornalistas, o reconhecimento do mérito do rival FC Porto e até a admiração por Herrera. Um discurso genuíno, verdadeiro e que abre espaço para a pacificação de um ambiente tão conspurcado como o do futebol português.

Mas o percurso de Bruno Lage não foi imaculado e também teve alguns solavancos. Se da eliminação na Taça da Liga, frente ao FC Porto, não se pode apontar o dedo ao treinador, até pela excelente exibição que a equipa fez, o mesmo já não se pode dizer em relação às eliminações na Taça de Portugal e na Liga Europa. Em ambas as competições o Benfica saiu da primeira mão em vantagem na eliminatória mas acabou por ser eliminado na segunda mão, por falhas claras na abordagem a esse segundo jogo. Bruno Lage mostrou dificuldades em preparar a equipa para gerir a vantagem trazida do primeiro jogo, mas também se pode alvitrar se não foi mais um caso de gestão de plantel, para atacar aquela que era a prioridade, o Campeonato.

A vontade de rir, disse-o o próprio Bruno Lage, chegou no último jogo da época, apenas quando o quarto árbitro levantou a placa com os minutos de compensação. Aí chegou a sensação de dever cumprido e de que o título já não escapava à sua equipa. Para o futuro, fica a vontade de Bruno Lage ir em busca do bicampeonato, correr o mundo e partir à conquista da Europa. Os adeptos do Benfica assim o esperam.