O relatório da Evolução do Desempenho do Serviço Nacional de Saúde em 2022, publicado ontem pelo Conselho das Finanças Públicas, é mais uma chamada de atenção para algo que sabemos, mas que insistimos em ignorar: fazer mais não implica, necessariamente, fazer melhor.

A máxima não se aplica exclusivamente ao sistema de saúde, é certo, mas ficou exposta neste documento que destaca aquilo que parece difícil de perceber – em 2022 realizaram-me mais consultas hospitalares e mais operações cirúrgicas – mais 138 mil e 95 mil, que em 2021, respetivamente –, mas as listas de espera – tanto para primeira consulta como para cirurgia – continuaram a aumentar.

“Mesmo quando as coisas melhoram, nós ficamos pior”, resumiu esta quinta-feira o jornalista Miguel Pinheiro, e as más notícias não ficam por aqui: o mesmo relatório clarifica que “é expectável que a afluência aos serviços de urgência continue a aumentar nos próximos anos” e que “as crescentes necessidades da população poderão traduzir-se numa maior pressão financeira sobre o sistema de saúde”.

O envelhecimento da população, associado ao aumento da prevalência de múltiplas doenças crónicas explica uma parte do problema; a dificuldade dos sistemas de saúde se adaptarem a esta realidade forma a outra parte da equação.

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De vilão a herói: qual o caminho para o SNS?

As estratégias tradicionais, baseadas no volume, – nas quais o aumento da procura é abordado com mais recursos, – não são viáveis, nem tão pouco possíveis, numa altura em que a falta de recursos humanos na saúde ocupa as manchetes – de acordo com a Organização Mundial da Saúde, em 2030, haverá um défice de 10 milhões de trabalhadores no setor, em termos globais.

Por outro lado, é preciso encarar que as necessidades mudaram radicalmente: concebidos para lidar maioritariamente com situações agudas e tendo como pedras basilares grandes hospitais centrais com respostas para tudo, os sistemas de saúde atuais veem crescer exponencialmente os doentes crónicos que requerem um acompanhamento a longo prazo, dentro e fora do hospital.

Em causa está a necessidade de repensar e redefinir os processos de prestação de cuidados de saúde para os tornar mais integrados, mais eficientes e mais adequados às necessidades atuais das pessoas. Para tal, dois conceitos muito menos falados pela opinião pública – estratificação e continuidade – são a receita para aquilo que pode parecer à primeira vista impossível: fazer mais e melhor com os mesmos recursos.

Quantos dos doentes que foram às urgências em 2022 poderiam não o ter feito se as suas necessidades tivessem sido prevenidas ou identificadas atempadamente e estes fossem encaminhados, de forma integrada, para uma consulta hospitalar ou mesmo nos cuidados de saúde primários? Quantas consultas de seguimento a doentes estáveis poderiam ter sido substituídas por um qualquer momento de comunicação com a equipa de saúde? Quantas camas dos serviços de cirurgia seriam libertadas se os médicos tivessem as ferramentas necessárias para garantir as altas precoces? Quantas readmissões hospitalares podiam ter sido evitadas se as complicações fossem identificadas precocemente e os doentes apoiados sobre os comportamentos a adotar? Quantas horas de médicos e enfermeiros gastas em tarefas muito pouco diferenciadas como o preenchimento redundante de registos clínicos ou chamadas telefónicas poderiam ter sido poupadas se estas tarefas fossem feitas automaticamente?

Temos, atualmente, mais e melhores condições para apostar na prevenção, expandir a saúde para fora dos hospitais e adequar o tipo de resposta e os recursos utilizados de acordo com o real nível de risco de cada doente. Mas, para isso, a evolução do doente fora das instituições de saúde não pode continuar a ser uma caixa negra para os médicos. Porque a doença não acontece com data e hora marcada e só essa informação permitirá fazer escolhas acertadas.

Heroísmos à parte, aquilo que todos queremos é um SNS de qualidade, seguro, equitativo, próximo, sustentável, universal, transparente e integrado. Que dê aos profissionais aquilo que mais precisam: tempo e qualidade para se focarem na profissão que os apaixona, fazendo aquilo em que são diferenciadores, abordando os doentes que efetivamente precisam.